O baile do colibri nu


SENTADINHO na escada, mão no queixo: a carinha enrugada no corpo do menino de oito anos. Em cada olhinho suspensa uma lágrima vermelha.

O doutor abre a porta. Mais que o João se esforce, não acodem as pernas.

— Fique sentado, rapaz. O que foi?

— O juiz me chamou. Quer pensão, a desgracida.

— A Maria?

— Amanhã no fórum. Dez horas. Levo o doutor comigo.

— O oficial de justiça que intimou?

— Dou uma nota para o doutor.

— Não posso, João. Amanhã eu viajo. Ouça meu conselho.

— Então não vou.

— Se foi chamado, vá. Mas não assine nada. Entendeu bem?

— Estou carpindo a rocinha.

— Que rocinha é essa?Chega-se o parceiro das noitadas no Balaio de Pulga.

— Sou o Carlito, doutor. É uma rocinha de milho. Às meias com o Perereca.

— Ih, meu Deus. Logo o Perereca. Não é ele que bebe?

— Mais que o pai, doutor.

— Só milho torto há de vingar. João cabeceia, um fio de baba fosfórea no queixo imberbe.

— Oi, João. Está me ouvindo?Exibe a lingüinha azul do vinagrão

— uma ostra que não pode engolir nem cuspir.

— O doutor vai. Não é, doutor?

— Já disse que não. Você deve ir. Só não assine.Derruba no joelho o chapelão de palha, um risco branco na testinha lavada de suor frio.

— Já sei. Não assino.Grugruleja um palavrão e oscila perigosamente no degrau. .

— Carlito, não é? Me diga. Ele quis mesmo se enforcar?Subiu na cadeira, enfiou a corda no pescoço, o nó correu. E caiu de pé bem vivinho.

— E a Maria? Está com o André?

— Do André não sei. Com o Joaquim é todo dia. Não tem segredo.

— Como é que pode? Feia, peluda, óculo escuro?

— Tem mais, doutor. Quando estavam juntos, o João voltou de repente. As duas da tarde. Deu com ela e o Juca. Na cama.

— Não adiantou prendê-la na garupa da bicicleta.

— Pelas costas só xinga de Colibri o hominho.

— E os barracos quantos são?

— Eram três. Agora dois. Vendeu um, que foi desmanchado. E bebeu todinho no Balaio de Pulga.O triste colibri ressona, bolhas de espuma no canino de ouro.

— Ei, João? E a tua filha, João? Com quem ficou?

— Diabo de nego. Toquei o porco do nego.

— Você não respondeu. Está com você? Ou com a Maria?

— Comigo. Tanto quer saber. Ajeitei o paiol para o nego.

— Que negro é esse?

— ...

— O negro fez arte com a menina, doutor.

— Peste de nego. O nego sujo.

— Deu queixa para o sargento?Sacode a cabecinha grisalha, bate a pestana que já se fecha.

— O doutor não sabia do baile nu?

— Epa, que história é essa?

— O negro já de olho na menina. Que é bonitinha. Embebedou o João. O negro na cachaça. O João no vinho tinto. E deu a idéia do baile.

— Barbaridade.

— Trouxe a filha do Gervásio para o Colibri. E quis para ele a menina.

— Ah, negro safado.

— O doutor sabe aquela radiolinha do João? Ligou a todo o volume. Nosso Colibri, o mais pequeno e barulhento. No melhor da festa os vizinhos reclamaram do barulho. E a polícia acabou com o baile.

— Não me diga.

— Quando chegou o sargento viu todos pelados. O negro com a menina do João. E ele com a filha do Gervásio. De doze anos. Que tinha fugido do asilo. Daí o Carlito ri gostoso. O doutor dá um passo para trás.

— Ele se gabou. Fui preso, sim. E batia no peitinho sem nenhum cabelo. Antes derrubei dois praças.

— Pouca vergonha, João.

— Dele não é a culpa, doutor. Foi o negro. O sargento abriu a porta, a música bem alto

— e todo mundo nu. .

— Com a menina de doze anos janela. Mas o João foi fácil. Carregado — nu e esperneando de botinha vermelha — no colo de um praça. Sem tempo de alcançar a pistolinha.

— O último dos heróis.

— Levaram para a cadeia. As meninas na sala do sargento. Não é que o velho Gervásio quis dar partedo João? A guria, sorte dele, estava inteira.

—...

— O negro, sim, perdeu a filha do João. Um negro daquele tamanho, já viu? E o juiz casou com separação.

— De corpos. E o bandido guardou a menina? - O João arrumou para os dois o ranchinho dos fundos.Furioso o colibri ostenta na cinta o punhal e a pistolinha.

— Esse nego porco. O diabo do nego sujo.

— Entendeu bem, João? Você precisa ir. Nada não assine.Repuxa no pescocinho o enorme lenço encarnado.

— O doutorzinho é meu pai.

— Só faça trato de boca.

— Os três barracos são meus. O hominho que ganhou. Foi o hominho que trabalhou.

— Metade é do hominho. E metade da Maria.

— Não se fie, doutor. Essa é uma traidora: De que lado o doutor está?

— Vá para casa, João. Dormir na cama.O gigante dos colibris ergue-se no salto da botinha. .

— Acuda o hominho.Pende para cá e para lá, upa, abraçado na palmeira.

— Não vai longe esse hominho.


Dalton Trevisan


Textos extraídos do livro "Virgem louca, loucos beijos", Ed. Record - Rio de Janeiro - 1979, pág. 74.

CONTO (NÃO CONTO)

