Trechos II



"Mas se eu tivesse ficado, teria sido diferente? Melhor interromper o processo em meio: quando se conhece o fim, quando se sabe que doerá muito mais -por que ir em frente? Não há sentido: melhor escapar deixando uma lembrança qualquer, lenço esquecido numa gaveta, camisa jogada na cadeira, uma fotografia –qualquer coisa que depois de muito tempo a gente possa olhar e sorrir, mesmo sem saber por quê. Melhor do que não sobrar nada, e que esse nada seja áspero como um tempo perdido.Eu prefiro viver a ilusão do quase, quando estou "quase" certa que desistindo naquele momento vou levar comigo uma coisa bonita. Quando eu "quase" tenho certeza que insistir naquilo vai me fazer sofrer, que insistir em algo ou alguém pode não terminar da melhor maneira, que pode não ser do jeito que eu queria que fosse, eu jogo tudo pro alto, sem arrependimentos futuros! Eu prefiro viver com a incerteza de poder ter dado certo, que com a certeza de ter acabado em dor. Talvez loucura, medo, eu diria covardia, loucura quem sabe!”

:*

"E uma compulsão horrível de quebrar imediatamente qualquer relação bonita que mal comece a acontecer. Destruir antes que cresça. Com requintes, com sofreguidão, com textos que me vêm prontos e faces que se sobrepõem às outras. Para que não me firam, minto. E tomo a providência cuidadosa de eu mesmo me ferir, sem prestar atenção se estou ferindo o outro também. Não queria fazer mal a você. Não queria que você chorasse. Não queria cobrar absolutamente nada. Por que o Zen de repente escapa e se transforma em Sem? Sem que se consiga controlar".

:*

“Claro que deve haver alguma espécie de dignidade nisso tudo, ,a questão é onde, não nesta cidade escura, não neste planeta podre e pobre, dentro de mim? Ora não me venhas com autoconhecimentos-redentores, já sei tudo de mim, tomei mais de cinqüenta ácidos fiz seis anos de análise, já pirei de clínica, lembra? você me levava maçãs argentinas e fotonovelas italianas, Rossana Galli, Franco Andrei, Michela Roc, Sandro Moretti, eu te olhada entupida de mandrix e babava soluçando perdi minha alegria, anoiteci, roubaram minha esperança, enquanto você, solidário e positivo, apertava meu ombro com sua mão apesar de tudo viril repetindo reage, companheira, reage, a causa precisa dessa tua cabecinha privilegiada, teu potencial criativo, tua lucidez libertária, bababá bababá. As pessoas se transformavam em cadáveres decompostos à minha frente, minha pele era triste e suja, as noites não terminavam nunca, ninguém me tocava, mas eu reagi, despirei, e cadê a causa, cadê a luta, cadê o potencial criativo?”

:*

"Primeiro você cai num poço. Mas não é ruim cair num poço assim de repente?No começo é. Mas você logo começa a curtir as pedras do poço. O limo do poço.A umidade do poço. A água do poço. A terra do poço. O cheiro do poço. O poçodo poço. Mas não é ruim a gente ir entrando nos poços dos poços sem fim? Agente não sente medo? A gente sente um pouco de medo mas não dói. A gente não morre? A gente morre um pouco em cada poço. E não dói? Morrer não dói.Morrer é entrar noutra. E depois: no fundo do poço do poço do poço do poço você vai descobrir quê."

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"(...)Claro que você não tem culpa, coração, caímos exatamente na mesma ratoeira, a única diferença é que você pensa que pode escapar, e eu quero chafurdar na dor deste ferro enfiado fundo na minha garganta seca que só umedece com vodka, me passa o cigarro, não, não estou desesperada, não mais do que sempre estive, nothing special, baby, não estou louca nem bêbada, estou é lúcida pra caralho e sei claramente que não tenho nenhuma saída, ah não se preocupe, meu bem, depois que você sair tomo banho frio, leite quente com mel de eucalipto, gin-seng e lexotan,depois deito, depois durmo, depois acordo e passo uma semana a ban-chá e arroz integral, absolutamente santa, absolutamente pura, absolutamente limpa, depois tomo outro porre, cheiro cinco gramas, bato o carro numa esquina ou ligo para o CVV às quatro da madrugada e alugo a cabeça dum panaca qualquer choramingando coisas do tipo preciso-tanto-de-uma-razão-para-viver-e-sei-que-esta-razão-só-está-dentro-de-mim-bababá-bababá, até o sol pintar atrás daqueles edifícios, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais destrutiva que insistir sem fé nenhuma?”

