História de bem-te-vi



Com estas florestas de arranha-céus que vão crescendo, muita gente pensa que passarinho é coisa só de jardim zoológico; e outras até acham que seja apenas antigüidade de museu. Certamente chegaremos lá; mas por enquanto ainda existem bairros afortunados onde haja uma casa, casa que tenha um quintal, quintal que tenha uma árvore. Bom será que essa árvore seja a mangueira. Pois nesse vasto palácio verde podem morar muitos passarinhos.

Os velhos cronistas desta terra encantaram-se com canindés e araras, tuins e sabiás, maracanãs e "querejuás todos azuis de cor finíssima...". Nós esquecemos tudo: quando um poeta fala num pássaro, o leitor pensa que é leitura...

Mas há um passarinho chamado bem-te-vi. Creio que ele está para acabar.

E é pena, pois com esse nome que tem — e que é a sua própria voz — devia estar em todas as repartições e outros lugares, numa elegante gaiola, para no momento oportuno anunciar a sua presença. Seria um sobressalto providencial e sob forma tão inocente e agradável que ninguém se aborreceria.

O que me leva a crer no desaparecimento do bem-te-vi são as mudanças que começo a observar na sua voz. O ano passado, aqui nas mangueiras dos meus simpáticos vizinhos, apareceu um bem-te-vi caprichoso, muito moderno, que se recusava a articular as três sílabas tradicionais do seu nome, limitando-se a gritar: "...te-vi! ...te-vi", com a maior irreverência gramatical. Como dizem que as últimas gerações andam muito rebeldes e novidadeiras achei natural que também os passarinhos estivessem contagiados pelo novo estilo humano.

Logo a seguir, o mesmo passarinho, ou seu filho ou seu irmão — como posso saber, com a folhagem cerrada da mangueira? — animou-se a uma audácia maior Não quis saber das duas sílabas, e começou a gritar apenas daqui, dali, invisível e brincalhão: "...vi! ...vi! ...vi! ..." o que me pareceu divertido, nesta era do twist.

O tempo passou, o bem-te-vi deve ter viajado, talvez seja cosmonauta, talvez tenha voado com o seu team de futebol — que se não há de pensar de bem-te-vis assim progressistas, que rompem com o canto da família e mudam os lemas dos seus brasões? Talvez tenha sido atacado por esses crioulos fortes que agora saem do mato de repente e disparam sem razão nenhuma no primeiro indivíduo que encontram.

Mas hoje ouvi um bem-te-vi cantar E cantava assim: "Bem-bem-bem...te-vi!" Pensei: "É uma nova escola poética que se eleva da mangueira!..." Depois, o passarinho mudou. E fez: "Bem-te-te-te... vi!" Tornei a refletir: "Deve estar estudando a sua cartilha... Estará soletrando..." E o passarinho: "Bem-bem-bem...te-te-te...vi-vi-vi!"

Os ornitólogos devem saber se isso é caso comum ou raro. Eu jamais tinha ouvido uma coisa assim! Mas as crianças, que sabem mais do que eu, e vão diretas aos assuntos, ouviram, pensaram e disseram: "Que engraçado! Um bem-te-vi gago!"

(É: talvez não seja mesmo exotismo, mas apenas gagueira...)



Cecília Meireles


Texto extraído do livro “Escolha o seu sonho”, Editora Record – Rio de Janeiro, 2002, pág. 53.

Tentação


Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.

Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto de bonde. E como se não bastasse seu olhar submisso e paciente, o soluço, a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava conformado na mão.

Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária.

Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher ? Por enquanto ela estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.

Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão do Grajaú. A possibilidade de comunicação surgiu no ângulo quente da esquina, acompanhando uma senhora, e encarnado na figura de um cão.

Era um basset lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.

Lá vinha ele trotando, à frente de sua dona, arrastando seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.

A menina abriu os olhos pasmados. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos se olhavam.

Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria.

Quanto tempo se passava ? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do soluço e continuou a fitá-lo.

Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos.

Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo. Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se, com urgência, com encabulamento, surpreendidos.

No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes de Grajaú. Mais um instante e o suspenso sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.

Mas ambos eram comprometidos.

Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ele fosse uma mulher. Ele, com sua natureza aprisionada.

A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreendiam. Acompanhou-os com os olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-lo dobrar a outra esquina.

Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás.


Clarice Lispector

A moralista


Se me falam em virtude, em moralidade ou imoralidade, em condutas, enfim, em tudo que se relacione com o bem e o mal, eu vejo Mamãe em minha idéia. Mamãe — não. O pescoço de Mamãe, a sua garganta branca e tremente, quando gozava a sua risadinha como quem bebe café no pires. Essas risadas ela dava principalmente à noite, quando — só nós três em casa — vinha jantar como se fosse a um baile, com seus vestidos alegres, frouxos, decotados, tão perfumada que os objetos a seu redor criavam uma pequena atmosfera própria, eram mais leves e delicados. Ela não se pintava nunca, mas não sei como fazia para ficar com aquela lisura de louça lavada. Nela, até a transpiração era como vidraça molhada: escorregadia, mas não suja. Diante daquela pulcritude minha face era uma miserável e movimentada topografia, onde eu explorava furiosamente, e em gozo físico, pequenos subterrâneos nos poros escuros e profundos, ou vulcõezinhos que estalavam entre as unhas, para meu prazer. A risada de Mamãe era um "muito obrigada" a meu Pai, que a adulava como se dela dependesse. Porém, ele mascarava essa adulação brincando e a tratando eternamente de menina. Havia muito tempo uma espírita dissera a Mamãe algo que decerto provocou sua primeira e especial risadinha:

— Procure impressionar o próximo. A senhora tem um poder extraordinário sobre os outros, mas não sabe. Deve aconselhar... Porque... se impõe, logo à primeira vista. Aconselhe. Seus conselhos não falharão nunca. Eles vêm da sua própria mediunidade...

Mamãe repetiu aquilo umas quatro ou cinco vezes, entre amigas, e a coisa pegou, em Laterra.Se alguém ia fazer um negócio, lá aparecia em casa para tomar conselhos. Nessas ocasiões Mamãe, que era loura e pequenina, parecia que ficava maior, toda dura, de cabecinha levantada e dedo gordinho, em riste. Consultavam Mamãe a respeito de política, dos casamentos. Como tudo que dizia era sensato, dava certo, começaram a mandar-lhe também pessoas transviadas. Uma vez, certa senhora rica lhe trouxe o filho, que era um beberrão incorrigível. Lembro-me de que Mamãe disse coisas belíssimas, a respeito da realidade do Demônio, do lado da Besta, e do lado do Anjo. E não apenas ela explicou a miséria em que o moço afundava, mas o castigo também com palavras tremendas. Seu dedinho gordo se levantava, ameaçador, e toda ela tremia de justa cólera, porém sua voz não subia do tom natural. O moço e a senhora choravam juntos.

Papai ficou encantado com o prestígio de que, como marido, desfrutava. Brigas entre patrão e empregado, entre marido e mulher, entre pais e filhos vinham dar em nossa casa. Mamãe ouvia as partes, aconselhava, moralizava. E Papai, no pequeno negócio, sentia afluir a confiança que se espraiava até seus domínios.

Foi nessa ocasião que Laterra ficou sem padre, porque o vigário morrera e o bispo não mandara substituto. Os habitantes iam casar e batizar os filhos em Santo Antônio. Mas, para suas novenas e seus terços, contavam sempre com minha Mãe. De repente, todos ficaram mais religiosos. Ela ia para a reza da noite de véu de renda, tão cheirosa e lisinha de pele, tão pura de rosto, que todos diziam que parecia e era, mesmo, uma verdadeira santa. Mentira: uma santa não daria aquelas risadinhas, uma santa não se divertia, assim. O divertimento é uma espécie de injúria aos infelizes, e é por isso que Mamãe só ria e se divertia quando estávamos sós.

Nessa época, até um caipira perguntou na feira de Laterra:

— Diz que aqui tem uma padra. Onde é que ela mora? Contaram a Mamãe. Ela não riu:

— Eu não gosto disso. — E ajuntou: Nunca fui uma fanática, uma louca. Sou, justamente, a pessoa equilibrada, que quer ajudar ao próximo. Se continuarem com essas histórias, eu nunca mais puxo o terço.

Mas, nessa noite, eu vi sua garganta tremer, deliciada:

— Já estão me chamando de "padra"... Imagine!

Ela havia achado sua vocação. E continuou a aconselhar, a falar bonito, a consolar os que perdiam pessoas queridas. Uma vez, no aniversário de um compadre, Mamãe disse palavras tão belas a respeito da velhice, do tempo que vai fugindo, do bem que se deve fazer antes que caia a noite, que o compadre pediu:

— Por que a senhora não faz, aos domingos, uma prosa desse jeito? Estamos sem vigário, e essa mocidade precisa de bons conselhos...

Todos acharam ótima a idéia. Fundou-se uma sociedade: "Círculo dos Pais de Laterra", que tinha suas reuniões na sala da Prefeitura. Vinha gente de longe, para ouvir Mamãe falar. Diziam todos que ela fazia um bem enorme às almas, que a doçura das suas palavras confortava quem estivesse sofrendo. Várias pessoas foram por ela convertidas. Penso que meu Pai acreditava, mais do que ninguém, nela. Mas eu não podia pensar que minha Mãe fosse um ser predestinado, vindo ao mundo só para fazer o bem. Via tão claramente o seu modo de representar, que até sentia vergonha. E ao mesmo tempo me perguntava:

— Que significam estes escrúpulos? Ela não une casais que se separam, ela não consola as viúvas, ela não corrige até os aparentemente incorrigíveis? Um dia, Mamãe disse ao meu Pai, na hora do almoço:

— Hoje me trouxeram um caso difícil... Um rapaz viciado. Você vai empregá-lo. Seja tudo pelo amor de Deus. Ele me veio pedir auxílio... e eu tenho que ajudar. O pobre chorou tanto, implorou... contando a sua miséria. É um desgraçado!

— Hoje me trouxeram um caso difícil... Um rapaz viciado. Você vai empregá-lo. Seja tudo pelo amor de Deus. Ele me veio pedir auxílio... e eu tenho que ajudar. O pobre chorou tanto, implorou... contando a sua miséria. É um desgraçado!

— Sabe que os médicos de Santo Antônio não deram nenhum jeito? Quero que você me ajude. Acho que ele deve trabalhar... aqui. Não é sacrifício para você, porque ele diz que quer trabalhar para nós, já que dinheiro eu não aceito mesmo, porque só faço caridade!

O novo empregado parecia uma moça bonita. Era corado, tinha uns olhos pretos, pestanudos, andava sem fazer barulho. Sabia versos de cor, e às vezes os recitava baixinho, limpando o balcão. Quando o souberam empregado de meu Pai — foram avisá-lo:

— Isso não é gente para trabalhar em casa de respeito!

— Ela quis — respondeu meu Pai. — Ela sempre sabe o que faz!

O novo empregado começou o serviço com convicção, mas tinha crises de angústia. Em certas noites não vinha jantar conosco, como ficara combinado. E aparecia mais tarde, os olhos vermelhos.

Muitas vezes, Mamãe se trancava com ele na sala, e a sua voz de tom igual, feria, era de repreensão. Ela o censurava, também, na frente de meu Pai, e de mim mesma, porém sorrindo de bondade:

— Tire a mão da cintura. Você já parece uma moça, e assim, então...

Mas sabia dizer a palavra que ele desejaria, decerto, ouvir:

— Não há ninguém melhor do que você, nesta terra! Por que é que tem medo dos outros? Erga a cabeça... Vamos!

Animado, meu Pai garantia:

— Em minha casa ninguém tem coragem de desfeitear você. Quero ver só isso!

Não tinha mesmo. Até os moleques que, da calçada, apontavam e riam, falavam alto, ficavam sérios e fugiam, mal meu Pai surgisse à porta.