Aqui, um território vazio, espaços, um pouco mais que nada. Ou muito, não se sabe. Mas não há ninguém, é certo. Uma cobra, talvez, insinuando-se pelas pedras e pela pouca vegetação. Mas o que é uma cobra quando não há nenhum homem por perto? Ela pode apenas cravar seus dentes numa folha, de onde escorre um líquido leitoso. Do alto desta folha, um inseto alça vôo, solta zumbidos, talvez de medo da cobra. Mas o que são os zumbidos se não há ninguém para escutá-los? São nada. Ou tudo. Talvez não se possa separá-los do silêncio ao seu redor. E o que é também o silêncio se não existem ouvidos? Perguntem, por exemplo, a esses arbustos. Mas arbustos não respondem. E como poderiam responder? Com o silêncio, lógico, ou num imperceptível bater de suas folhas. Mas onde, como, foi feita essa divisão entre som e silêncio, se não com os ouvidos?Mas suponhamos que existissem, um dia, esses ouvidos. Um homem que passasse, por exemplo, com uma carroça e um cavalo. Podemos imaginá-los. O cavalo que passa um dia e depois outro e depois outro, cumprindo sua missão de cavalo: passar puxando uma carroça. Até que um dia veio a cobra e zás: o sangue escorrendo da carne do cavalo. O cavalo propriamente dito – isto é, o cérebro do cavalo-sabe que algo já não vai tão bem quanto antes. Onde estariam certos ruídos, o eco de suas patas atrás de um morro, o correr do riacho muito longe, o cheiro de bosta, essas coisas que dão segurança a um cavalo? Onde está tudo isso, digam-me?O carroceiro olha tristemente para o cavalo: somos apenas nós dois aqui neste espaço, mas o cavalo morre. Relincha, geme, sem entender. Ou entendendo tudo, com seu cérebro de cavalo. Diga-me, cavalinho: o que sente um cavalo diante da morte?
Diga-me mais, cavalinho: o que é a dor de um homem quando não há ninguém por perto? Um homem, por exemplo, que caiu num buraco muito fundo e quebrou as duas pernas. Talvez essa dor devore a si mesma, como uma cobra se engolindo pelo rabo.
Mas tudo isso é nada. Não se param as coisas por causa de um cavalo. Não se param as coisas nem mesmo por causa de um homem. Esse homem que enterrou o cavalo, não sem antes cortar um pedaço de sua carne, para comer mais tarde. E agora o homem tinha que puxar ele mesmo a carroça. E logo afastou do pensamento a dor por causa de seu cavalinho querido. O homem agora tinha até raiva do cavalo, por ele ter morrido. O homem estava com vergonha de que o vissem – ele, um ser humano – puxando uma carroça. Mas por que seria indigno de um ser humano puxar uma carroça? Por que não seria indigno também de um cavalo? Ora, um cavalo não liga para essas coisas, vocês respondem. No que têm toda razão.
E afinal, não podemos saber se o viram ou não, o homem puxando sua carroça, pois nos ocupamos apenas do que se passa aqui, neste espaço, onde nada se passa. Mas de uma coisa temos certeza: esse homem também encontrou um dia sua hora. E talvez – porque não tinha mãe, nem pai, nem mulher, nem filhos nem amigos – ele haja se lembrado, na hora da morte, de seu cavalo. O homem pensou, talvez, que agora iria encontrar-se com o cavalo, do outro lado. Sim, do outro lado: de onde vêm os ecos e o vento e onde se encontram para sempre homens e cavalos.
Por esse outro lado há uma linha tênue, que às vezes se atravessa – uma fronteira. Essa linha, você atravessa, retorna; atravessa outra vez, retorna, recua de medo. Até que um dia vai e não volta mais.
Aquele homem, no tempo em que atravessava este espaço aqui, beirando a fronteira do outro lado, gritava para escutar o eco e sorria para o cavalo. O homem tinha certeza de que o cavalo sorria de volta, com seus enormes dentes amarelos. O homem era louco. Mas o que é a loucura num espaço onde só existem um homem e um cavalo? E talvez o cavalo sorrisse de verdade, sabendo que ali não poderiam acusá-lo de animal maluco e chicoteá-lo por causa isso.
Depois foram embora o homem e o cavalo. O cavalo, para debaixo da terra, alimentar os vermes que também ocupam este espaço, apesar de invisíveis. Principalmente porque não há olhos para vê-los. Já o homem foi morrer mais longe. E ficou de novo este território vazio, espaços, um pouco mais que nada. Não sabemos por quanto tempo, porque não existe tempo quando não existem coisas, homens, movimentando-se no espaço.
Mas, subitamente, eis que este território é de novo invadido. Vieram outros homens e máquinas, e acenderam fogo, montaram barracas, coisas desse tipo, que os homens fazem. Tudo isso, imaginem, para estender fios em postes de madeira. (Fios telegráficos, explicamos, embora aqui se desconheçam tais nomes e engenhos.) Então o silêncio das noites e dias era quebrado por um tipo diferente de zumbidos. Mas para quem esses zumbidos, se aqui ninguém escuta, a não ser insetos? E de que valem novos zumbidos para insetos, que já os produzem tão bem? Sim, vocês estão certos: os zumbidos destinavam-se a pessoas mais distantes, talvez no lugar onde morreu o dono do cavalo. O que não nos interessa, pois só cuidamos daqui, deste espaço.
Mas, de qualquer modo. Todos eles (insetos, cobras, animaizinhos cujo nome não se conhece, sem nos esquecermos dos vermes, que haviam engordado com a carne do cavalo) sentiram-se melhor quando vieram outros homens – bandidos, com certeza – e roubaram os postes, fios e zumbidos. Agora tudo estava novamente como antes, tudo era normal: um território vazio, espaços, um pouco mais que nada. Ou muito, não se sabe. Mas não há ninguém, é certo. Uma pequena cobra, talvez, insinuando-se pelas pedras e pela pouca vegetação – e a cravar seus dentes numa folha.
Às vezes, porém, aqui é tão monótono que se imagina ver um vulto que se move por detrás dos arbustos. Alguém que passa, agachado? Um fantasma? Mas como, se há soluços? Por acaso soluçam, os fantasmas? Mas o fato é que, de repente, escutam-se (ou se acredita escutar) esses lamentos, uma angústia quase silenciosa.
Ah, já sei: um menino perdido, a chorar de medo. Ou talvez um macaquinho perdido, a chorar de medo. Ah, apenas um macaquinho, vocês respiram aliviados. Mas quem disse que a dor de um macaquinho é mais justa que a dor de um menino?
Mas o que estão a imaginar? Isso aqui é apenas um menino – ou um macaquinho – de papel e tinta. E, depois, se fosse verdade, o menino poderia morrer pela cobra. Ou então matar a cobra e tornar-se um homem. No caso do macaquinho, tornar-se um macacão. Um desses gorilas que batem no peito cabeludo, ameaçando a todos. Talvez porque se recordasse do medo que sentiu da cobra. Mas não se esqueçam, são todos de papel e tinta: o menino, o macaquinho, o macacão, seus urros e os socos que dá no próprio peito cabeludo. Cabelos de papel, naturalmente. E, portanto, não há motivos para sustos.
Pois aqui é somente um território vazio, espaços, um pouco mais que nada. Quase um deserto, onde até os pássaros voam muito alto. Porque depois, em certa ocasião, houve uma aridez tão terrível que os arbustos se queimaram e a cobra foi embora, desiludida. No princípio, os insetos se sentiram muito aliviados, mas logo perceberam como é vazia de emoções a vida dos insetos quando não existe uma cobra a perseguí-los. E também se mandaram, no que logo foram seguidos subterraneamente pelos vermes, que já estavam emagrecendo na ausência de cadáveres.
Então ficou aqui um território ainda mais vazio, espaços, um pouco mais que nada. Ou muito, não se sabe. Mas não há ninguém, é certo. Nem mesmo uma cobra a insinuar-se pelas pedras e pela vegetação. Pois não há vegetação e, muito menos, cobras.
Mas digam-me: se não há ninguém, como pode alguém contar essa história? Mas isto não é uma história, amigos. Não existe história onde nada acontece. E uma coisa que não é uma história talvez não precise de alguém para contá-la. Talvez ela se conte sozinha.
Mas contar o que, se não há o que contar? Então está certo: se não há o que contar, não se conta. Ou então se conta o que não há para se contar.
Sérgio Sant'Anna
Moriconi, Ítalo. Os cem melhores contos brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000.