:*

“Ando angustiada demais, meu amigo, palavrinha antiga essa, angústia, duas décadas de convívio cotidiano, mas ando, ando, tenho uma coisa apertada aqui no meu peito, um sufoco, uma sede, um peso, não me venha com essas história de atraiçoamos-todos-os-nossos-ideais, nunca tive porra de ideal nenhum, só queria era salvar a minha, ,veja só que coisa mais individualista elitista, capitalista, só queria ser feliz, cara.”

:*

“Num deserto de almas também desertas, uma alma especial reconhece de imediato a outra.”

:*

"Então me vens e me chega e me invades e me tomas e me pedes e me perdes e te derramas sobre mim com teus olhos sempre fugitivos e abres a boca para libertar novas histórias e outra vez me completo assim, sem urgências, e me concentro inteiro nas coisas que me contas, e assim calado, e assim submisso, te mastigo dentro de mim enquanto me apunhalas com lenta delicadeza deixando claro em cada promessa que jamais será cumprida, que nada devo esperar além dessa máscara colorida, que me queres assim porque assim que és..."

:*

"Em luta, meu ser se parte em dois. Um que foge, outro que aceita. O que aceita diz: não. Eu não quero pensar no que virá: quero pensar no que é. Agora. No que está sendo. Pensar no que ainda não veio é fugir, buscar apoio em coisas externas a mim, de cuja consistência não posso duvidar porque não a conheço. Pensar no que está sendo, ou antes, não, não pensar, mas enfrentar e penetrar no que está sendo é coragem. Pensar é ainda fuga: aprender subjetivamente a realidade de maneira a não assustar. Entrar nela significa viver."

:*
 
“De onde vem essa iluminação que chamam de amor, e logo depois se contorce, se enleia, se turva toda e ofusca e apaga e acende feito um fio de contato defeituoso, sem nunca voltar àquela primeira iluminação?”
 
 
Caio F. Abreu
 
Retirado de: http://caio-fernando-abreu.blogspot.com.br/.

Epitáfio de um amor platônico



Vinha há semanas com aquilo pulsando na cabeça. Era uma idéia quase fixa, parecia que tinha sido gravada em pedra. A cada segundo que passava, a agonia aumentava. A fuga do tempo doía, doía muito, e o dia de amanhã era sempre esperado num suplício. Quando ele chegava, era um alívio, que não durava muito. Logo depois se tornava outro suplício, como um círculo vicioso.

No início, era o amor. Amor que nasceu como libertação, como uma forma de defesa. Tinha lido uma vez numa poesia do amigo Zé que para se ter amor, é preciso ser herói. Amor e heroísmo são a mesma coisa. E não era qualquer herói não, tinha que ser como aqueles cavaleiros das Cruzadas, como caubóis do velho oeste, como bombeiros sem medo de prédios em incêndios, como aqueles heróis japoneses que não tinham medo da morte e se sacrificavam em lutas contra monstros e vilões de plástico e borracha.

Logo depois de ter sido ferozmente desprezado por uma garota ingrata, raivosa e antipática, que o desdenhou para preferir um gordão molenga que tinha carro e falava mal dela pelas costas, ele viu que merecia coisa melhor. Muito melhor. A loirinha de cabelos espiralados, olhos negros, sorridente, simpática, cheinha sem exageros, era aquela. Educada e doce, era uma pessoa que emanava luz.

E começou. Gostava dela em segredo. Aproximava-se, puxava conversa, cumprimentava, sorria, trocava algumas palavras e alguns sorrisos. Os momentos de distância eram dolorosos. O tempo se esgotando, muito mais. Então, aconteceu o que um amigo intitulou de "As Quatro Semanas que Abalaram o Mundo". Não, não era filme.

Tinha somente esse tempo para juntar forças, criar coragem e declarar seu amor. Os dias foram passando, os fins de semana se sucedendo. E nada. A cada segundo, a hora fatal se aproximava.

E, como nos seriados japoneses de que tanto gostava, os episódios caminhavam para a conclusão:

- Olha, eu preciso conversar em particular com você uma hora dessas. Você poderia me lembrar?

- Sim- ela respondeu.

- Olha, já estou de saída, amanhã a gente pode falar em particular?

Ela balançou a cabeça numa afirmativa.

Chegou o dia. Pânico, coração descontrolado, sangue frio quase cristalizando-se nas veias, suor descendo testa abaixo, garganta seca como o deserto de Atacama em dias áureos. Chamou-a:

- Preciso falar agora em particular com você. Pode ser agora?

- Pode ser sim. O que é?