E o moço passou muito tempo sem falhar nos jantares. Nas horas vagas fazia coisas bonitas para Mamãe. Pintou-lhe um leque e fez um vaso em forma de cisne, com papéis velhos molhados, e uma mistura de cola e nem sei mais o quê. Ficou meu amigo. Sabia de modas, como ninguém. Dava opinião sobre os meus vestidos. À hora da reza, ele, que era tão humilhado, de olhar batido, já vinha perto de Mamãe, de terço na mão. Se chegavam visitas, quando estava conosco, ele não se retirava depressa como fazia antes. E ficava num canto, olhando tranqüilo, com simpatia. Pouco a pouco eu assistia, também, à sua modificação. Menos tímido, ele ficara menos afeminado. Seus gestos já eram confiantes, suas atitudes menos ridículas.

Mamãe, que policiava muito seu modo de conversar, já se esquecia de que ele era um estranho. E ria muito à vontade, suas gostosas e trêmulas risadinhas. Parece que não o doutrinava, não era preciso mais. E ele deu de segui-la fielmente, nas horas em que não estava no balcão. Ajudava-a em casa, acompanhava-a nas compras. Em Laterra, soube depois, certas moças que por namoradeiras tinham raiva da Mamãe, já diziam, escondidas atrás da janela, vendo-a passar:

— Você não acha que ela consertou... demais?

Laterra tinha orgulho de Mamãe, a pessoa mais importante da cidade. Muitos sentiam quase sofrimento, por aquela afeição que pendia para o lado cômico. Viam-na passar depressa, o andar firme, um tanto duro, e ele, o moço, atrás, carregando seus embrulhos, ou ao lado levando sua sombrinha, aberta com unção, como se fora um pálio. Um franco mal-estar dominava a cidade. Até que num domingo, quando Mamãe falou sobre a felicidade conjugal, sobre os deveres do casamento, algumas cabeças se voltaram quase imperceptivelmente para o rapaz, mas ainda assim eu notei a malícia. E qualquer absurdo sentimento arrasou meu coração em expectativa.

Mamãe foi a última a notar a paixão que despertara:

— Vejam, eu só procurei levantar seu moral... A própria mãe o considerava um perdido — chegou a querer que morresse! Eu falo — porque todos sabem — mas ele hoje é um moço de bem!

Papai foi ficando triste. Um dia, desabafou:

— Acho melhor que ele vá embora. Parece que o que você queria, que ele mostrasse que poderia ser decente e trabalhador, como qualquer um, afinal conseguiu! Vamos agradecer a Deus e mandá-lo para casa. Você é extraordinária!

— Mas — disse Mamãe admirada. — Você não vê que é preciso mais tempo... para que se esqueçam dele? Mandar esse rapaz de volta, agora, até é um pecado! Um pecado que eu não quero em minha consciência.

Houve uma noite em que o moço contou ao jantar a história de um caipira, e Mamãe ria como nunca, levantando a cabeça pequenina, mostrando a sua nudez mais perturbadora —seu pescoço — naquele gorjeio trêmulo. Vi-o ao empregado, ficar vermelho e de olhos brilhantes, para aquele esplendor branco. Papai não riu. Eu me sentia feliz e assustada. Três dias depois o moço adoeceu de gripe. Numa visita que Mamãe lhe fez, ele disse qualquer coisa que eu jamais saberei. Ouvimos pela primeira vez a voz de Mamãe vibrar alto, furiosa, desencantada. Uma semana depois ele estava restabelecido, voltava ao trabalho. Ela disse a meu Pai:

— Você tem razão. É melhor que ele volte para casa.

À hora do jantar, Mamãe ordenou à criada:

— Só nós três jantamos em casa! Ponha três pratos...

No dia seguinte, à hora da reza, o moço chegou assustado, mas foi abrindo caminho, tomou seu costumeiro lugar junto de Mamãe:

— Saia!... — disse ela baixo, antes de começar a reza. Ele ouviu — e saiu, sem nem ao menos suplicar com os olhos.

Todas as cabeças o seguiram lentamente. Eu o vi de costas, já perto da porta, no seu andar discreto de mocinha de colégio, desembocar pela noite.

— Padre Nosso, que estais no céu, santificado seja o Vosso Nome...

Desta vez as vozes que a acompanhavam eram mais firmes do que nos últimos dias.

Ele não voltou para a sua cidade, onde era a caçoada geral. Naquela mesma noite, quando saía de Laterra, um fazendeiro viu como que um longo vulto balançando de uma árvore. Homem de coragem, pensou que fosse algum assaltante. Descobriu o moço. Fomos chamados. Eu também o vi. Mamãe não. À luz da lanterna, achei-o mais ridículo do que trágico, frágil e pendente como um judas de cara de pano roxo. Logo uma multidão enorme cercou a velha mangueira, depois se dispersou. Eu me convenci de que Laterra toda respirava aliviada. Era a prova! Sua senhora não transigira, sua moralista não falhara. Uma onda de desafogo espraiou-se pela cidade.

Em casa não falamos no assunto, por muito tempo. Porém Mamãe, perfeita e perfumada como sempre, durante meses deixou de dar suas risadinhas, embora continuasse agora, sem grande convicção — eu o sabia — a dar os seus conselhos. Todavia punha, mesmo no jantar, vestidos escuros, cerrados no pescoço.


Dinah Silveira de Queiroz

O texto acima foi publicado no livro "Histórias do Amor Maldito", Editora Record — Rio de Janeiro, 1967, seleção de Gasparino Damata. Foi considerado e consta do livro "Cem melhores contos brasileiros do século", seleção de Ítalo Moriconi, em edição da Objetiva — Rio de Janeiro, 2000, pág. 180.

Entre irmãos


O menino sentado à minha frente é meu irmão, assim me disseram; e bem pode ser verdade, ele regula pelos dezessete anos, justamente o tempo que estive solto no mundo, sem contato nem notícia. Quanta coisa muda em dezessete anos, até os nossos sentimentos, e quanta coisa acontece — um menino nasce, cresce e fica quase homem e de repente nos olha na cara e temos que abrir lugar para ele em nosso mundo, e com urgência porque ele não pode mais ficar de fora.

A princípio quero tratá-lo como intruso, mostrar-lhe a minha hostilidade, não abertamente para não chocá-lo, mas de maneira a não lhe deixar dúvida, como se lhe perguntasse com todas as letras: que direito tem você de estar aqui na intimidade de minha família, entrando nos nossos segredos mais íntimos, dormindo na cama onde eu dormi, lendo meus velhos livros, talvez sorrindo das minhas anotações à margem, tratando meu pai com intimidade, talvez discutindo a minha conduta, talvez até criticando-a? Mas depois vou notando que ele não é totalmente estranho, as orelhas muito afastadas da cabeça não são diferentes das minhas, o seu sorriso tem um traço de sarcasmo que eu conheço muito bem de olhar-me ao espelho, o seu jeito de sentar-se de lado e cruzar as pernas tem impressionante semelhança com o meu pai. De repente fere-me a idéia de que o intruso talvez seja eu, que ele tenha mais direito de hostilizar-me do que eu a ele, que vive nesta casa há dezessete anos, sem a ter pedido ele aceitou e fez dela o seu lar, estabeleceu intimidade com o espaço e com os objetos, amansou o ambiente a seu modo, criou as suas preferências e as suas antipatias, e agora eu caio aí de repente desarticulando tudo com minhas vibrações de onda diferente. O intruso sou eu, não ele.

Ao pensar nisso vem-me o desejo urgente de entendê-lo e de ficar amigo, de derrubar todas as barreiras, de abrir-lhe o meu mundo e de entrar no dele. Faço-lhe perguntas e noto a sua avidez em respondê-las, mas logo vejo a inutilidade de prosseguir nesse caminho, as perguntas parecem-me formais e as respostas forçadas e complacentes. Há um silêncio incômodo, eu olho os pés dele, noto os sapatos bastante usados, os solados revirando-se nas beiradas, as rachaduras do couro como mapa de rios em miniatura, a poeira acumulada nas fendas. Se não fosse o receio de parecer fútil eu perguntaria se ele tem outro sapato mais conservado, se gostaria que lhe oferecesse um novo, e uma roupa nova para combinar. Mas seria esse o caminho para chegar a ele? Não seria um caminho simples demais, e por conseguinte inadequado?

Tenho tanta coisa a dizer, mas não sei como começar, até a minha voz parece ter perdido a naturalidade, sinto que não a governo, eu mesmo me aborreço ao ouvi-la. Ele me olha, e vejo que está me examinando, procurando decidir se devo ser tratado como irmão ou como estranho, e imagino que as suas dificuldades não devem ser menores do que as minhas. Ele me pergunta se eu moro numa casa grande, com muitos quartos, e antes de responder procuro descobrir o motivo da pergunta. Por que falar em casa? E qual a importância de muitos quartos? Causarei inveja nele se responder que sim? Não, não tenho casa, há muito tempo que tenho morado em hotel. Ele me olha parece que fascinado, diz que deve ser bom viver em hotel, e conta que toda vez que faz reparos à comida mamãe diz que ele deve ir para um hotel, onde pode reclamar e exigir. De repente o fascínio se transforma em alarme, e ele observa que se eu vivo em hotel não posso ter um cão em minha companhia, o jornal disse uma vez que um homem foi processado por ter um cão em um quarto de hotel. Não me sinto atingido pela proibição, se é que existe, nunca pensei em ter um cão, não resistiria me separar dele quando tivesse que arrumar as malas, como estou sempre fazendo; mas devo dizer-lhe isso e provocar nele uma pena que eu mesmo não sinto? Confirmo a proibição e exagero a vigilância nos hotéis. Ele suspira e diz que então não viveria num hotel nem de graça.

Ficamos novamente calados e eu procuro imaginar como será ele quando está com seus amigos, quais os seus assuntos favoritos, o timbre de sua risada quando ele está feliz e despreocupado, a fluência de sua voz quando ele pode falar sem ter que vigiar as palavras. O telefone toca lá dentro e eu fico desejando que o chamado seja para um de nós, assim teremos um bom pretexto para interromper a conversa sem ter que inventar uma desculpa; mas passa-se muito tempo e perco a esperança, o telefone já deve até ter sido desligado. Ele também parece interessado no telefone, mas disfarça muito bem a impaciência. Agora ele está olhando pela janela, com certeza desejando que passe algum amigo ou conhecido que o salve do martírio, mas o sol está muito quente e ninguém quer sair à rua a essa hora do dia. Embaixo na esquina um homem afia facas, escuto o gemido fino da lâmina no rebolo e sinto mais calor ainda. Quando eu era menino tive uma faca que troquei por um projetor de cinema feito por mim mesmo — uma caixa de sapato dividida ao meio, um buraquinho quadrado, uma lente de óculos — e passava horas à beira do rego afiando a faca, servia para descascar cana e laranja. Vale a pena dizer-lhe isso ou será muita infantilidade, considerando que ele está com dezessete anos e eu tinha uns dez naquele tempo? É melhor não dizer, só o que é espontâneo interessa, e a simples hesitação já estraga a espontaneidade.

Uma mulher entra na sala, reconheço nela uma de nossas vizinhas, entra com o ar de quem vem pedir alguma coisa urgente. Levanto-me de um pulo para me oferecer; ela diz que não sabia que estávamos conversando, promete não nos interromper, pede desculpa e desaparece. Não sei se consegui disfarçar um suspiro, detesto aquela consideração fora de hora, e sou capaz de jurar que meu irmão também pensa assim. Olhamo-nos novamente já em franco desespero, compreendemos que somos prisioneiros um do outro, mas compreendemos também que nada podemos fazer para nos libertar. Ele diz qualquer coisa a respeito do tempo, eu acho a observação tão desnecessária — e idiota — que nem me dou ao trabalho de responder.