O Livro da Solidão









Os senhores todos conhecem a pergunta famosa universalmente repetida: "Que livro escolheria para levar consigo, se tivesse de partir para uma ilha deserta...?

"Vêm os que acreditam em exemplos célebres e dizem naturalmente: "Uma história de Napoleão." Mas uma ilha deserta nem sempre é um exílio... Pode ser um passatempo...

Os que nunca tiveram tempo para fazer leituras grandes, pensam em obras de muitos volumes. É certo que numa ilha deserta é preciso encher o tempo... E lembram-se das Vidas de Plutarco, dos Ensaios de Montaigne, ou, se são mais cientistas que filósofos, da obra completa de Pasteur. Se são uma boa mescla de vida e sonho, pensam em toda a produção de Goethe, de Dostoievski, de Ibsen. Ou na Bíblia. Ou nas Mil e uma noites.

Pois eu creio que todos esses livros, embora esplêndidos, acabariam fatigando; e, se Deus me concedesse a mercê de morar numa ilha deserta (deserta, mas com relativo conforto, está claro — poltronas, chá, luz elétrica, ar condicionado) o que levava comigo era um Dicionário. Dicionário de qualquer língua, até com algumas folhas soltas; mas um Dicionário.

Não sei se muita gente haverá reparado nisso — mas o Dicionário é um dos livros mais poéticos, se não mesmo o mais poético dos livros. O Dicionário tem dentro de si o Universo completo.

Logo que uma noção humana toma forma de palavra — que é o que dá existência ás noções — vai habitar o Dicionário. As noções velhas vão ficando, com seus sestros de gente antiga, suas rugas, seus vestidos fora de moda; as noções novas vão chegando, com suas petulâncias, seus arrebiques, às vezes, sua rusticidade, sua grosseria. E tudo se vai arrumando direitinho, não pela ordem de chegada, como os candidatos a lugares nos ônibus, mas pela ordem alfabética, como nas listas de pessoas importantes, quando não se quer magoar ninguém...

O Dicionário é o mais democrático dos livros. Muito recomendável, portanto, na atualidade. Ali, o que governa é a disciplina das letras. Barão vem antes de conde, conde antes de duque, duque antes de rei. Sem falar que antes do rei também está o presidente.

O Dicionário responde a todas as curiosidades, e tem caminhos para todas as filosofias. Vemos as famílias de palavras, longas, acomodadas na sua semelhança, — e de repente os vizinhos tão diversos! Nem sempre elegantes, nem sempre decentes, — mas obedecendo á lei das letras, cabalística como a dos números...

O Dicionário explica a alma dos vocábulos: a sua hereditariedade e as suas mutações.

E as surpresas de palavras que nunca se tinham visto nem ouvido! Raridades, horrores, maravilhas...

Tudo isto num dicionário barato — porque os outros têm exemplos, frases que se podem decorar, para empregar nos artigos ou nas conversas eruditas, e assombrar os ouvintes e os leitores...

A minha pena é que não ensinem as crianças a amar o Dicionário. Ele contém todos os gêneros literários, pois cada palavra tem seu halo e seu destino — umas vão para aventuras, outras para viagens, outras para novelas, outras para poesia, umas para a história, outras para o teatro.

E como o bom uso das palavras e o bom uso do pensamento são uma coisa só e a mesma coisa, conhecer o sentido de cada uma é conduzir-se entre claridades, é construir mundos tendo como laboratório o Dicionário, onde jazem, catalogados, todos os necessários elementos.

Eu levaria o Dicionário para a ilha deserta. O tempo passaria docemente, enquanto eu passeasse por entre nomes conhecidos e desconhecidos, nomes, sementes e pensamentos e sementes das flores de retórica.

Poderia louvar melhor os amigos, e melhor perdoar os inimigos, porque o mecanismo da minha linguagem estaria mais ajustado nas suas molas complicadíssimas. E sobretudo, sabendo que germes pode conter uma palavra, cultivaria o silêncio, privilégio dos deuses, e ventura suprema dos homens.


Cecília Meireles


(SÃO PAULO, FOLHA DA MANHÃ, 11 DE JULHO DE 1948.)


Neste ano comemoramos os 100 anos do nascimento da querida escritora. Texto extraído do livro "Cecília Meireles - Obra em Prosa - Volume 1", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 1998, pág. 270.

Atenção ao Sábado


Acho que sábado é a rosa da semana; sábado de tarde a casa é feita de cortinas ao vento, e alguém despeja um balde de água no terraço; sábado ao vento é a rosa da semana; sábado de manhã, a abelha no quintal, e o vento: uma picada, o rosto inchado, sangue e mel, aguilhão em mim perdido: outras abelhas farejarão e no outro sábado de manhã vou ver se o quintal vai estar cheio de abelhas.
No sábado é que as formigas subiam pela pedra.
Foi num sábado que vi um homem sentado na sombra da calçada comendo de uma cuia de carne-seca e pirão; nós já tínhamos tomado banho.
De tarde a campainha inaugurava ao vento a matinê de cinema: ao vento sábado era a rosa de nossa semana.
Se chovia só eu sabia que era sábado; uma rosa molhada, não é?
No Rio de Janeiro, quando se pensa que a semana vai morrer, com grande esforço metálico a semana se abre em rosa: o carro freia de súbito e, antes do vento espantado poder recomeçar, vejo que é sábado de tarde.
Tem sido sábado, mas já não me perguntam mais.
Mas já peguei as minhas coisas e fui para domingo de manhã.
Domingo de manhã também é a rosa da semana.
Não é propriamente rosa que eu quero dizer.