- É um negócio meio complicado...meio difícil...talvez fosse até fique brava comigo...

- Nossa! exclamou ela, os lindos olhos se arregalando.

- Bom, então eu vou falar- chamou para mais perto. Ela obedeceu, puxando a amiga, que já percebeu do que se tratava e ia saindo pela tangente.

- Mas é um negócio em particular mesmo...

- Bom, então me fala via ICQ- disse ela- Vou estar online às nove horas.

Concordou. Era onze e vinte e oito da manhã quando assinou a sentença de seu destino. Enfim a hora temida e ansiada chegou. O nome dela em azul, a troca de mensagens eletrônicas. E foi pelos cabos que as palavras dela chegaram. Conta-se que naquela noite as caixas de som do computador emitiram um soluço, as placas ficaram comovidas e os elétrons chegaram até a chorar.

- Agora que me caiu a ficha, acho que você confundiu um pouco as coisas- escreveu ela- não vou te iludir, mas acho que o que rola entre a gente é só amizade.

- Não- choramingou ele- Meu Jesus Cristo!

Não se sabe se foi uma queda na conexão, ou uma interceptação de algum hacker, ou até algum sistema de criptografia, mas sua tentativa de comunicação com o Céu não deu certo.

O tempo passou. Lágrimas secaram, feridas reduziram-se a apagadas cicatrizes, ressentimentos e mágoas acabaram caducando. Voltaram a se encontrar. Eram amigos, conversavam bastante. Riam muito juntos. Contudo, sempre que se abraçavam para se cumprimentar, uma lápide de mármore surgia do nada e caía bem em cima de suas cabeças, pegando-os sempre em cheio. E quando olhavam o epitáfio gravado na pedra, abraçavam-se e choravam. Até ficaram íntimos nessa troca de lágrimas, ranho e soluços.

E o epitáfio era, gravado em tipos maiúsculos: CTRL+ALT+DEL.



José Marcelo Siviero

Uma gota de sangue


Aquele era o seu pior inimigo. O mais cruel, o mais cínico, o mais sem piedade. Um inimigo que falava a verdade. Sempre. Sempre a verdade. Toda aquela verdade que Isabel conhecia muito bem e que nunca a abandonava.

Ainda com a escova de cabelo na mão, ela não podia deixar de encará-lo. Lá estava ele, encarando Isabel de volta, com os próprios olhos da menina. De um lado, eles estavam molhados. Do outro, refletiam-se gelados, vítreos, impiedosos.

— Feia... Isabel sufocou um soluço.

— Gorducha... Uma lágrima formou-se na pontinha da pálpebra.

— Que óculos horrorosos...

Como um bichinho que foge, a lágrima saiu da toca e foi esconder-se no aro dos óculos.

— Você plantou uma rosa no nariz, é?

— Cale a boca... por favor...

Já mais grossa, a lágrima livrou-se dos óculos e escorreu pelo rosto de Isabel.

— Sabe que essa rosa vai ficar amarela? Amarela e grande...

A lágrima penetrou-lhe pelos lábios e Isabel reconheceu aquele gosto salgado, tão comum e tão amargo em momentos como aquele.

— Por favor... me deixe em paz...

— Você vai espremer a rosa amarela. O seu nariz vai inchar...

Os lábios de Isabel apertaram-se, molhados, sem palavras. Aquela garota que sempre tinha resposta para tudo, sempre uma gozação na hora certa, uma tirada de gênio que deixava qualquer provocador sem graça, não sabia o que dizer quando seu grande inimigo apontava sadicamente cada ponto fraco que havia para apontar.

—... e você vai ter vergonha de voltar às aulas na semana que vem...

— Cale a boca!

A raiva foi tanta que a escova de cabelo voou com força, acertando o inimigo em cheio, bem na cara.

— Isabel! Venha cá. Morreu aí no banheiro, é?

A voz penetrou-lhe os ouvidos como uma campainha de despertador. A voz irritante da mãe. Estridente como uma campainha. Devia estar com enxaqueca, é claro. Na certa ia reclamar de alguma coisa, exigir que a filha respeitasse pelo menos sua dor de cabeça, queixar-se de...

O combate com o inimigo estava suspenso, por hora. Isabel sacudiu a cabeça, como se despertasse, e esfregou o rosto, apagando as marcas da luta. Uma última olhada para o inimigo. Ele a olhou de volta, agora com uma rachadura de alto a baixo. "Sete anos de azar!", pensou Isabel. "Ah, o que são sete, para quem já viveu quatorze dos anos mais azarados do mundo?''