Francamente já não sei o que fazer, a minha experiência não me socorre , não sei como fugir daquela sala, dos retratos da parede, do velho espelho embaciado que reflete uma estampa do Sagrado Coração, do assoalho de tábuas empenadas formando ondas. Esforço-me com tanta veemência que a consciência do esforço me amarra cada vez mais àquelas quatro paredes. Só uma catástrofe nos salvaria, e eu desejo intensamente um terremoto ou um incêndio, mas infelizmente essas coisas não acontecem por encomenda. Sinto o suor escorrendo frio por dentro da camisa e tenho vontade de sair dali correndo, mas como poderei fazê-lo sem perder para sempre alguma coisa muito importante, e como explicar depois a minha conduta quando eu puder examiná-la de longe e ver o quanto fui inepto? Não, basta de fugas, preciso ficar aqui sentado e purgar o meu erro.

A porta abre-se abruptamente e a vizinha entra de novo apertando as mãos no peito, olha alternadamente para um e outro de nós e diz, numa voz que mal escuto:

— Sua mãe está pedindo um padre.

Levantamos os dois de um pulo, dando graças a Deus — que ele nos perdoe — pela oportunidade de escaparmos daquela câmara de suplício.

José J. Veiga


O conto acima, que consta do livro "Os Cavalinhos de Platiplanto", publicado pela Editora Civilização Brasileira — Rio de Janeiro, 1981, foi selecionado por Ítalo Moriconi e incluído no livro "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século", Editora Objetiva — Rio de Janeiro, 2000, pág. 186.

O homem que sabia javanês


Em uma confeitaria, certa vez, ao meu amigo Castro contava eu as partidas que havia pregado às convicções e às respeitabilidades, para poder viver. Houve mesmo uma dada ocasião, quando estive em Manaus, em que fui obrigado a esconder a minha qualidade de bacharel, para mais confiança obter dos clientes, que afluíam ao meu escritório de feiticeiro e adivinho. Contava eu isso.

O meu amigo ouvia-me calado, embevecido, gostando daquele meu Gil Blas vivido, até que, em uma pausa da conversa, ao esgotarmos os copos, observou a esmo:

— Tens levado uma vida bem engraçada, Castelo!

— Só assim se pode viver... Isto de uma ocupação única: sair de casa a certas horas, voltar a outras, aborrece, não achas? Não sei como me tenho agüentado lá, no consulado!

— Cansa-se; mas não é isso que me admiro. O que me admira é que tenhas corrido tantas aventuras aqui, neste Brasil imbecil e burocrático.

— Qual! Aqui mesmo, meu Castro, se podem arranjar belas páginas de vida. Imagina tu que eu já fui professor de javanês?

— Quando? Aqui, depois que voltaste do consulado?

— Não; antes. E, por sinal, fui nomeado cônsul por isso.

— Conta lá como foi. Bebes mais cerveja?

— Bebo.

Mandamos buscar mais outra garrafa, enchemos os copos, e continuei:

— Eu tinha chegado havia pouco ao Rio e estava literalmente na miséria. Vivia fugido de casa de pensão em casa de pensão, sem saber onde e como ganhar dinheiro, quando li no Jornal do Comércio o anúncio seguinte:

"Precisa-se de um professor de língua javanesa. Cartas etc".

Ora, disse cá comigo, está ali uma colocação que não terá muitos concorrentes; se eu capiscasse quatro palavras, ia apresentar-me. Saí do café e andei pelas ruas, sempre imaginar-me professor de javanês, ganhando dinheiro, andando de bonde e sem encontros desagradáveis com os "cadáveres". Insensivelmente dirigi-me à Biblioteca Nacional. Não sabia bem que livro iria pedir, mas entrei, entreguei o chapéu ao porteiro, recebi a senha e subi.

Na escada, acudiu-me pedir a Grande Encyclopédie, letra J, a fim de consultar o artigo relativo a Java e à língua javanesa. Dito e feito. Fiquei sabendo, ao fim de alguns minutos, que Java era uma grande ilha do arquipélago de Sonda, colônia holandesa, e o javanês, língua aglutinante do grupo malaio-polinésio, possuía uma literatura digna de nota e escrita em caracteres derivados do velho alfabeto hindu.

A Enciclopédia dava-me indicação de trabalhos sobre a tal língua malaia e não tive dúvidas em consultar um deles. Copiei o alfabeto, a sua pronunciação figurada e saí. Andei pelas ruas, perambulando e mastigando letras.

Na minha cabeça dançavam hieróglifos; de quando em quando consultava as minhas notas; entrava nos jardins e escrevia estes calungas na areia para guardá-los bem na memória e habituar a mão a escrevê-los.

À noite, quando pude entrar em casa sem ser visto, para evitar indiscretas perguntas do encarregado, ainda continuei no quarto a engolir o meu "a-b-c" malaio, e, com tanto afinco levei o propósito que, de manhã, o sabia perfeitamente. Convenci-me de que aquela era a língua mais fácil do mundo e saí; mas não tão cedo que não me encontrasse com o encarregado dos aluguéis dos cômodos:

— Senhor Castelo, quando salda a sua conta?

Respondi-lhe então eu, com a mais encantadora esperança:

— Breve... Espere um pouco... Tenha paciência... Vou ser nomeado professor de javanês, e... Por aí o homem interrompeu-me:

— Que diabo vem a ser isso, Senhor Castelo?

Gostei da diversão e ataquei o patriotismo do homem.

— É uma língua que se fala lá pelas bandas do Timor. Sabe onde é?

Oh! alma ingênua! O homem esqueceu-se da minha dívida e disse-me com aquele falar forte dos portugueses:

— Eu cá por mim, não sei bem; mas ouvi dizer que são umas terras que temos lá para os lados de Macau. E o senhor sabe disso, Senhor Castelo?

Animado com esta saída feliz que me deu o javanês, voltei a procurar o anúncio. Lá estava ele. Resolvi animosamente propor-me ao professorado do idioma oceânico. Redigi a resposta, passei pelo Jornal e lá deixei a carta. Em seguida, voltei à biblioteca e continuei os meus estudos de javanês. Não fiz grandes progressos nesse dia, não sei se por julgar o alfabeto javanês o único saber necessário a um professor de língua malaia ou se por ter me empenhado mais na bibliografia e história literária do idioma que ia ensinar.

Ao cabo de dois dias, recebia eu uma carta para ir falar ao Doutor Manuel Feliciano Soares Albernaz, Barão de Jacuecanga, à rua Conde de Bonfim, não me recordo bem que número. É preciso não te esqueceres de que entrementes continuei estudando o meu malaio, isto é, o tal javanês. Além do alfabeto, fiquei sabendo o nome de alguns autores, também perguntar responder "como está o senhor"? e duas ou três regras de gramática, lastrado todo esse saber com vinte palavras do léxico.

Não imaginas as grandes dificuldades com que lutei para arranjar os quatrocentos réis da viagem! É mais fácil — pode ficar certo — aprender o javanês... Fui à pé. Cheguei suadíssimo; e, com maternal carinho, as anosas mangueiras, que se perfilavam em alameda diante da casa do titular, me receberam, me acolheram e me reconfortaram. Em toda minha vida, foi o único momento em que cheguei a sentir simpatia pela natureza...

Era uma casa enorme que parecia estar deserta; estava maltratada, mas não sei por que me veio pensar que nesse mau tratamento havia mais desleixo e cansaço de viver que mesmo pobreza. Devia haver anos que não era pintada. As paredes descascavam e os beirais do telhado, daquelas telhas vidradas de outros tempos, estavam desguarnecidos aqui e ali, como dentaduras decadentes ou malcuidadas.

Olhei um pouco o jardim e vi a pujança vingativa com que a tiririca e o carrapicho tinham expulsado os tinhorões e as begônias. Os crótons continuavam, porém, a viver com a sua folhagem de cores mortiças. Bati. Custaram-me a abrir. Veio, por fim, um antigo preto africano, cujas barbas e cabelos de algodão davam à sua fisionomia uma aguda impressão de velhice, doçura e sofrimento.

Na sala, havia uma galeria de retratos: arrogantes senhores de barba em colar se perfilavam enquadrados em imensas molduras douradas, e doces perfis de senhoras, em bandós, com grandes leques, pareciam querer subir aos ares, enfunadas pelos redondos vestidos à balão; mas, daquelas velhas coisas, sobre as quais a poeira punha mais antigüidade e respeito, a que gostei mais de ver foi um belo jarrão de porcelana da China ou da Índia, como se diz. Aquela pureza da louça, a sua fragilidade, a ingenuidade do desenho e aquele fosco brilho de luar, diziam-me a mim que aquele objeto tinha sido feito por mãos de criança, a sonhar, para encanto dos olhos fatigados dos velhos desiludidos...

Esperei um instante o dono da casa.Tardou um pouco. Um tanto trôpego, com o lenço de alcobaça na mão, tomando veneravelmente o simonte de antanho, foi cheio de respeito que o vi chegar. Tive vontade de ir-me embora. Mesmo se não fosse ele o discípulo, era sempre um crime mistificar aquele ancião, cuja velhice trazia à tona do meu pensamento alguma coisa de augusto, de sagrado. Hesitei, mas fiquei.

— Eu sou — avancei — o professor de javanês, de que o senhor disse precisar.

— Sente-se — respondeu-me o velho.

— O senhor é daqui, do Rio?

— Não, sou de Canavieiras.

— Como? — fez ele.

— Fale um pouco alto, que sou surdo.

— Sou de Canavieiras, na Bahia — insisti eu.

— Onde fez os seus estudos?

— Em São Salvador.

— Em onde aprendeu o javanês? — indagou ele, com aquela teimosia peculiar aos velhos.

Não contava com essa pergunta, mas imediatamente arquitetei uma mentira. Contei-lhe que meu pai era javanês. Tripulante de uma navio mercante, viera ter à Bahia, estabelecera-se nas proximidades de Canavieiras como pescador, casara, prosperara e fora com ele que aprendi javanês.

— E ele acreditou? E o físico? — perguntou meu amigo, que até então me ouvira calado.

— Não sou — objetei — lá muito diferente de um javanês. Estes meu cabelos corridos, duros e grossos e a minha pele basané podem dar-me muito bem o aspecto de um mestiço malaio... Tu sabes bem que, entre nós, há de tudo: índios, malaios, taitianos, malgaches, guanches, atégodos. É uma comparsaria de raças e tipos de fazer inveja ao mundo inteiro.

— Bem — fez o meu amigo —, continua.

— O velho — emendei eu — ouviu-me atentamente, considerou demoradamente o meu físico, e pareceu que me julgava de fato filho de malaio, e perguntou-me com doçura:

— Então está disposto a ensinar-me javanês?

— A resposta saiu-me sem querer. Pois não.

— O senhor há de ficar admirado — aduziu o Barão de Jacuecanga — que eu, nesta idade, ainda queira aprender qualquer coisa, mas...

— Não tenho que admirar. Têm-se visto exemplos e exemplos muito fecundos...

— O que eu quero, meu caro senhor...?

— Castelo — adiantei eu.

— O que eu quero, meu caro Senhor Castelo, é cumprir um juramento de família. Não sei se o senhor sabe que eu sou neto do Conselheiro Albernaz, aquele que acompanhou Pedro I, quando abdicou. Voltando de Londres, trouxe para aqui um livro em língua esquisita, a que tinha grande estimação. Fora um hindu ou siamês que lho dera em Londres, em agradecimento a não sei que serviço prestado por meu avô. Ao morrer meu avô, chamou meu pai e lhe disse: "Filho, tenho este livro aqui, escrito em javanês. Disse-me que mo deu que ele evita desgraças e traz felicidades para quem o tem. Eu não sei nada ao certo. Em todo caso, guarda-o; mas, se queres que o fado que me deitou o sábio oriental se cumpra, faze com que teu filho o entenda, para que sempre a nossa raça seja feliz." Meu pai — continuou o velho barão — não acreditou muito na história; contudo guardou o livro. Às portas da morte, ele mo deu e disse-me o que prometera ao pai. Em começo, pouco caso fiz da história do livro. Deitei-o a um canto e fabriquei minha vida. Cheguei até esquecer-me dele; mas, de uns tempos a esta parte, tenho passado por tanto desgosto, tantas desgraças têm caído sobre a minha velhice que me lembrei do talismã da família. Tenho que o ler, que o compreender, e não quero que os meus últimos dias anunciem o desastre da minha posteridade; e, para entendê-lo, é claro que preciso entender o javanês. Eis aí.