Clarice Lispector

Texto extraído do livro "Para não Esquecer", Editora Siciliano - São Paulo, 1992.

Uma Vela para Dario



Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar, encostando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e descansou na pedra o cachimbo.

Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios, não se ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque.

Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo tinha apagado. O rapaz de bigode pediu aos outros que se afastassem e o deixassem respirar. Abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe retiraram os sapatos, Dario roncou feio e bolhas de espuma surgiram no canto da boca.

Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés, embora não o pudesse ver. Os moradores da rua conversavam de uma porta à outra, as crianças foram despertadas e de pijama acudiram à janela. O senhor gordo repetia que Dario sentara-se na calçada, soprando ainda a fumaça do cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas não se via guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.

A velhinha de cabeça grisalha gritou que ele estava morrendo. Um grupo o arrastou para o táxi da esquina. Já no carro a metade do corpo, protestou o motorista: quem pagaria a corrida? Concordaram chamar a ambulância. Dario conduzido de volta e recostado á parede - não tinha os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.

Alguém informou da farmácia na outra rua. Não carregaram Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e, além do mais, muito pesado. Foi largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobriu o rosto, sem que fizesse um gesto para espantá-las.

Ocupado o café próximo pelas pessoas que vieram apreciar o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozavam as delicias da noite. Dario ficou torto como o deixaram, no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.

Um terceiro sugeriu que lhe examinassem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre a camisa branca. Ficaram sabendo do nome, idade; sinal de nascença. O endereço na carteira era de outra cidade.

Registrou-se correria de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupavam toda a rua e as calçadas: era a polícia. O carro negro investiu a multidão. Várias pessoas tropeçaram no corpo de Dario, que foi pisoteado dezessete vezes.

O guarda aproximou-se do cadáver e não pôde identificá-lo — os bolsos vazios. Restava a aliança de ouro na mão esquerda, que ele próprio quando vivo - só podia destacar umedecida com sabonete. Ficou decidido que o caso era com o rabecão.

A última boca repetiu — Ele morreu, ele morreu. A gente começou a se dispersar. Dario levara duas horas para morrer, ninguém acreditou que estivesse no fim. Agora, aos que podiam vê-lo, tinha todo o ar de um defunto.

Um senhor piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça. Cruzou as suas mãos no peito. Não pôde fechar os olhos nem a boca, onde a espuma tinha desaparecido. Apenas um homem morto e a multidão se espalhou, as mesas do café ficaram vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.

Um menino de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do cadáver. Parecia morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.

Fecharam-se uma a uma as janelas e, três horas depois, lá estava Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó, e o dedo sem a aliança. A vela tinha queimado até a metade e apagou-se às primeiras gotas da chuva, que voltava a cair.


Texto extraído do livro "Vinte Contos Menores", Editora Record – Rio de Janeiro, 1979, pág. 20.

Este texto faz parte dos 100 melhores contos brasileiros do século, seleção de Ítalo Moriconi para a Editora Objetiva.

Pequeno Príncipe (trecho)


E foi então que apareceu a raposa:

- Bom dia, disse a raposa.

- Bom dia, respondeu polidamente o principezinho que se voltou mas não viu nada.

- Eu estou aqui, disse a voz, debaixo da macieira...

- Quem és tu? perguntou o principezinho. Tu és bem bonita.

- Sou uma raposa, disse a raposa.

- Vem brincar comigo, propôs o princípe, estou tão triste...

- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda.

- Ah! Desculpa, disse o principezinho.

Após uma reflexão, acrescentou:

- O que quer dizer cativar ?

- Tu não és daqui, disse a raposa. Que procuras?

- Procuro amigos, disse. Que quer dizer cativar?

- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa criar laços...

- Criar laços?

- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos.

E eu não tenho necessidade de ti.

E tu não tens necessidade de mim.

Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás pra mim o único no mundo. E eu serei para ti a única no mundo...

Mas a raposa voltou a sua idéia:

- Minha vida é monótona. E por isso eu me aborreço um pouco. Mas se tu me cativas, minha vida será como que cheia de sol. Conhecerei o barulho de passos que será diferente dos outros. Os outros me fazem entrar debaixo da terra. O teu me chamará para fora como música.

E depois, olha! Vês, lá longe, o campo de trigo? Eu não como pão. O trigo para mim é inútil. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelo cor de ouro. E então serás maravilhoso quando me tiverdes cativado. O trigo que é dourado fará lembrar-me de ti. E eu amarei o barulho do vento do trigo...

A raposa então calou-se e considerou muito tempo o príncipe:

- Por favor, cativa-me! disse ela.

- Bem quisera, disse o principe, mas eu não tenho tempo. Tenho amigos a descobrir e mundos a conhecer.

- A gente só conhece bem as coisas que cativou, disse a raposa. Os homens não tem tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres uma amiga, cativa-me!

- Os homens esqueceram a verdade, disse a raposa.

Mas tu não a deves esquecer.

Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas"


Antoine de Saint-Exupéry

A TRISTEZA PERMITIDA

Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair pra compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem pra sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como? Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer pra eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra. Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra. A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido. Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas. “Eu não sei o que meu corpo abriga/ nestas noites quentes de verão/ e não me importa que mil raios partam/ qualquer sentido vago da razão/ eu ando tão down...” Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega mal. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. “Não quero te ver triste assim”, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinícius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia. Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos.
Martha Medeiros