— Isabel! — ainda mais irritada, a voz da mãe invadiu o banheiro. — Não me ouviu chamar?

"Quatorze anos de azar!" ainda pensava a menina ao abrir a porta. "Será que a minha mãe quebrou dois espelhos quando eu nasci?"


***


Com as mãos, a mãe apertava as têmporas, como se a cabeça fosse cair, se ela a largasse.


— Você sabe que eu não posso gritar, Isabel. Você devia...

— Está bem, mãe. O que você quer?

— Ai, ai. Tia Adelaide acabou de telefonar. È o aniversário do Cristiano e ela faz questão que você vá.

— Cristiano? Que Cristiano?

— O seu primo, ora. Não se lembra do Cristiano? Vocês brincavam tanto...

— Ah, mãe! Isso já faz um século...

— É, faz tempo mesmo. Também, Adelaide foi casar-se com um homem que não pára em nenhum lugar! Não sei o que tanto tem aquele sujeito de mudar-se de cidade. Mas parece que desta vez vai sossegar. Ele está bem de vida, agora. Montou uma casa que é uma beleza. Adelaide vai fazer uma festa para o Cristiano que...

— Que droga! Aniversário de criança!

— Cristiano faz dezesseis anos, Isabel.

— Eu não quero ir. — Não discuta, Isabel. Minha cabeça está me matando...


***


— É claro que eu vou! — concordou Rosana, do outro lado da linha. — As férias estão no fim mesmo, e os programas andam raros. Acho até gozado: sempre sou eu quem tem de arrastar você para alguma festa. Você sempre arranja uma desculpa, tem sempre que estudar...

— Acontece que eu não quero ir sozinha, Rosana — desculpou-se Isabel, como se estivesse convidando a amiga para uma sessão de tortura. — Minha mãe exige que eu vá. É o aniversário do Cristiano, um primo que eu não vejo há anos. Dizem que sempre foi o melhor aluno da classe. Um chato! E o pior é que ele foi transferido para o nosso colégio. A partir de segunda-feira vou ter de conviver com o chatinho a vida inteira. Faltam só dois dias... A festa deve ser tão chata quanto ele. A gente fica só um pouquinho e...

— Já disse que vou, Isabel. Uma festa é uma festa. E esta não deve ser mais chata do que as outras...


***


Lá estava ele de novo. O inimigo, agora rachado de cima a baixo, dizendo para Isabel que ela ficava medonha com aquela blusa, que seu cabelo estava um lixo, que todo mundo ia rir dela na festa...

— Todos riem, não é? Só que eu nunca dou tempo para que riam de mim. Eles têm de rir do que eu digo. Têm de rir comigo, na hora que eu quero que eles riam. Todo mundo ri do que eu digo, não é? Isabel, a grande gozadora! Isabel, a contadora de casos. Vamos, riam todos com Isabel!

Levemente, seus dedos tocaram a face fria do inimigo, bem na rachadura. Lentamente, seus dedos percorreram a rachadura, tateando como um cego que procura reconhecer alguém.

— Todos riem... Mas eu não queria tantos risos. Eu queria um sorriso apenas. Um só. Queria estar quieta e ver alguém aproximar-se, olhando nos meus olhos... sorrindo... Eu sorriria de volta, e nada mais precisaria ser dito...

Isabel deixou as lágrimas correrem fartas pelo rosto. Foi aí que o inimigo resolveu feri-la mais fundo e cortou-lhe o dedo com a borda da rachadura. Num gesto maquinai, a menina levou o dedo à boca, chupando o ferimento. Na rachadura, no peito do inimigo, ficou uma gota de sangue.

O dedo não doía quase nada.

Era ali que doía.



Trecho do Livro: “A marca de uma lágrima” de Pedro Bandeira.


“Com o amor no coração... e com a morte na alma.” Reler Pedro Bandeira sempre deixa lembranças boas e gostosas... Esse livro, sem sombra de dúvidas, foi um dos mais marcantes que li – e olha que já li muitos e muitos livros – mas este está na minha lista top, pois marcou minha pré-adolescência. Saudades das leituras dessa época da minha vida. Ô época boa, de leituras e descobertas, eu e minhas irmãs comentando todos os livros, brigando pelos melhores, indicando umas às outras... Até hoje lemos e relemos tudo que amamos: Marcos Rey, Álvaro Cardoso Gomes, João Carlos Marinho, Pedro Bandeira e tantos outros. Impossível não ter um comentário quando se fala em livros como o Gênio do Crime, A Droga do Amor, A Hora do Amor e Os Karas.... muito bom.