Calou-se e notei que os olhos do velho se tinham orvalhado. Enxugou discretamente os olhos e perguntou-me se queria ver o livro. Respondi-lhe que sim. Chamou o criado, deu-lhe as instruções e explicou-me que perdera todos os filhos, sobrinhos, só lhe restando uma filha casada, cuja prole, porém, estava reduzida a um filho, débil de corpo e de saúde frágil e oscilante.

Veio o livro. Era um velho calhamaço, um inquarto antigo, encadernado em couro, impresso em grandes letras, em um papel amarelado e grosso. Faltava a folha do rosto e por isso não se podia ler a data da impressão. Tinha ainda umas páginas de prefácio, escritas em inglês, onde li que se tratava das histórias do príncipe Kulanga, escritor javanês de muito mérito.

Logo informei disso o velho barão que, não percebendo que eu tinha chegado aí pelo inglês, ficou tendo em alta consideração o meu saber malaio. Estive ainda folheando o cartapácio, à laiade quem sabe magistralmente aquela espécie de vasconço, até que afinal contratamos as condições de preço e de hora, comprometendo-me a fazer com que ele lesse o tal alfarrábio antes de um ano.

Dentro em pouco, dava a minha primeira lição, mas o velho não foi tão diligente quanto eu. Não conseguia aprender a distinguir e a escrever nem sequer quatro letras. Enfim, com metade do alfabeto levamos um mês e o Senhor Barão de Jacuecanga não ficou lá muito senhor da matéria: aprendia e desaprendia.

A filha e o genro ( penso que até aí nada sabiam da história do livro) vieram a ter notícias do estudo do velho; não se incomodaram. Acharam graça e julgaram coisa boa para distraí-lo.

Mas com que tu vais ficar assombrado, meu caro Castro, é com a admiração que o genro ficou tendo pelo professor de javanês. Que coisa única! Ele não se cansava de repetir: "É um assombro! Tão moço! Se eu soubesse isso, ah! onde estava!"

O marido de Dona Maria da Glória ( assim se chamava a filha do barão), era desembargador, homem relacionado e poderoso; mas não se pejava em mostrar diante de todo o mundo a sua admiração pelo meu javanês. Por outro lado, o barão estava contentíssimo. Ao fim de dois meses, desistira da aprendizagem e pedira-me que lhe traduzisse, um dia sim outro não, um trecho do livro encantado. Bastava entendê-lo, disse-me ele; nada se opunha que outrem o traduzisse e ele ouvisse. Assim evitava a fadiga do estudo e cumpria o encargo.

Sabes bem que até hoje nada sei de javanês, mas compus umas histórias bem tolas e impingi-as ao velhote como sendo do crônicon. Como ele ouvia aquelas bobagens!... Ficava extático, como se estivesse a ouvir palavras de um anjo. E eu crescia a seus olhos! Fez-me morar em sua casa, enchia-me de presentes, aumentava-me o ordenado. Passava, enfim, uma vida regalada.

Contribuiu muito para isso o fato de vir ele a receber uma herança de um seu parente esquecido que vivia em Portugal. O bom velho atribuiu a coisa ao meu javanês; e eu estive quase a crê-lo também.

Fui perdendo os remorsos; mas, em todo o caso, sempre tive medo de que me aparecesse pela frente alguém que soubesse o tal patuá malaio. E esse meu temor foi grande, quando o doce barão me mandou com uma carta ao Visconde de Caruru, para que me fizesse entrar na diplomacia. Fiz-lhe todas as objeções: a minha fealdade, a falta de elegância, o meu aspecto tagalo. — "Qual! retrucava ele. Vá, menino; você sabe javanês!" Fui. Mandou-me o visconde para a Secretaria dos Estrangeiros com diversas recomendações. Foi um sucesso.

O diretor chamou os chefes de seção: "Vejam só, um homem que sabe javanês — que portento!"

Os chefes da seção levaram-me aos oficiais e amanuenses e houve um destes que me olhou mais com ódio do que com inveja ou admiração. E todos diziam: "Então sabe javanês? É difícil? Não há quem o saiba aqui!"

O tal amanuense, que me olhou com ódio, acudiu então: "É verdade, mas eu sei canaque. O senhor sabe?" Disse-lhe que não e fui à presença do ministro.

A alta autoridade levantou-se, pôs as mãos às cadeiras, consertou o pince-nez no nariz e perguntou: " Então, sabe javanês?" Respondi-lhe que sim; e, à sua pergunta onde o tinha aprendido, contei-lhe a história do tal pai javanês. "Bem, disse-me o ministro o senhor não deve ir para a diplomacia; o seu físico não se presta... O bom seria um consulado na Àsia ou Oceania. Por ora, não há vaga, mas vou fazer uma reforma e o senhor entrará. De hoje em diante, porém, fica adido ao meu ministério e quero que, para o ano, parta para Bâle, onde vai representar o Brasil no congresso de Lingüística. Estude, leia o Hove-Iacque, o Max Müller, e outros!"

Imagina tu que eu até aí nada sabia de javanês, mas estava empregado e iria representar o Brasil em um congresso de sábios.

O velho barão veio a morrer, passou o livro ao genro para que o fizesse chegar ao neto, quando tivesse a idade conveniente e fez-me uma deixa no testamento.

Pus-me com afã no estudo das línguas malaio-polinésias; mas não havia meio!

Bem jantado, bem vestido, bem dormido, não tinha energia necessária para fazer entrar na cachola aquelas coisas esquisitas. Comprei livros, assinei revistas: Revue Anthropologique et Linguistique, Proceedings of the English-Oceanic Association, Archivo Glottologico Italiano, o diabo, mas nada! E a minha fama crescia. Na rua, os informados apontavam-me, dizendo aosoutros: "Lá vai o sujeito que sabe javanês." Nas livrarias, os gramáticos consultavam-me sobre a colocação dos pronomes no tal jargão das ilhas de Sonda. Recebia cartas dos eruditos dointerior, os jornais citavam o meu saber e recusei aceitar uma turma de alunos sequiosos de entender o tal javanês. A convite da redação, escrevi, no Jornal do Commércio, um artigo dequatro colunas sobre a literatura javanesa antiga e moderna...

— Como, se tu nada sabias? — interrompeu-me o atento Castro.

— Muito simplesmente: primeiramente, descrevi a ilha de Java, com o auxílio de dicionários e umas poucas de geografia, e depois citei a mais não poder.

— E nunca duvidaram? — perguntou-me ainda o meu amigo.

— Nunca. Isto é, uma vez quase fico perdido. A polícia prendeu um sujeito, um marujo, um tipo bronzeado que só falava em língua esquisita. Chamaram diversos intérpretes, ninguém o entendia. Fui também chamado, com todos os respeitos que a minha sabedoria merecia, naturalmente. Demorei-me em ir, mas fui afinal. O homem já estava solto, graças à intervenção do cônsul holandês, a quem ele se fez compreender com meia dúzia de palavras holandesas. E o tal marujo era javanês — uf!

Chegou, enfim, a época do congresso, e lá fui para a Europa. Que delícia! Assisti à inauguração e às sessões preparatórias. Inscreveram-me na seção do tupi-guarani e eu abalei para Paris. Antes, porém, fiz publicar no Mensageiro de Bâle o meu retrato, notas biográficas e bibliográficas. Quando voltei, o presidente pediu-me desculpas por me ter dado aquela seção; não conhecia os meus trabalhos e julgara que, por ser eu americano-brasileiro, me estava naturalmente indicada a seção do tupi-guarani. Aceitei as explicações e até hoje ainda não pude escrever as minhas obras sobre o javanês, para lhe mandar, conforme prometi.

Acabado o congresso, fiz publicar extratos do artigo do Mensageiro de Bâle, em Berlim, em Turim e em Paris, onde os leitores de minhas obras me ofereceram um banquete, presidido pelo Senador Gorot. Custou-me toda essa brincadeira, inclusive o banquete que me foi oferecido, cerca de dez mil francos, quase toda a herança do crédulo e bom Barão de Jacuecanga.

Não perdi meu tempo nem meu dinheiro. Passei a ser uma glória nacional e, ao saltar no cais Pharoux, recebi uma ovação de todas as classes sociais e o presidente da República, dias depois, convidava-me para almoçar em sua companhia.

Dentro de seis meses fui despachado cônsul em Havana, onde estive seis anos e para onde voltarei, a fim de aperfeiçoar os meus estudos das línguas da Malaia, Melanésia e Polinésia.

— É fantástico — observou Castro, agarrando o copo de cerveja.

— Olha: se não fosse estar contente, sabes que ia ser?

— Quê?

— Bacteriologista eminente. Vamos?

— Vamos.



Lima Barreto

O texto acima, que tem uma história engraçada envolvendo a revista Veja e o escritor Luis Fernando Veríssimo, foi considerado o mais ferino, malicioso e cáustico escrito por Lima Barreto. Extraído do livro "Antologia de Humorismo e Sátira", Editora Civilização Brasileira S. A. — Rio de Janeiro,1957, pág. 204.