O plano


Mãe, deix’eu falar! É que aconteceu uma coisa...Não, desse jeito tá ruim.Oi, mãe, tudo bom? Foi legal o seu dia hoje...?Hum. Piorou. Então, mãe, eu saí correndo do meu quarto porque a campainha tocou e eu tava esperando o Dani, e aí tinha o vaso...Não, não, não. Isso vem depois. Na hora da explicação. Sei lá de que jeito eu conto. Tanto faz, ela vai ficar brava mesmo. Muito brava. Vai ser uma bronca do tipo 8 ou 9, bronca máxima, bronca com castigo na certa. O pior é que ela gosta desse vaso. Quer dizer, gostava. Nem sei por que, um vaso tão feio! Esquisito, finiiiiiiiinho. Nem serve pra por flor! Tomara que não seja caro. Vai que ela resolve descontar da minha mesada! Bem agora que eu ia pedir um extra pro álbum... Que azar! E se eu tentar colar? Vou pedir pra Maria me ajudar, ela sempre cola as coisas, minha mãe demora um tempão pra perceber. Hum. Pensando bem, acho que vai ser difícil montar esse troço de novo. E o que eu faço com essas partes que viraram pozinho? Quebrou muito quebrado. Se fosse estampado dava pra disfarçar tanto remendo, mas transparente desse jeito! Ela vai ver o desastre na hora. O vaso é a primeira coisa que a gente vê quando abre a porta... Isso é o pior de tudo: o não-vaso é a primeira coisa que ela vai ver quando chegar do escritório. Tomara que ela não chegue mal humorada por causa daquela pessoa chata lá do trabalho dela... Daí, nem sei o que pode acontecer. Acho que é melhor não estar por perto na hora H. Já sei! Vou limpar a mesa, o chão e jogar tudo no lixo. Depois, me tranco no banheiro e espero. Na hora que ela abrir a porta e olhar pro não-vaso e gritar: O QUE ACONTECEU COM O MEU VASO? eu abro o chuveiro e fico lá tomando banho. Pelo menos escapo do grito de trovão-furioso número 1. Os que vem depois vão saindo com menos raios... Mas não posso demorar demais, senão ela vai começar a brigar com a Maria, coitada. Bom, sei lá. Essa parte do plano eu resolvo na hora. Em todo caso, vou levar o travesseiro.

Tesouros


“Não podemos encontrar o sobrenatural sem passar pela natureza"...-- Hoje a fila das formigas ficou enorme! Você tinha que ver! Começava perto da jabuticabeira e terminava lááááááá no pé de limão. Acho que tinha uns três quilômetros. Ou mais, nem sei!A mãe explicou que essa era a distância entre a casa deles e a da avó.-- Mas se elas cruzavam o jardim de um muro até o outro, então era mesmo uma fileira e tanto – disse a mãe, enquanto tentava clarear o encardido das unhas do menino. -- Você andou cavando buraco de novo? Desse jeito, nosso jardim vai virar uma piscina!Canteiro de flor cheirosa, passarinho fazendo lanche de fruta, tatu-bola disfarçado de pedrinha, tesouros escondidos, quanta história acontecia naquele jardim. E foi por causa das escavações que a mãe quis saber: -- E o Trix? Faz tempo que você não fala dele... Trix, o gnomo que morava no tronco do velho chorão, a árvore mais antiga, mais alta e a mais bonita da rua. O menino enfiou a cabeça debaixo do chuveiro, fingindo não ter escutado a pergunta, e continuou falando das formigas. A mãe não ia gostar nem um pouco se soubesse que Trix estava seguindo uma pista que levava à pracinha, do outro lado da rua. É que o gnomo tinha certeza de que, ali, eles encontrariam um tesouro. Por isso mesmo, o menino levou um susto, no dia seguinte, quando viu o amigo pulando no topo de uma grande pedra, bem no meio do jardim. Trix fazia sinais, apontando para o chão, excitadíssimo. -- Mas você não disse que a gente ia cavar o próximo buraco lá na pracinha?-- Disse e agora desdigo! As formigas me trouxeram de volta pra cá. E elas pararam exatamente neste ponto! Aqui, aqui mesmo, três vezes aqui! Foi só o gnomo indicar o lugar pra que o menino começasse o cava-e-tira-terra-e-cava-e-tira-terra de todo dia. E como cavou nesse dia! No final da tarde, cercado de montanhinhas de terra e com os braços doloridos, ele já estava parando quando sua mão esbarrou em alguma coisa dura, fria e esquisita.-- Trix, o que será isso? Uma pedra? Enfiou a cara no buraco, mas não conseguiu ver nada. Lá dentro, no fundo, era escuro, e fora, o sol já ia se apagando. -- Pega uma lanterna! – disse o gnomo, mandão como sempre. O menino se irritava com essa mania do amigo ficar dando ordens o tempo todo, mas dessa vez não reclamou porque aquela era mesmo uma ótima ideia. Correu até a cozinha: sabia que o pai havia comprado uma lanterninha para deixar ao lado da pia, na “gaveta das emergências”. Aproveitou pra pegar as pás de praia com dentes, novinhas, ainda guardadas na parte de cima do armário. Voltou ao jardim com todo o equipamento e retomou a escavação imediatamente, nem lembrou da dor nos braços. Pra chegar na “coisa”, o menino agora teria que cavar de lado, porque, fosse lá o que fosse, aquilo estava enterrado um pouquinho mais à direita. E cava e cutuca e se entorta e quando já não tinha mais jeito de alcançar o fundo do buraco-túnel, ele teve a ideia de usar os pés para tentar enxergar lá embaixo. Enfiou uma perna dentro do buraco, bem esticadinha, e colocou a lanterna acesa encaixada entre os dedos do pé. Foi quando viu melhor a “coisa”, e achou que aquilo não parecia uma pedra. -- Trix! Trix! Você acha... ? Será que é? ... É... Pode ser, não é? Pode mesmo ser um baú! Ou será que é uma arca?O menino esticou bem o pé e mirou com a lanterna, mas só conseguiu ter certeza de que a "coisa" não era grande, e era amarronzada, de um tom que se confundia demais com a cor da própria terra. Mas aquela caixa bem que poderia ter sido dourada um dia!Foi então que Trix mergulhou no buraco, escorregando pela perna do menino até chegar ao baú. De lá, mãos em concha em volta da boca, anunciou: -- Acho que finalmente encontramos! Sim, sim, sim! Três vezes sim! Com o pulo de alegria que deu, o menino desmanchou dois dos montinhos de terra que tinha erguido ao lado do buraco. Nem ligou pra a bronca que a mãe daria por causa da bagunça. Agora, só pensava num jeito de trazer o bauzinho para cima: claro que as formigas não conseguiriam puxar aquilo e, a essa hora, todos os gnomos das redondezas já tinham se recolhido pra dentro de suas árvores. De novo, o menino tentou puxar o objeto com os pés, sem sucesso -- o bauzinho nem se mexia, era como se estivesse plantado na terra. Lá de dentro, Trix gritou outra vez:-- Acho que encontrei uma fechadura. Tento entrar pela fresta e saio logo pra contar tudo!Entrou, mas não saiu. E não saiu e não saiu e na hora em que a mãe ameaçou um castigo, o menino teve que voltar pra casa. Estava anoitecendo, não adiantou protestar nem dizer que estava muito preocupado com o amigo.-- Mas, mãe... E se ele ficou preso? E se tinha algum bicho horrível lá dentro?-- Tenho certeza de que está tudo bem. O Trix sabe se virar. Você vai ver como, amanhã, ele aparece com um monte de novidades...Exausto, o menino adormeceu preocupado, pensando nos perigos que o amigo podia estar correndo. Mesmo assim, teve um sonho lindo. Nele, o Trix estava feliz da vida, pulando entre montanhas de moedas e pedras preciosas, escorregando por colares de pérolas, dando cambalhota no meio de enormes anéis de ouro. Pena que a sensação de pesadelo do dia anterior voltou assim que ele abriu os olhos, logo cedo. A primeira coisa que pensou: o Trix pode ter ficado enroscado nas correntes de ouro ou, pior, foi soterrado por uma esmeralda gigante!Com o peito apertado de tanta aflição, saltou da cama e correu para o jardim, ainda de pijama. Olhou na direção da pedra e teve que esfregar os olhos pra ter certeza do que estava vendo: ali havia uma... “coisa”. Seria aquela coisa? E como o Trix tinha conseguido desenterrar o tesouro?-- Trix! Triiiiiiiiiiiiiiiiiiiiquis! TRIX!Não demorou nem um minuto pra que o gnomo aparecesse num dos galhos do chorão, espreguiçando. -- Bom dia! -- Trix! Você está bem?-- Desculpe, desculpe, desculpe! Três vezes desculpe! Você ficou preocupado, eu sei. Mas já era noite alta quando saí do buraco, o que foi uma sorte. Encontrei uma turma de corujas que só aparece por aqui nesse horário. Foram elas que me ajudaram a puxar o... hã, hã... o... baú.Só então o menino lembrou.-- E cadê o tesouro?De braços cruzados, Trix encolheu os ombros e torceu a boquinha, apontando com o queixo na direção da pedra. O menino então correu para lá. Com as palmas das mãos, começou a esfregar energicamente a superfície impregnada de terra. E esfregou com tanta força que não demorou nada pra que o sonho do tesouro se desmanchasse diante de seus olhos: o baú não passava de uma velha lata de biscoitos, parecida com umas que ele já tinha visto na casa da avó. A “fresta da fechadura” nada mais era do que um buraquinho aberto pela ferrugem, e a lata pesava daquele jeito porque estava cheia de terra. Com a ajuda da pá que tinha ficado por ali, o menino conseguiu tirar a tampa, ou melhor, o “telhado” da casa de uma família de minhocas gordinhas.Chateado, fechou a lata e já ia devolver o falso tesouro ao seu lugar de origem quando um raio de sol furou uma das muitas nuvens que encobriam o céu. Na mesma hora, o ar esquentou e alguma coisa reluziu dentro do buraco.-- TRIX! O gnomo estava procurando o pé direito da sua botinha e, por isso, não prestou muita atenção no menino.-- O quê? -- Você viu isso?-- Vi o quê? E você, viu meu sapato? Onde será que deixei... -- O brilho... Lá dentro... Mas, como é que pode um buraco brilhar?-- Brilho? -- É! Eu vi, juro que vi!-- Ah, deve ser o reflexo de alguma aguinha que brotou lá no fundo. -- Mas, Trix...-- Ahá! Finalmente! Aqui está! Enquanto calçava o pé perdido, o gnomo emendou:-- Vou retomar as investigações lá na pracinha. Você vem comigo?Dessa vez foi o menino que não respondeu -- continuava atônito com o que acabara de ver. O gnomo, por sua vez, sentiu-se rejeitado, virou as costas e saiu marchando, rumo à praça. Ainda estava segurando a lata-casa das minhocas na mão quando o sol reapareceu, iluminando o jardim. Como tudo em volta, o buraco clareou e, de repente, aconteceu de novo. O brilho! Com o olhar hipnotizado, o menino seguiu a luz e descobriu que havia, sim, alguma coisa brilhante e de verdade, saindo da terra, como se fosse um espinho de vidro!Colocou a lata no chão e, com a ajuda da pá, cutucou em volta daquele ponto, com delicadeza. Pouco a pouco, muitas outras pontinhas de tamanhos e formas diferentes, reluzindo com mais ou menos intensidade, foram surgindo diante dos seus olhos extasiados. Ali estava, incrustado na terra, um cristal gigante e translúcido. Fascinado, o menino ficou admirando as faces daquela pedra imensa e luminosa, esculpida pela natureza com a perfeição de uma joia rara, e teve uma certeza: era o tesouro dos tesouros. Podia até ser uma pedra mágica!Não via a hora de mostrar ao Trix.

