O oráculo



Guiada por uma força inexplicável, Mariana sente-se avançar pelo estreito caminho que leva até o grande oráculo de pedra. A cabeça gigante e feiosa encravada numa rocha parece perscrutá-la dos pés ao último fio de cabelo. Teria o oráculo respostas infalíveis para suas perguntas? Não parece inspirar tanta confiança, mas ela tem que seguir rigorosamente o antigo rito, se quiser obter respostas do oráculo.

Dizia a lenda que ele tinha respostas para todas as dúvidas pessoais, geralmente sobre o futuro. Mas, confusamente ela pensa, e se as respostas não forem objetivas, como irá interpretá-las? O melhor mesmo é fazer perguntas sucintas cujas respostas sejam sim ou não, as famosas yes/no questions. Pronto, ela esfrega as mãos de tamanha ansiedade, está decidido, será ou sim ou não.

Acha-se ridícula por estar prestes a fazer perguntas a uma cara de pedra, algures na antiga Grécia, enquanto sabe perfeitamente que somente dentro de si pode encontrar, em algum lugar recôndito e escuro da alma, as respostas que tanto busca. Bem, mas é menos risível arrostar o oráculo que jogar no “cara ou coroa” ou despetalar uma rosa. Coitadas das rosas nas mãos de mulheres irresolutas, tão desprovidas de espírito de decisão, compelidas a buscar respostas de um modo tão burlesco.

Já está a ponto de desistir, mas o olhar continua fixo na tela do computador, esquece-se da Grécia por um instante ao sentir o vento frio que entra pela janela do quarto escuro. Na tela, a página do oráculo brilha intensamente: “Confusa por uma decisão? Deixe o destino decidir! Pergunte ao Oráculo uma questão que pode ser respondida com um SIM ou com um NÃO e espere a resposta sábia”.

Desconfiada, ela decide não perguntar de saída as questões mais complexas e sim algo mais trivial, como “devo mudar a cor do cabelo?”. Uma pergunta estúpida só para testar o tal oráculo. Ela pressiona a tecla enter e espera a resposta: SIM!

Absurdo! Jamais mudaria a cor do cabelo, logo ela, uma morena convicta apesar dos apelos das amigas falso-louras. Esse oráculo não parece mesmo confiável. Encarapitada, digita: “você me conhece?”. A resposta vem rápida: SIM!

Agora é que não aceita mesmo a resposta do oráculo. Imagina! Tantos meses de análise e ela tem menos ciência de si do que antes, então vem um oráculo de araque dizer que a conhece. Nunca! Mas, por outro lado, considera a situação. Já que a resposta tem sido sempre positiva, não seria nada mal ouvir outro SIM para uma determinada pergunta. Sorrindo, ela digita: “estou com o peso ideal?”.

Exultante com o novo SIM, resolve expor sua real indecisão e, trêmula, digita: “será que é amor?”. Tecla enter e inquieta-se, a ansiedade volta, a espera cansa nos intermináveis instantes que existem entre o sim e o não. Pensa nas tantas palavras intercaladas entre o dizer sim e o dizer não, as que nunca serão escritas e as que se calarão.

Diante do medo da resposta, Mariana desliga o computador abruptamente e afasta-se sem olhar para trás. Tateia pelo quarto escuro à procura de sua cama e, quando a encontra, deita-se de qualquer jeito, sôfrega e cambaleante como seu coração. Melhor tentar dormir e torcer para não sonhar com o oráculo. Imagina se ele responde que SIM!


By Marlene Bastos

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