Escuridão


Sena tem um jeito peculiar de acordar as pessoas. Ele as cutuca. De leve. Mas acho que se esquece que o que se aplica às pessoas normais não se aplica para ele. Os cutucões que ele deu em meu ombro naquela terça-feira pareceram socos de pugilista. Meus olhos se abriram. Apareceu o porta-luvas, o rádio, o vidro embaçado do carro. E o homem de dois metros de altura ao meu lado, empenhado em sua missão de deslocar meu ombro.
- Ei, já acordei – disse eu, quando julguei já ter apanhado o suficiente.
A enorme mão parou de me “cutucar” e apontou para algo fora do carro. Era para lá, também, que o olhar de Sena se dirigia.
- Ela está ali – anunciou solenemente.
Sim, era verdade. Alana Lopes estava do outro lado da rua, trocando um beijo de novela das oito com um cara que não conseguíamos ver o rosto. Sena e eu observamos tudo em um silêncio que não refletia nosso júbilo. Eu queria pular e dar socos no ar de alegria. Mas ainda assim permanecemos em silêncio, como que para dar ao momento maior significado.
Desaparecida há mais de duas semanas. Meu caso mais demorado desde que comecei a trabalhar com Sena. Um sem número de pistas falsas, becos sem saída, amigos que não sabiam de nada, familiares calados.
Até que, enfim, surgiu alguém com ódio o suficiente para abrir o bico. Uma das garotas do círculo de amizades de Alana, que perdera o namorado para a jovem desaparecida. O cara vivia num prédio caindo aos pedaços em Ponta D’areia, bairro próximo ao centro da cidade.
Quatro horas de campana. E lá, finalmente, estava ela.
Uma salva de tiros seria apropriada.
O beijo continuava. Último capítulo da novela, mocinho e mocinha livres dos ardis da vilã, vivendo felizes para sempre.
Quando as bocas se separaram, os dois trocaram algumas palavras. Depois mais um beijinho, e ele entrou no prédio. Ela seguiu reto pela calçada, mãos nos bolsos da jaqueta.
- Robson.
- Já sei. Deixa comigo.
Saltei do carro no momento em que ela virava na esquina. Bati a porta, me afastei.
As ruas tinham adquirido aquele aspecto melancólico característico dos dias de chuva. Poças de todos os tamanhos acumulavam-se contra o meio-fio. Soprava um vento gélido, cortante. Primavera em Niterói.
Segui-a a uma distância segura, passos lentos, água entrando nos tênis, mãos abrigadas nos bolsos, vento balançando os cabelos, sopro gelado no peito. O casaco vencido. O corpo arrepiado.
Alana caminhava como uma princesa, parecendo mal tocar o chão. Botas pretas, calça jeans de marca, jaqueta de couro. Cinco ou seis pescoços masculinos quase quebraram só para vê-la passar, olhos brilhando numa ambição natural. Ela não olhava para os lados, para as pessoas, para nada a sua volta. Só para frente.
Fiquei me perguntando por que ela havia abandonado o berço de ouro onde nascera para se enfurnar naquele prédio que mais parecia um cortiço do século XVIII. Cansada da vida de luxo? Querendo independência, viver sua vida sem a interferência dos pais? Como alguém criada para ser uma dondoca escapa disso?
Ela entrou num mercadinho logo na beirada da Avenida Feliciano Sodré. Ambiente pequeno, sujo, prateleiras empoeiradas exibindo produtos à preços paradoxalmente mais altos do que os dos grandes supermercados. Me abriguei a duas prateleiras de distância. Via seu rosto abaixado, enquanto escolhia o que levar. Sem prestar atenção em nada mais.
Mais alguns minutos lá dentro. Foi até o caixa levando alguns quilos de arroz, feijão, macarrão e outros mantimentos. Pagou no cartão. Saiu apressada, como se o lugar a estivesse causando náuseas. Dei um tempinho, comprei um biscoito recheado e prossegui atrás dela. Que produtivo. Ela voltou para o mesmo lugar. Entrou no moquifo carregando suas compras, não sem antes respirar fundo, lançando um olhar de ódio contido aos umbrais da porta velha e descascada.
Voltei para o carro.
- Ela só foi ao mercado – anunciei.
Sena olhou para mim.
- O que fazemos agora? – perguntou.
- Contamos ao pai que a encontramos. E aguardamos novas instruções dele. – Detestava aquelas perguntas, mas meu salário vinha dele, que as fazia. Melhor não comentar.
- Certo. – Olhou para o prédio em petição de miséria, os olhos verdes semicerrados de admiração. – O que será que essa garota está fazendo aí?
Sena conversou com o pai de Alana naquele mesmo dia, e ele nos mandou continuar a observá-la. Eu fiquei no carro, de campana. Detesto campanas. Elas me dão sono. Meus olhos ficam pesados logo nos primeiros minutos. Sena diz que o bom detetive consegue condicionar seu próprio corpo. Sena diz muitas coisas.
Ele voltou a se juntar a mim horas mais tarde. Nada tinha acontecido. Alana Lopes e seu namorado continuavam em seu ninho de amor. Ligou para casa e comunicou a esposa Lia que chegaria bem tarde. Já tinha conseguido alguém para ficar ali durante a madrugada. Tive pena do infeliz.
Tarde da noite, em casa, deitado na cama com três pesados lençóis em cima de mim, pensei em Alana Lopes.
Linda. Uma princesa. Criada num palácio.
Vivendo com plebeus.
Não fazia sentido.
Eu não sou detetive experiente nem sei se um dia vou ser. Estou nessa porque Sena me garantiu que poderia fazer uma grana. E quero essa grana. Todo cara de dezenove anos desse planeta quer grana. Sou só mais um na multidão.
Não sei se um dia vou ser realmente bom nessa coisa de investigar. Sena me acompanha quase sempre, mostrando como as coisas devem ser feitas. Ele é o detetive de verdade. Quinze anos de Polícia Civil, mais quase sete como particular o ajudaram a desenvolver uma astúcia fora do comum. Eu só olho e tento absorver o que puder.
Não tenho intuição, faro ou coisa assim.
Mas algo – algo que me manteve acordado por parte da noite, ouvindo o som do vento lá fora, açoitando a casa – me dizia que havia algo de estranho acontecendo com Alana Lopes.
E meus olhos só se fecharam quando admiti para mim mesmo que provavelmente não ia gostar de descobrir o que era.
Dia seguinte, nove horas, novamente em Ponta D’areia. O amigo de Sena, Nonato, havia estacionado mais a frente, no fim da rua, para não dar na vista. Chovia fraquinho, e as pessoas passavam com guarda-chuvas armados, pés marchando e fazendo a água das poças espirrar para os lados.
- Ela e o namorado não saíram – anunciou Nonato. Parecia bem desperto. Quando eu e Sena estávamos novamente no carro, vi por que: havia uma pequena garrafa térmica sobre o painel. Boa idéia, parecia funcionar.
Nós nos acomodamos para esperar. Aquilo era um saco. Eu queria estar fazendo outra coisa. Engraçado, uma hora lá dentro e eu ainda não caíra no sono. O bom detetive consegue condicionar o próprio corpo.
- O que você acha que eles estão fazendo lá? – perguntei, incomodado pelo silêncio.
- Desde quando você é tão inocente? – disse ele à guisa de resposta.
- Você me entendeu.
Em ocasiões assim, Sena tende a dar uma de engraçadinho. O pior é que ele se acha mesmo engraçado.
- Não se pode ficar conjecturando ainda. Mal descobrimos a garota aqui. Vamos esperar.
Esperar era o que eu não queria. A visão do carro já estava me deixando enjoado, o mesmo painel, volante e tudo o mais. Não agüentava mais ficar com o traseiro parado na droga do banco. Respirei fundo. O bom detetive consegue... ora, que fosse pro inferno.
- Eu vou sair – falei.
- Pra onde? – perguntou Sena. Não parecia surpreso. Pouca coisa o surpreende.
- Vou conversar novamente com a Nádia. – Nádia era o nome da amiga de Alana. A que nos contara sobre ela e seu namorado.
Sena olhava para mim com interesse.
- Entendo. E sobre o que vocês vão conversar, exatamente?
Olhei pela janela enquanto pensava.
- Sei lá. Me parece melhor do que ficar aqui sem fazer nada.
- O que te deu pra querer falar com a garota de novo, Robson? Diga.
- Eu... – minha voz sumiu porque eu sabia que a resposta ia soar estúpida. Pensei em formas de fazê-la parecer mais madura e refletida, mas não tem como fazer um “Sabe, eu não consegui dormir direito ontem à noite pensando sobre isso. Acho que há um mistério obscuro por trás dessa história, e eu vou desvendá-lo a todo custo!” soar ajuizado.
Sena observava a porta do prédio, mas eu sabia que ainda queria uma resposta.
- Eu tenho a impressão que ela vai fazer alguma coisa – falei.
- Verdade?
- Não se desiste de tudo assim. Principalmente se você mora numa casa com mais quartos que um orfanato e tem uma conta corrente com mais zeros do que é capaz de contar.
- Tem razão. – Ainda sem se virar para mim. – Tudo bem. Vá atrás da sua resposta.
- Sério? – Fora fácil demais.
É claro. – Olhou para mim, sorrindo. – Se é o que seu instinto te diz, corra.
Nádia estava em casa. Morava num apartamento espaçoso no Ingá, pequeno bairro próximo ao centro. Os ônibus passavam fazendo pular a água nas calçadas. Tomei dois banhos. A água estava tão gelada quanto o vento. Na entrada do prédio, meus dentes batiam forte.
Ela atendeu meu telefonema e apareceu na portaria. Cabelos curtos em desalinho, olhos negros, casaco pesado. Pele branca se destacando no frio. Palidez natural. Bonita. Não entrei, estava ensopado. Ela saiu e parou na minha frente com os braços cruzados.
- Olá.
- Achou ela?
- Alana está com Marcos.
- Eu sabia. Vaca.
- Tem alguma idéia de porque ela está com seu namorado?
Testa franzida. A resposta devia ser óbvia, e eu um idiota.
- Ela é uma vaca, oras. – Como se aquilo explicasse tudo.
- Alguém como ela não sai de casa para se enfiar naquele pardieiro. Você sairia?
Ela fez que não.
- Como é Alana, na sua opinião?
Ela olhou em volta, sentindo frio, achando aquela conversa toda sem sentido, querendo voltar para casa.
- Ela é metida, ok? Nojenta ao extremo, sempre quer se dar bem em tudo.
Muitos dos ditos amigos de Alana me haviam contado o mesmo, com a diferença de alguns poucos adjetivos. Gananciosa, mal-intencionada, chata, esnobe.
Era justamente aquilo que não entrava na minha cabeça. Como alguém assim sai de seu apartamento luxuoso e vai morar numa piscina de sujeira?
- Seu namorado...
- Ele não é mais meu namorado.
-...tem alguma coisa que pudesse interessar a Alana?
Nádia ficou pensativa. Olhar baixo, analisando possibilidade, lembranças. Braços ainda cruzados, defensiva.
- Qualquer coisa – insisti.
- Ele... – parou, incerta. – Ele já foi preso, sabe?
Eu não sabia.
- Assaltou uma casa com alguns amigos. Só que não conseguiram provar nada e ele foi solto. Os outros dois foram em cana.
- E ele ficou com o dinheiro – completei. Ela assentiu.
- Mas ele já gastou tudo, de qualquer forma. Quer dizer... Eu acho.
- Obrigado, Nádia.
- Isso não vai me causar problemas, vai?
Eu garanti que não, enquanto me afastava.
Saí em disparada contra o vento. Eu literalmente voava de volta à Ponta D’areia.
No meio do caminho, porém, uma vibração do bolso da calça me fez parar. Era Sena no celular.
- O casal vinte saiu de carro – noticiou ele. – Estamos na rua que leva à Praia das Flechas.
A Presidente Pedreira. Tinham passado por mim e eu não vira.
- Sena, você sabe se os pais dela estão em casa? – A família Lopes residia num apartamento em frente à praia.
- Bem, com certeza não. Os dois trabalham. Ontem eu tive que ir encontrá-lo no trabalho, inclusive. Mas por que...
- Eles vão assaltar o apartamento.
Silêncio.
- Como sabe disso?
- O tal do Marcos já foi indiciado por roubo. É por isso que ela está com ele, Sena. Alana precisa dele para roubar a casa.
Mais silêncio. Sons de tráfego. De respiração.
- Vou ligar para o Mário. Corra pra cá.
Eu corri.
Vento bagunçado o cabelo, pessoas olhando admiradas, água esguichada pelos carros. Fria. Muito fria.
Mar revolto, ondas agitadas. Minhas passadas soando, altas, na calçada. Alguns malucos com roupas leves correndo por esporte. A chuva apertou. Gotas contra meus olhos. O prédio de fachada envidraçada apontando a minha frente. Entre aqui, amigão.
Uma senhora estava saindo. Eu segurei o portão e entrei. Jardinzinho, portaria, porteiro nervoso, gritando palavrões. Ia chamar a polícia, o caramba. Qual era mesmo o andar? O nono. Melhor não esperar o elevador. As escadas, então.
Subindo de dez em dez degraus. Respirando rápido, sem me dar conta do ar. Ecos de passos. Sexto andar, sétimo, oitavo...
Uma enorme mão de pedra segurou meu braço e tampou minha boca. Olhos verdes brilhando no escuro. A voz era um sussurro arrepiante.
- Você fica aqui. Eu assumo, agora.
- Nem vem. – Não me importava que tivesse seus dois metros e braços grandes o suficiente para tirar a Terra da órbita. Eu queria participar daquilo.
- Cala a boca. Você fica aqui. Mário está chegando. Já fez um bom trabalho. Agora eu assumo.
- Mas...
Ele saiu para o corredor. Eram apenas dois apartamentos por andar. A luz incidiu sobre seu corpo, e refletiu rapidamente no cano da arma em sua cintura. Sena só usava a arma em caso de extrema necessidade. Como aquele.
Ele desapareceu no corredor. Eu mal conseguia me mexer. Estava com medo. Com um baita cagaço. Fechei os olhos, respirei. O bom detetive consegue condicionar seu corpo. Parei de tremer. Caminhei um pouco, estiquei a cabeça. A porta do apartamento 902 estava aberta. Vi uma sombra se afastando mais para dentro.
Agucei os ouvidos. Vozes abafadas. “Você não consegue abrir?!”. Alana. Irritada. “É difícil, cacete!”. Marcos. Exasperado.
Aproximei-me mais. Sena ia me matar, mas todo mundo morre um dia.
- Merda, eles trocaram o cofre! – Alana. Possessa.
- Quietos. Ninguém se mexe. – Sena.
- Quem é você?! – Alana. Sobressaltada.
Meu pescoço contornou a parede. Do outro lado da grande sala, meu chefe estava parado na frente de uma porta. Arma apontada. Semblante duro. Calculei que fosse um quarto, mas uma parede me impedia de ver.
- Ei, cara, a gente...
- Saiam. Os dois. Agora. – Sem admitir retórica.
Sena chegou para trás. Os dois deviam estar caminhando em sua direção. Era o que seus olhos diziam. A arma apontava para baixo. Tudo finalmente tinha acabado.
Ou não.
O corpo de Marcos atingiu Sena, desequilibrando-o. Numa fração de segundo, Alana Lopes surgiu no limiar da
porta, enquanto meu chefe e seu namorado despencavam.
A arma disparou para o alto. Bum.
Ela correu. Queria escapar. Era o que seus olhos diziam. Seu plano tinha fracassado.
Seu semblante encontrou o meu. Não parou, ao contrário, veio com mais gana. Mais raiva.
Fechei o punho. Meu braço de ergueu até a altura da cabeça e se projetou a frente.
Acertei Alana Lopes no meio do nariz. Sua cabeça pendeu para trás, e em um segundo e meio acertou o chão.
Bum.
- NINGUÉM SE MEXE! – trovejou Sena. Já estava de pé. Marcos jogado num canto.
Alana olhou para mim e depois para Sena. A cólera transformava seu belo rosto em algo indescritível. Feio de se ver.
Seus olhos tinham perdido toda a luz. Restava apenas escuridão.
Meu peito requeria mais ar do que de costume. Olhei para Sena, ele para mim. “Bom trabalho, garoto”, balbuciou.
A face de Alana Lopes ainda vem me assombrar. Estou sujeito a isso, sou muito novo. Sena diz que isso passa.
Acredito nele.
Nas ocasiões em que seu rosto aparece em minha mente, distorcido e feio, penso na maldade do homem. Na ganância. No desejo incontrolável e insaciável por mais.
E o sono me custa a vir.