A frase que abre essa história é de Arnaud Desjardins.
Conto publicado no livro "Era Uma Vez Para Sempre"

A mulher boazinha



Qual o elogio que uma mulher adora receber?

Bom, se você está com tempo, pode-se listar aqui uns setecentos:

mulher adora que verbalizem seus atributos, sejam eles físicos ou morais.

Diga que ela é uma mulher inteligente, e ela irá com a sua cara.

Diga que ela tem um ótimo caráter e um corpo que é uma provocação,e ela decorará o seu número.

Fale do seu olhar, da sua pele, do seu sorriso, da sua presença de espírito,da sua aura de mistério, de como ela tem classe:

ela achará você muito observador e lhe dará uma cópia da chave de casa.

Mas não pense que o jogo está ganho: manter o cargo vai depender da suaperspicácia para encontrar novas qualidades nessa mulher poderosa, absoluta.

Diga que ela cozinha melhor que a sua mãe,que ela tem uma voz que faz você pensar obscenidades,que ela é um avião no mundo dos negócios.

Fale sobre sua competência, seu senso de oportunidade,seu bom gosto musical.Agora quer ver o mundo cair?

Diga que ela é muito boazinha.

Descreva aí uma mulher boazinha.

Voz fina, roupas pastel, calçados rente ao chão.

Aceita encomendas de doces, contribui para a igreja,cuida dos sobrinhos nos finais de semana.

Disponível, serena, previsível, nunca foi vista negando um favor.

Nunca teve um chilique.

Nunca colocou os pés num show de rock.

É queridinha.

Pequeninha.

Educadinha.

Enfim, uma mulher boazinha.

Fomos boazinhas por séculos.

Engolíamos tudo e fingíamos não ver nada, ceguinhas.

Vivíamos no nosso mundinho, rodeadas de panelinhas e nenezinhos.

A vida feminina era esse frege: bordados, paredes brancas,crucifixo em cima da cama, tudo certinho.

Passamos um tempão assim, comportadinhas, enquanto íamos alimentando um

desejo incontrolável de virar a mesa.