Josué de Oliveira

Uma Singela Homenagem

Por Bruno Resende Ramos

O mergulho de Peter Mc. Miller Johnson seria inesquecível; aliás, ele não só seria conhecido como o atleta que mais tempo ficou submerso numa prova de triatlon como também sendo o primeiro que não voltou e nem deixou vestígios. A descida ao mais profundo abismo do pacífico o reteria para sempre no fundo do oceano. Assustador! Fantástico! Inexplicável! Tudo bem, o leitor pode não acreditar, mas o nosso personagem e protagonista está no mundo sobrenatural e lá viu o que todos nós temíamos: a morte.
Aonde nasce toda a vida?
De onde originaram todas as coisas?
Fácil resposta - conclui Tomas M. Coban Oneill, um pesquisador náutico da costa oeste.
Sim, lá, nas profundezas dos mares surgiu toda as formas de vida existentes. Refutem o quanto queiram, mas, de fato, a vida surgiu das águas. Você, amigo, surgiu neste plasma biológico.
Assim, Peter, acidentalmente, viu o que estava oculto. Nas formas intramembranosas da águas férteis deste mar, num misto de água salina e gosma proteica, antes do total naufrágio, suas pupilas enxergaram um misto de sombra, frio e pungência com olhos de peixe...
No "habitat" onde formavam-se todas as espécies que se movem sobre a terra também nadava de olhos abertos atrás de formas incautas nossa maior antagonista. Ela que forma tsunamis inexplicáveis em busca do seu alimento nas costas de todo o mundo; sim, a mais aterradora personagem que nos confronta rápida e vorazmente no dia-a-dia das grandes metrópolis, uma sutil, as vezes microscópica forma que sobe dos bueiros, esconde-se nas formas triviais, virais, retrovirais do inimaginável microcosmo planetário e que a qualquer pretexto surge instantaneamente nas zonas de grande tráfego rodoviário, aeroviário; enfim, quem nos revezes climáticos, nos terremotos, maremotos esconde rítmica e sonora sua dança traiçoeira e o desejo de acomodar em nossa carne úmida os seus tentáculos e presas.
Não será outra que nos abre portas, fecha as cortinas às mínimas composições existenciais? Quem senão ela visita-nos à porta e pede entrada por um gesto simples e suave toque letal?Sim, é ela que nos convence da conveniência de experimentar a isca para enveredarmos nas sendas dos vícios. É ela sim que se oferece a abrigar-nos ao peito quando a tristeza se faz sinônimo de total declínio? É a que se enamora dos que se arriscam a qualquer preço para alcançar metas inatingíveis? Senão não fosse ela quem seria a que espera mais um Peter arriscar mergulhos além de suas forças e psicomotricidade? Quem senão a morte abre seus olhos somente quando alguém os fecha?
Essa, amigos, tem uma forma humana, uma decrépita, insinuante e bela silhueta. Ela, desde a gênese, uma forma embrionária que espera-nos crescer. Imita-nos a existência, surge conosco bem frente ao espelho, invejou-nos a vida e se compraz em tomá-la mesmo que não seja para si. É quem sempre nos espera, talvez ali, na próxima esquina. Aquela que desde a infância cultivou-nos como plantas para a infalível ceifa, sua mordaz colheita. Se nos quer na maturidade, e nos apressamos, mais dolorosa e tangível, mais tenaz sua mordida, mais fugaz nossa esperança. Como rebentos viçosos, sorvidos a seu apetitoso e obsequioso degustar, de que adianta implorar ou tentar voltar atrás?... Ela tem fome.
Não vá nadar! Ela manda nas águas do mar... É seu território.
Assim foi Peter e irão outros mais ao tempero dos anabolizantes, das anfetaminas, das drogas e do esforço em se superar.
Acolhidos por ela, forma tão efêmera, os que eram do barro voltam ao barro.
Aqui fica minha homenagem. A Peter? Não. A quem realmente vence quando a prova chega ao fim; a Morte...

Copyright © 2008 Bruno Resende Ramos - All rights reserved


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Belo texto em que mais uma vez o escritor Bruno Resende Ramos nos presenteia com uma sensibilidade fantástica. Fez-me lembrar de um texto a muito esquecido: “ Da morte não sei o dia... mas posso saber.” Do barro ao barro...
Fênix Basthos

A Arte de Ser Feliz


Houve um tempo em que minha janelas

e abria sobre uma cidade que parecia

ser feita de giz. Perto da janela havia um

pequeno jardim quase seco.

Era uma época de estiagem, de terra

esfarelada, e o jardim parecia morto.

Mas todas as manhãs vinha um pobre

com um balde e, em silêncio, ia atirando

com a mão umas gotas de água sobre

as plantas. Não era uma rega: era uma

espécie de aspersão ritual, para que o

jardim não morresse. E eu olhava para

as plantas, para o homem, para as gotas

de água que caíam de seus dedos

magros e meu coração ficava

completamente feliz.

Às vezes abro a janela e encontro o

jasmineiro em flor. Outras vezes

encontro nuvens espessas. Avisto

crinças que vão para a escola. Pardais

que pulam pelo muro. Gatos que abrem

e fecham os olhos, sonhando com

pardais. Borboletas brancas, duas a

duas, como refelectidas no espelho do ar.

Marimbondos que sempre me parecem

personagens de Lope de Vega.

Àsvezes um galo canta. Às vezes um

avião passa. Tudo está certo, no seu

lugar, cumprindo o seu destino. E eu me

sinto completamente feliz.

Mas, quando falo dessas pequenas

felicidades certas, que estão diante de

cada janela, uns dizem que essas coisas

não existem, outros que só existem

diante das minhas janelas, e outros,

finalmente, que é preciso aprender a

olhar, para poder vê-las assim.


Cecília Meireles

Luau


O vento uiva tenebroso. O mar repousa majestoso e negro sob a lua quase nova. As ondas chiam delicadamente. A noite chega a seu ponto divisor. O bip de um relógio digital de pulso agride o silêncio.

Ana Virgínia, apoiada no colo de Bonifácio, estreita o abraço e fecha os olhos. A brisa joga-lhe os cabelos sobre o rosto. Bonifácio sussurra em seus ouvidos.

_ Já deu meia noite.

Faz-se silêncio. Então Virgínia indaga.

_ Estou com uma intuição de que o encontro de hoje será diferente. Há algo no ar que só as mulheres percebem. Será que Ela vai aparecer?

_ Ela sempre aparece.

Poucos metros à frente, Laudelino acende uma lanterna. Aponta na direção de Emerson, que luta uma batalha exaustiva contra o implacável vento que tenta apagar seu cigarro. Atingido pela luz, seu rosto adquire um aspecto de fantasma, reforçado pelas distorções de expressão causadas pelo esforço em puxar o difícil trago. Reclama da lanterna.

_ Rapaz, tira essa luz do meu rosto, que está incomodando.

Laudelino aponta para outro lado e encontra Ronaldo, deitado na areia, com os olhos fixos em algum ponto do céu absurdamente estrelado. Parece balbuciar algo para si mesmo enquanto risca no ar linhas que, supõe-se, sejam reproduções das constelações. Laudelino intervém.

_ Descobriu um novo anel em Saturno?

_ Não, mas é possível numa noite como essa, em que o céu está pontilhado de estrelas antigas, estabelecer uma relação entre os arquétipos humanos e pequenos grupos constelacionais. O escorpião, por exemplo, pode ser dividido em três partes, onde podemos discernir as formas do político canalha, da estrela da mídia de entretenimento e do mau poeta.

Dôra Limeira, um pouco afastada do grupo, tenta localizar, no céu, as formações estrelares correspondentes às linhas traçadas por Ronaldo no ar. Roberto a chama.

_ Junte-se a nós, Dôra. Conte-nos novamente o que se sabe a respeito da história dEla.

_ Não quero ficar num círculo. Me agrada mais a estabilidade das formas retangulares, onde tudo se apoia na segurança de uma base firme. Círculos são traiçoeiros e pendem imprevisivelmente para lados inesperados.

_ Podemos nos redistribuir nas arestas de um quadrado, com a vantagem de termos um centro para quem gosta deles e quatro cantos para quem prefere a discrição dos cantos.

Dôra cede e se integra.

_ Diz a lenda que Ela foi afogada pelo noivo após descobrir uma traição. Toda terça à tarde Ela simulava ir ao psicólogo e se encontrava com outro homem em um hotel do centro histórico. Correm boatos de que o casal, ao fazer amor, emitia sons estranhíssimos, como os de gatos no cio. A falta de discrição chamou a atenção de outros frequentadores do hotel e, certo dia, a moça foi reconhecida por um amigo do noivo, cliente de prostitutas baratas. Ao saber da traição o noivo convidou a mulher para ir a Cabo Branco numa noite de domingo, prometendo uma surpresa. Ao chegar à beira do mar, num ponto mais afastado da área de movimento, mostrou-lhe o anel caríssimo, comprado para selar a união eterna. Entraram nus na água e, no primeiro beijo, a moça foi surpreendida pela mão atrevida em sua vagina.

"O que você está fazendo?" - Perguntou ela.

"É a sua aliança. Você vai carregá-la em seu ventre para toda a eternidade."

Regina Behar, ultimamente ausente do grupo e desconhecedora da história, de olhos arregalados pergunta:

_ E o noivo? O que aconteceu a ele depois? Ele foi atrás do amante?

_ Não. Ele deixou um bilhete assumindo o crime e isentando o amante de culpa, dizendo que a traição foi da mulher e não do outro, que nem sequer conhecia. Depois sumiu no mundo. Dizem que tornou-se líder religioso em Moçambique.