Quietinhas, mas inquietas.

Até que chegou o dia em que deixamos de ser as coitadinhas.

Ninguém mais fala em namoradinhas do Brasil: somos atrizes,estrelas, profissionais.

Adolescentes não são mais brotinhos: são garotas da geração teen.

Ser chamada de patricinha é ofensa mortal.

Pitchulinha é coisa de retardada.

Quem gosta de diminutivos, definha.

Ser boazinha não tem nada a ver com ser generosa.

Ser boa é bom, ser boazinha é péssimo.

As boazinhas não têm defeitos.

Não têm atitude.

Conformam-se com a coadjuvância.

PH neutro.

Ser chamada de boazinha, mesmo com a melhor das intenções,é o pior dos desaforos.

Mulheres bacanas, complicadas, batalhadoras, persistentes, ciumentas,apressadas, é isso que somos hoje.

Merecemos adjetivos velozes, produtivos, enigmáticos.

As “inhas” não moram mais aqui.

Foram para o espaço, sozinhas.

Martha Medeiros

Miss Imperfeita


Eu não sirvo de exemplo para nada, mas, se você quer saber se isso é possível, me ofereço como piloto de testes. Sou a Miss Imperfeita, muito prazer. A imperfeita que faz tudo o que precisa fazer, como boa profissional, mãe, filha e mulher que também sou: trabalho todos os dias, ganho minha grana, vou ao supermercado, decido o cardápio das refeições, cuido dos filhos, marido (se tiver), telefono sempre para minha mãe, procuro minhas amigas, namoro, viajo, vou ao cinema, pago minhas contas, respondo a toneladas de e mails, faço revisões no dentista, mamografia, caminho meia hora diariamente, compro flores para casa, providencio os consertos domésticos e ainda faço as unhas e depilação!
E, entre uma coisa e outra, leio livros.
Portanto, sou ocupada, mas não uma workholic.
Por mais disciplinada e responsável que eu seja, aprendi duas coisinhas que operam milagres.
Primeiro: a dizer NÃO.
Segundo: a não sentir um pingo de culpa por dizer NÃO. Culpa por nada, aliás.
Existe a Coca Zero, o Fome Zero, o Recruta Zero. Pois inclua na sua lista a Culpa Zero.
Quando você nasceu, nenhum profeta adentrou a sala da maternidade e lhe apontou o dedo dizendo que a partir daquele momento você seria modelo para os outros..
Seu pai e sua mãe, acredite, não tiveram essa expectativa: tudo o que desejaram é que você não chorasse muito durante as madrugadas e mamasse direitinho.
Você não é Nossa Senhora.
Você é, humildemente, uma mulher.
E, se não aprender a delegar, a priorizar e a se divertir, bye-bye vida interessante. Porque vida interessante não é ter a agenda lotada, não é ser sempre politicamente correta, não é topar qualquer projeto por dinheiro, não é atender a todos e criar para si a falsa impressão de ser indispensável. É ter tempo.
Tempo para fazer nada.
Tempo para fazer tudo.
Tempo para dançar sozinha na sala.
Tempo para bisbilhotar uma loja de discos. Tempo para sumir dois dias com seu amor.
Três dias..
Cinco dias!
Tempo para uma massagem.
Tempo para ver a novela.
Tempo para receber aquela sua amiga que é consultora de produtos de beleza.
Tempo para fazer um trabalho voluntário.
Tempo para procurar um abajur novo para seu quarto.
Tempo para conhecer outras pessoas.
Voltar a estudar.
Para engravidar.
Tempo para escrever um livro que você nem sabe se um dia será editado.
Tempo, principalmente, para descobrir que você pode ser perfeitamente organizada e profissional sem deixar de existir.
Porque nossa existência não é contabilizada por um relógio de ponto ou pela quantidade de memorandos virtuais que atolam nossa caixa postal.
Existir, a que será que se destina?
Destina-se a ter o tempo a favor, e não contra.
A mulher moderna anda muito antiga. Acredita que, se não for super, se não for mega, se não for uma executiva ISO 9000, não será bem avaliada. Está tentando provar não-sei-o-quê para não-sei-quem.
Precisa respeitar o mosaico de si mesma, privilegiar cada pedacinho de si.
Se o trabalho é um pedação de sua vida, ótimo!
Nada é mais elegante, charmoso e inteligente do que ser independente.
Mulher que se sustenta fica muito mais sexy e muito mais livre para ir e vir. Desde que lembre de separar alguns bons momentos da semana para usufruir essa independência, senão é escravidão, a mesma que nos mantinha trancafiadas em casa, espiando a vida pela janela.
Desacelerar tem um custo. Talvez seja preciso esquecer a bolsa Prada, o hotel decorado pelo Philippe Starck e o batom da M.A.C.
Mas, se você precisa vender a alma ao diabo para ter tudo isso, francamente, está precisando rever seus valores.
E descobrir que uma bolsa de palha, uma pousadinha rústica à beira-mar e o rosto lavado (ok, esqueça o rosto lavado) podem ser prazeres cinco estrelas e nos dar uma nova perspectiva sobre o que é, afinal, uma vida interessante.
Martha Medeiros - Jornalista e escritora