_ Que história, hem?

_ É...

E faz-se um longo silêncio.

Emerson dá um trago mal calculado no cigarro e tosse, quebrando o clima de reflexão.

Laudelino lembra-se repentinamente de algo e pergunta para os presentes:

_ Alguém por acaso sabe o resultado do jogo do Sport?

Ninguém responde.

Eli inicia desenhos na areia e, pela concentração que dedica aos detalhes, percebe-se que são desenhos complexos. Faz riscos, ergue montes, cava poços, e depois destrói tudo com as mãos, alisando a areia até planificá-la para novamente recomeçar na nova tela vazia. No meio de uma das obras Roberto estende um canudo retirado do copo plástico de caipirinha. Pergunta.

_ Vai precisar de tubulação?

_ Dessa vez não fiz uma cidade. Estou tentando me lembrar das estampas do vestido que Ela estava usando da última vez. Você se lembra se eram flores?

_ Não... não me lembro. Talvez fossem estrelas do mar.

Raoni também desenha, mas em seu bloco de rascunhos. Faz um retrato de Bonifácio que, por algum motivo, o inspirou a criar um novo personagem para um história em quadrinhos que está desenvolvendo baseada em Alice no País das Maravilhas.

_ Você se importa que eu use seus traços para compor o personagem do coelho filósofo viciado em jogos de computador da década de 80?

_ Sem problema, contando que você mantenha os óculos.

Maria Romarta chega, atrasada.

_ Eu queria pedir mil desculpas pelo minha imperdoável nagligência quanto à pontualidade desse nosso importantíssimo encontro no que se refere ao estreitamento de laços sociais literários e à boa acolhida que devemos à Ela.

André a conforta.

_ Não se preocupe, Romarta, que Ela ainda não apareceu. Inexplicavelmente está atrasada dessa vez.

Luciana, que até então estava em silêncio, concentrada em uma posição impossível da Yoga, sugere:

_ Poderíamos aproveitar que estamos na areia para fazermos uma sessão de alongamento conjugada com um pouco de meditação transcendental e exercícios respiratórios desenvolvidos especialmente para aumentar o desempenho sexual tântrico. Que tal?

Valéria Rezende desaprova.

_ Luciana, se eu me alongar, depois de todo o cansaço de um dia dedicado à reforma de minha casa e à administração de peões, acho que corro o risco de fazer uma postura da qual nunca mais vou conseguir sair. Talvez eu prefira fumar um cigarro.

Viviane, sentada ao lado da irmã, sugere:

_ Eu também acho que prefiro outra coisa. Se vocês quiserem, eu trouxe uma cesta repleta de potes de mousse de chocolate. Seriam para Ela, mas acho que eu comprei uma quantidade exagerada.

_ Pois eu topo a Yoga. - exalta-se Carlos Cartaxo - Será uma excelente oportunidade para a obtenção de novas técnicas que passarei a meu alunos que estão se preparando para encenar uma polêmica peça pseudocontemporânea de cunho socio-filosófico.

André Dias, alheio a tudo e a todos, rabisca um pequeno bloco.

Curioso, Alfredo investiga:

_ Resolveu escrever um conto justamente aqui e a essa hora?

_ Não. É que estou fazendo resenhas dos filmes que comprei daquela locadora de DVDs que fechou recentemente as portas. Vendi meu carro para comprar todo o acervo e agora me comprometi a ver um filme por dia. Hoje de manhã assisti àquele péssimo fime "A dama da água" e agora estou escrevendo sobre ele.

_ Pessoal, - intervém André - estou percebendo uma movimentação na água. Penso que será agora.

Bolhas de sabão sobem das águas escuras de Cabo Branco. Na área da turbulência podem ser vistos sacos plásticos e embalagens de biscoito revirados pela água e expelidos em direção à praia. Dos fones de ouvido de Emerson brota uma música estranha que serve como música de fundo para o espetáculo. Lentamente emerge uma grande bolha que traz dentro de si uma mulher.

Ninguém se assusta. Todos a esperam ansiosos.

Dessa vez Ela está diferente. Sua nudez, antes coberta por plantas aquáticas, agora está explícita. Seu rosto parece mais triste. Ela caminha lentamente até o grupo e senta-se na areia, no centro da roda. Em silêncio, olha para cada um e sorri. Depois espera que, um por um, todos venham até Ela com o presente. Recebe livros de poemas, filmes antigos, uma garrafa de aguardente, enfeites femininos, uma camisa do Sport Club de Recife, uma câmara fotográfica sub-aquática e uma pequena escultura em metal de um jabuti. Em troca, oferece conchas dos mais variados tipos, cada uma com uma pequena pérola embutida. Ao final do ritual Ela se levanta e, para a surpresa de todos, começa a falar.

_ Essa será a última vez que nos veremos. Meu noivo foi morto em Moçambique, na guerra civil e, por isso, estou agora livre de sua maldição. A aliança com a qual ele me presenteou não está mais dentro de mim.

Ao dizer isso, Ela mostra a palma da mão direita. O pequeno aro de metal brilha intensamente e ofusca todos por um momento. Ela deposita o anel na areia e diz:

_ Agora estou livre para amar novamente.

O brilho aumenta. Envolve todos numa cegueira branca. O som dos fones aumenta até um nível insuportável.

Então tudo cessa.

Ela já não está mais lá. O anel despareceu. Tudo, aparentemente, volta à sua calma primordial.

Todos se levantam, como recém acordados de um sono profundo, povoado de sonhos. Caminham em silêncio para longe da praia. Juntam-se novamente, no calçadão, para se despedir. Só então percebem que André Aguiar não voltou.



Alfredo Albuquerque


Lua Nova



"Parecia que eu estava presa em um daqueles pesadelos apavorantes em que você precisa correr, correr até os pulmões explodirem, mas não consegue fazer com que seu corpo se mexa com rapidez sufi ciente. Minhas pernas pareciam se mover com uma lentidão cada vez maior à medida que eu lutava para atravessar a multidão insensível, mas os ponteiros do enorme relógio da torre não eram lentos. Com uma força implacável, eles se aproximavam inexoravelmente do fim — do fim de tudo.Mas isso não era um sonho, e, ao contrário do pesadelo, eu não estava correndo para salvar a minha vida; eu corria para salvar algo infinitamente mais precioso. Hoje minha própria vida pouco significava para mim.
Alice dissera que havia uma boa possibilidade de que morrêssemos ali. Talvez fosse diferente se ela não estivesse na armadilha que era a luz do sol intensa; só eu estava livre para correr por aquela praça cintilante e abarrotada.E eu não conseguia correr com rapidez suficiente.Então não me importava que estivéssemos cercados de inimigos extraordinariamente perigosos. À medida que o relógio começava a soar a hora, vibrando sob a sola de meus pés lentos, eu sabia que era tarde demais para mim — e fiquei feliz que alguma coisa sedenta de sangue esperasse nos bastidores.Pois, falhando nisso, eu perderia qualquer desejo de viver.O relógio soou novamente e o sol incidia exatamente do meio do céu".


"Eu tinha noventa e nove por cento de certeza de que estava sonhando.Os motivos para minha certeza eram que, primeiro, eu estava de pé em um raio brilhante de sol — o sol claro e ofuscante que nunca luzia em minha nova cidade chuvosa, Forks, no estado de Washington — e, segundo, eu olhava minha avó Marie. Vovó morrera havia seis anos, então era uma prova concreta da teoria do sonho.Minha avó não mudara muito; seu rosto estava exatamente igual ao que eu lembrava. A pele era macia e murcha, dobrando-se em centenas de pequenas rugas que pendiam delicadas. Como um damasco seco, mas com uma nuvem de cabelo branco e espesso se destacando em volta dele. Nossas bocas — a dela com rugas ressecadas — se estendiam no mesmo meio sorriso de surpresa, exatamente ao mesmo tempo.
Aparentemente, ela também não esperava me ver.Eu estava prestes a lhe fazer uma pergunta; tinha tantas — O que ela estava fa zendo ali, no meu sonho? O que ela andara fazendo nos últimos seis anos? Vovô estava bem, e eles se encontraram, onde quer que estivessem? —, mas ela abriu a boca quando tentei falar, então parei para permitir que ela falasse primeiro. Ela fez uma pausa também e depois nós duas sorrimos com o pequeno embaraço."Bella?"Não era vovó que chamava meu nome, e nós duas nos viramos para ver quem se unira a nossa reuniãozinha. Não precisava olhar para saber quem era; aquela era uma voz que eu reconheceria em qualquer lugar — reconheceria e reagiria a ela, quer estivesse acordada ou dormindo... Ou até morta, posso apostar. A voz pela qual eu pisaria em brasas — ou, sendo menos dramática, pela qual eu chapinharia na lama em cada dia de chuva fria e interminável.

Edward.

Embora eu sempre fi casse emocionada ao vê-lo — consciente ou não —, e embora eu quase tivesse certeza de que era um sonho, entrei em pânico enquanto Edward se dirigia a nós sob o sol reluzente. Entrei em pânico porque vovó não sabia que eu estava apaixonada por um vampiro — ninguém sabia disso —, então, como eu explicaria o fato de que os feixes brilhantes de sol se dividiam em sua pele em mil fragmentos de arco-íris, como se ele fosse feito de cristal ou diamante?Bom, vó, deve ter percebido que meu namorado brilha. É só uma coisa que ele faz no sol. Não se preocupe com isso...
O que ele estava fazendo? O motivo para ele morar em Forks, o lugar mais chuvoso do mundo, era que podia fi car ao ar livre durante o dia sem revelar o segredo de sua família. E no entanto ali estava ele, andando elegantemente em minha direção — com o sorriso mais lindo em seu rosto de anjo, como se eu fosse a única presente.Nesse segundo, desejei não ser a única exceção a seu misterioso talento; em geral eu me sentia grata por ser a única pessoa cujos pensamentos ele não podia ouvir com clareza, como se fossem pronunciados em voz alta. Mas agora eu queria que ele fosse capaz de me ouvir também, assim poderia escutar o alerta que eu gritava em minha cabeça.Lancei um olhar de pânico para minha avó e vi que era tarde demais. Ela estava se virando para olhar para mim de novo, os olhos tão alarmados quanto os meus.Edward — ainda sorrindo daquele jeito tão lindo que fazia meu coração parecer inchar e explodir no peito — pôs o braço em meu ombro e virou-se para olhar minha avó.A expressão de vovó me surpreendeu. Em vez de parecer apavorada, ela me olhava timidamente, como se esperasse por uma repreensão. E ela estava de pé numa posição tão estranha — um braço afastado canhestramente do corpo, esticado e, depois, envolvendo o ar. Como se estivesse abraçando alguém que eu não podia ver, alguém invisível...
Só então, enquanto eu olhava o quadro como um todo, foi que percebi aenorme moldura dourada que cercava as feições de minha avó. Sem compreender, levantei a mão que não estava na cintura de Edward e a estendi para tocá- la. Ela imitou o movimento com exatidão, espelhando-o. Mas onde nossos dedos deveriam se encontrar não havia nada, a não ser o vidro frio...Com um sobressalto vertiginoso, meu sonho tornou-se abruptamente um pesadelo.Não havia vovó alguma.Aquela era eu. Eu em um espelho. Eu — anciã, enrugada e murcha.Edward estava a meu lado, sem refl exo, lindo de morrer e com 17 anos para sempre.Ele apertou os lábios perfeitos e gelados em meu rosto desgastado.
— Feliz aniversário — sussurrou.
Acordei assustada — minhas pálpebras se arregalando — e arfante.