O mito de Orfeu

Orfeu filho de Apolo e de Calíope tocava lira com tal perfeição, que encantava a todos com sua música; animais ferozes perdiam a ferocidade encantados pelos sons de sua lira; as árvores o rodeavam e os rochedos perdiam sua dureza. Apaixonado, casa-se com Eurídice, que confirmando os maus augúrios, palavra terrível, mas que serve exatamente à idéia do que representa, morre ao ser picada por uma cobra; a cobra desempenhando uma função quase bíblica, despertou o amor e o desejo entre o homem e a mulher, e agora os pune, fazendo Orfeu perdê-la. Desesperado, Orfeu vai a busca da amada na região dos mortos e consegue resgatá-la, sob condição de seguido por ela, não olhar para trás; não cumpriu o acordo, e perdeu-a. Orfeu voltou-se para vê-la, sem confiar...Manteve-se alheio às outras mulheres, dando-lhes a idéia do desprezo, que lhe foi fatal, pois, mataram-no, jogando sua cabeça e sua lira no Rio Orfeu. As Musas juntaram-lhe os pedaços e o enterraram e, finalmente, Orfeu pode juntar-se a Eurídice na terra dos mortos.A música como elemento de sedução, uma linguagem universal, que transcende à palavra, à mímica e à dança; na mitologia todos os pares são belos; não entra na contagem o Minotauro, a quem o ingrato Teseu derrotou com a ajuda de Ariadne, desposando a rainha das Amazonas, que Shakespeare festejou como Hipólita em Sonho de uma Noite de Verão. Voltando a Orfeu, vemos que tinha um poder maior, além da aparência física, seduzindo e amando Eurídice de rara beleza; beleza tão grande que fascinou Aristeu, justamente de quem fugiu quando pisou na cobra que a matou. Evidentemente, a história de Orfeu, como tantas outras da mitologia, prestava-se a uma infinidade de manifestações artísticas; o alagoano Jorge de Lima, que era médico, fez de Invenção de Orfeu, o seu livro mais importante; clinicava num consultório da Cinelândia, tendo morrido em 1953. Albert Camus produziu e dirigiu o filme Orfeu, chamando para desempenhar o papel de Eurídice uma atriz americana - Marpessa Down, que contracenou com um ator amador, pois, o tipo físico que interessava ao Diretor, cabia na figura do centro médio do Fluminense Futebol Clube - Breno Mello; coloco-o com ll para aumentar sua importância, ignorando-lhe a grafia; o filme fez um grande sucesso, principalmente pela beleza da música, que conseguiu manter-se na memória da população até o presente. Seria muito mais fácil, presumo, transformar Catherine Deneuve em Eurídice.Para Orfeu, poderiam escolher qualquer um dos principais nomes da época, como Gerard Phillipe, um consagrado ator francês; diga-se de passagem, que Gerard já representou Orfeu no cinema com sucesso; teria sido mais fácil! A idéia de refilmar Orfeu foi interessante, mantendo-se todos aqueles ingredientes de música, beleza, sexo, amor de qualquer jeito, mesmo que envolvesse os líderes do bem e do mal! O Diretor foi buscar inspiração nas gravuras da mitologia, e considerou como um belo tipo de Eurídice, alguma atriz que se parecesse com Hécate, do livro de Bulfinch. Para o antagonismo branco-negro, escolheu um ator consagrado, de apelo novelístico, mas que pode compor o personagem angustiado pela verdade e mentira, o grande paradoxo do papel que representava, a ambigüidade de sua personalidade, a força e a leveza das almas em permanente pânico; sua lira em consonância com seu espírito, e que se pudesse deixar imolar, tal como Orfeu mitológico se deixou despedaçar pelas mulheres despeitadas; Orfeu ao pensar em deixar o morro, território do filme, traiu a Plutão, Prosérpina e a todos os fantasmas que choraram pelo seu grande amor perdido; em realidade Orfeu não foi vítima; foi o predestinado dessa nova história; equiparou-se a Judas Iscariotes beijando Jesus, o líder branco e místico, enquanto o traia; por isso Orfeu não foi morto pelos asseclas do líder; deixaram-no procurar a forca (?) pelas próprias mãos, tendo aos braços Eurídice, a quem negara a ressurreição! Os fantasmas choraram por Orfeu! Apresento os amantes e adianto o epílogo, para explicar a adaptação da história, deixo à interpretação à vontade do leitor.
Abrantes Junior

O oráculo



Guiada por uma força inexplicável, Mariana sente-se avançar pelo estreito caminho que leva até o grande oráculo de pedra. A cabeça gigante e feiosa encravada numa rocha parece perscrutá-la dos pés ao último fio de cabelo. Teria o oráculo respostas infalíveis para suas perguntas? Não parece inspirar tanta confiança, mas ela tem que seguir rigorosamente o antigo rito, se quiser obter respostas do oráculo.

Dizia a lenda que ele tinha respostas para todas as dúvidas pessoais, geralmente sobre o futuro. Mas, confusamente ela pensa, e se as respostas não forem objetivas, como irá interpretá-las? O melhor mesmo é fazer perguntas sucintas cujas respostas sejam sim ou não, as famosas yes/no questions. Pronto, ela esfrega as mãos de tamanha ansiedade, está decidido, será ou sim ou não.

Acha-se ridícula por estar prestes a fazer perguntas a uma cara de pedra, algures na antiga Grécia, enquanto sabe perfeitamente que somente dentro de si pode encontrar, em algum lugar recôndito e escuro da alma, as respostas que tanto busca. Bem, mas é menos risível arrostar o oráculo que jogar no “cara ou coroa” ou despetalar uma rosa. Coitadas das rosas nas mãos de mulheres irresolutas, tão desprovidas de espírito de decisão, compelidas a buscar respostas de um modo tão burlesco.

Já está a ponto de desistir, mas o olhar continua fixo na tela do computador, esquece-se da Grécia por um instante ao sentir o vento frio que entra pela janela do quarto escuro. Na tela, a página do oráculo brilha intensamente: “Confusa por uma decisão? Deixe o destino decidir! Pergunte ao Oráculo uma questão que pode ser respondida com um SIM ou com um NÃO e espere a resposta sábia”.

Desconfiada, ela decide não perguntar de saída as questões mais complexas e sim algo mais trivial, como “devo mudar a cor do cabelo?”. Uma pergunta estúpida só para testar o tal oráculo. Ela pressiona a tecla enter e espera a resposta: SIM!

Absurdo! Jamais mudaria a cor do cabelo, logo ela, uma morena convicta apesar dos apelos das amigas falso-louras. Esse oráculo não parece mesmo confiável. Encarapitada, digita: “você me conhece?”. A resposta vem rápida: SIM!

Agora é que não aceita mesmo a resposta do oráculo. Imagina! Tantos meses de análise e ela tem menos ciência de si do que antes, então vem um oráculo de araque dizer que a conhece. Nunca! Mas, por outro lado, considera a situação. Já que a resposta tem sido sempre positiva, não seria nada mal ouvir outro SIM para uma determinada pergunta. Sorrindo, ela digita: “estou com o peso ideal?”.

Exultante com o novo SIM, resolve expor sua real indecisão e, trêmula, digita: “será que é amor?”. Tecla enter e inquieta-se, a ansiedade volta, a espera cansa nos intermináveis instantes que existem entre o sim e o não. Pensa nas tantas palavras intercaladas entre o dizer sim e o dizer não, as que nunca serão escritas e as que se calarão.

Diante do medo da resposta, Mariana desliga o computador abruptamente e afasta-se sem olhar para trás. Tateia pelo quarto escuro à procura de sua cama e, quando a encontra, deita-se de qualquer jeito, sôfrega e cambaleante como seu coração. Melhor tentar dormir e torcer para não sonhar com o oráculo. Imagina se ele responde que SIM!


By Marlene Bastos