A luz cinzenta e embaçada, a familiar luz de uma manhã nublada, tomou o lugar do sol ofuscante de meu sonho.Um sonho, disse a mim mesma. Foi só um sonho. Respirei fundo e pulei novamente quando meu despertador tocou. O pequeno calendário no canto do mostrador do relógio me informou que era dia 13 de setembro.Um sonho, mas pelo menos, de certo modo, bastante profético. Era o dia do meu aniversário. Eu tinha ofi cialmente 18 anos.Durante meses, tive pavor desse dia.Por todo o verão perfeito — o verão mais feliz que tive na vida, o verão mais feliz que qualquer um em qualquer lugar teria e o verão mais chuvoso da história da península de Olympic — essa triste data fi cou de tocaia, esperandopara saltar sobre mim. E, agora que chegara, era ainda pior do que eu temia. Eu podia sentir — eu estava mais velha. A cada dia eu fi cava mais velha, mas isto era diferente, era pior, quantifi cável. Eu tinha 18 anos.E Edward jamais teria essa idade.
Quando fui escovar os dentes, quase me surpreendi com o fato de que o rosto no espelho não mudara. Olhei para mim mesma, procurando por algum sinal de rugas iminentes em minha pele de marfim. Mas os únicos vincos eram os da minha testa, e eu sabia que, se conseguisse relaxar, eles desapareceriam. Não consegui. Minhas sobrancelhas se alojaram em uma linha de preocupação acima de meus angustiados olhos castanhos.Foi só um sonho, lembrei a mim mesma de novo. Só um sonho... Mas também meu pior pesadelo.Não tomei o café-da-manhã, com pressa para sair de casa o mais rápido possível. Não fui inteiramente capaz de evitar meu pai e tive de passar alguns minutos fingindo-me animada. Tentei fi car empolgada de verdade com os presentes que eu pedira para ele não comprar para mim, mas sempre que eu tinha de sorrir, parecia que podia começar a chorar.Lutei para me controlar enquanto dirigia para a escola. A visão de minha avó — eu não pensava nela como eu mesma — não saía de minha cabeça.

Só o que consegui sentir foi desespero, até que parei no estacionamento conhecido atrás da Forks High School e vi Edward curvado e imóvel sobre seu Volvo prata polido, como um monumento de mármore em homenagem a algum esquecido deus pagão da beleza. O sonho não lhe fizera justiça. E ele esperava ali por mim, exatamente como nos outros dias.O desespero desapareceu por um momento, substituído pela admiração. Mesmo depois de meio ano com ele, eu ainda não acreditava que merecia tanta sorte.Sua irmã, Alice, estava a seu lado, também esperando por mim.É claro que Edward e Alice não eram de fato parentes (em Forks, corria a história de que todos os irmãos Cullen tinham sido adotados pelo Dr. Carlisle Cullen e sua esposa, Esme, os dois indiscutivelmente novos demais para ter filhos adolescentes), mas sua pele tinha exatamente a mesma palidez, os olhos tinham o mesmo tom dourado, com as mesmas olheiras fundas, como hematomas.
O rosto de Alice, como o dele, era de uma beleza incrível. Para alguém que sabia — alguém como eu —, essas semelhanças representavam a marca do que eles eram.A visão de Alice esperando ali — seus olhos caramelo brilhantes de empolgação e um pequeno embrulho prateado nas mãos — deixou-me carrancuda.Eu disse a Alice que não queria nada, nada mesmo, nenhum presente, nem mesmo alguma atenção pelo aniversário. Obviamente, meus desejos estavam sendo ignorados.Bati a porta de minha picape Chevy 53 — uma chuva de ferrugem caiu do teto molhado — e andei devagar na direção deles.

Alice pulou à frente para me receber, a cara de fada reluzente sob o cabelo preto e desfiado.

— Feliz aniversário, Bella!

— Shhh! — sibilei, olhando o estacionamento para me certificar de que ninguém a ouvira.

A última coisa que eu queria era uma espécie de comemoração do melancólico evento.Ela me ignorou.

— Quer abrir seu presente agora ou depois? — perguntou ansiosamente enquanto seguíamos para onde Edward ainda esperava.

— Nada de presentes — protestei num murmúrio.

Ela por fim pareceu entender meu estado de espírito.

— Tudo bem... Mais tarde, então. Gostou do álbum que sua mãe mandou para você? E a câmera de Charlie?

Suspirei. É claro que ela saberia quais eram meus presentes de aniversário. Edward não era o único membro da família com habilidades in comuns. Alice teria "visto" o que meus pais planejavam assim que eles tomaram a decisão.

— É. São ótimos.

— Eu acho que é uma ótima idéia. Só se chega ao último ano da escola uma vez. Pode muito bem documentar a experiência.

— Quantas vezes você fez o último ano?

— Isso é diferente".


Trecho do Livro "Lua Nova" de Stephenie Meyer.

Inomináveis Criaturas

Por Bruno Resende Ramos


Phillipe Carter no inverno de 2010 visitara o Farol de Grierdal na Ilha Stornoway na Escócia. Isso se deve a existência de um baú mantido por seu avô e suas inscrições. Para Carter, que desde criança se via metido nas aventuras ficcionais e contos do avô, isso não passaria de mais uma das peças ilustrativas das suas histórias, por isso queria uma experiência real de contato com suas lembranças, era uma busca de inspiração, porém como pesquisador reconhecido pela comunidade científica não poderia ignorar que tudo deixava de ser uma mera coincidência para tornar-se uma grande evidência histórica: existiu num certo tempo, na América Latina, o que chamavam de "Parque dos monstros”.

A arca deixada pelo seu avô possuía um belo talhe em madeira e ferro e guardava uma pequena inscrição na tampa. No interior, máscaras de ferro e cerâmica insinuavam ao seu entender inicial que se tratava de elementos ritualísticos. O apegado avô recusava sempre destiná-los a pesquisa ou a museus. Ele os achara incrustados em meio às pedras onde está edificado o modesto farol. Era marinheiro e bom prosador, uma raposa dos mares. Reuniu arca e máscaras e os depositou em seu sótão.

Hoje de volta às Américas percebia se tratar de um achado arqueológico de incalculável valor histórico.

Certo dia, depois de ser tomado por grande tédio, vendo suas pesquisas não darem em nada, Phillipe Carter resolveu distrair-se com suas lembranças. Ao passar uma folha sobre as dobras do relevo na arca, teve a idéia de com uma grafite transferir o desenho para o papel e enviou por e-mail a uma amiga estrangeira o resultado da impressão. Ela parecia uma bela espécime latina. Constatou-se para sua surpresa que aquelas impressões eram de um dialeto INCA. Sua amiga cujo nome era Ana Montserrat tomou dos signos lingüísticos para maiores estudos, o que era uma brincadeira ficava cada vez mais intrigante.

Ana contou-lhe a lendária história do Parque dos Monstros e mostrou que a arca era mais do que um objeto de encenação Inca, ou ritualismo religioso. As máscaras e a arca datadas da mesma época que foram produzidas inscrições em uma lápide da realeza revelavam grande verossimilhança com a história narrada pelos Incas em seus portais e palácios.

A senhorita Montserrat enviou traduzidas as expressões e lendas deste período ao jovem Phillipe e esses trouxeram à luz acontecimentos que podem ajudar-nos a construir a história do planeta.

As mudanças climáticas afetavam as civilizações daquela época. Numa avaliação feita a base de Carbono 14, os especialistas consideravam a sua confecção coincidentemente simultâneas as alterações do clima na mesopotâmia, especificamente no Egito. Atingidos por uma praga descomunal e doenças típicas do clima a que se viam submetidos, boa parte da população teve a face deformada. O culto à beleza e a imposição da realeza a este atributo para agradar aos deuses fazia-os crer amaldiçoados.

Como no Egito, também entre os Incas verificavam-se as mazelas do seu povo. Do mesmo modo havia partidários e opositores ao regime. Em seus relatos a perda da produção agrícola por infestação de insetos, escassez e inutilidade da água, bem como erupções e úlceras no corpo das gentes. As máscaras serviriam para ocultar dos deuses a face corrompida pelas moléstias do tempo.

Na Itália a explosão do Vulcão Santorini, ali o Deus Sol castigava-os promovendo desgraça incomum à população. Ofereceram sacrifícios humanos. Por incrível que parecesse, ofereciam justamente os saudáveis, as virgens, aqueles que não se haviam contaminado com as doenças venérias, o pecado. Restaram nesta aldeia apenas os chamados Inomináveis. Para a cultura do povo remanescente "os monstros".

Sobreviveram enquanto conseguiram carne fresca, imaculada e o seu rei manteve sua realeza. Os fugitivos e dissidentes de tal ordem convenceram outros do povo a segui-los e fugiram do abate criminoso feito pelos inomináveis monstros Incas. Muitos ainda eram alcançados pelos subalternos do rei. A doença lhes caíra como benção, alcançando o favor de estarem vivos enquanto tinham ainda alguma esperança de sobrevivência e cura, contudo, os deuses não lhes respondiam. Certos da recusa de tantos sacrifícios acabaram por matar uns aos outros.

Para Ana representante da Sociedade para a Ciência e Cultura Inca da América Latina (SCIAL), era uma revelação inconsciente do que acreditava. Não haveria como ocultar toda a história de seu povo.

— Esse rapaz tem algo para nos dizer. - Informou ao conselho.

— Acalme-se, Ana. O que saberia esse mísero defensor dos gibis de ficção científica que não fuja aos nossos domínios? - Indagou o presidente Sr. José R. Prado.

—Esse rapaz a quem você tanto subestima detém conhecimentos fartos sobre a fenomenologia climática de todas as eras, é um expert. Só não fez ainda a constatação de que tudo se ensaia para uma nova ordem internacional de domínio Inca, porque não teve tempo. Seu avô contou-lhe boa parte de nossa história.

— Ele sabe que existimos?

— Acha-nos extintos.

— Temos de criar um novo parque, você sabe disso...

— Mais vítimas?

— Quantas forem necessárias... Começaremos pela família desse novo herege.

— Que o deus Sol nos proteja!

— Assim seja!

— Como faço para atraí-lo ao Fosso dos Inomináveis?— Você sabe como... Estaremos todos a sua espera... De máscara, é claro!... Outra coisa: não o deixe tocar seu rosto. O mundo ainda não sabe o que a tecnologia é capaz de fazer por nós... Você pode, por um toque, querida Lady, ser desmascarada e por tudo a perder...

— E o que faço se não resistir?

— Você sabe... Todo inominável sabe... O que eles fazem com o que desconhecem?

— Sim, eu sei. Ele é um cientista... Eu sei o que ele faz...

— Então faça o mesmo com ele... Será para nós uma grande fonte de estudo e para o Sol uma fonte de grande deleite... Ahahahahahaaha.

A partir da descoberta da arca, Phillipe encontrara a maior razão de seu viver, talvez também encontre a razão de sua morte. O seu avô escreveu para o "Contos das Almas" a história que lhe contava todas as noites, lembrando que a moral da história será sempre a de que a verdade se impõe a arte humana de enganar. "Nem tudo que reluz é ouro, meu filho. Os monstros estão dentro do homem querendo sair... Quando cede à vaidade, ao orgulho, a prepotência, à promiscuidade, ele encontra sempre uma forma de parecer bom... Usa máscaras para esconder o seu interior, mas sabe-se que tudo isso é vão para o verdadeiro Sol, Aquele que tudo vê. Você, eu vejo agora sem nenhuma máscara, transparente feito um cristal genuíno... Sim, posso ver dentro de você o mais belo coração".


Bruno R. Ramos

2006/2007© Contos das Almas - Copyright 2006/2007 - All rights reserved

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Este escrito é realmente insólito.
O autor, Bruno Resende, nos prende com uma ótima narrativa em um estilo que mescla leveza e suspense, o que me levou a prestar esta homenagem.
A leitura é de fácil manejo, e flui com facilidade, enquanto nos faz analisar a verdade por trás de cada máscara que, querendo ou não, usamos para esconder o nosso interior. Curiosamente, há pessoas muito belas por fora, mas por trás de todo enfeite, suas inomináveis criaturas dão gargalhadas sinistras...

Fênix Basthos