Escuridão


Sena tem um jeito peculiar de acordar as pessoas. Ele as cutuca. De leve. Mas acho que se esquece que o que se aplica às pessoas normais não se aplica para ele. Os cutucões que ele deu em meu ombro naquela terça-feira pareceram socos de pugilista. Meus olhos se abriram. Apareceu o porta-luvas, o rádio, o vidro embaçado do carro. E o homem de dois metros de altura ao meu lado, empenhado em sua missão de deslocar meu ombro.
- Ei, já acordei – disse eu, quando julguei já ter apanhado o suficiente.
A enorme mão parou de me “cutucar” e apontou para algo fora do carro. Era para lá, também, que o olhar de Sena se dirigia.
- Ela está ali – anunciou solenemente.
Sim, era verdade. Alana Lopes estava do outro lado da rua, trocando um beijo de novela das oito com um cara que não conseguíamos ver o rosto. Sena e eu observamos tudo em um silêncio que não refletia nosso júbilo. Eu queria pular e dar socos no ar de alegria. Mas ainda assim permanecemos em silêncio, como que para dar ao momento maior significado.
Desaparecida há mais de duas semanas. Meu caso mais demorado desde que comecei a trabalhar com Sena. Um sem número de pistas falsas, becos sem saída, amigos que não sabiam de nada, familiares calados.
Até que, enfim, surgiu alguém com ódio o suficiente para abrir o bico. Uma das garotas do círculo de amizades de Alana, que perdera o namorado para a jovem desaparecida. O cara vivia num prédio caindo aos pedaços em Ponta D’areia, bairro próximo ao centro da cidade.
Quatro horas de campana. E lá, finalmente, estava ela.
Uma salva de tiros seria apropriada.
O beijo continuava. Último capítulo da novela, mocinho e mocinha livres dos ardis da vilã, vivendo felizes para sempre.
Quando as bocas se separaram, os dois trocaram algumas palavras. Depois mais um beijinho, e ele entrou no prédio. Ela seguiu reto pela calçada, mãos nos bolsos da jaqueta.
- Robson.
- Já sei. Deixa comigo.
Saltei do carro no momento em que ela virava na esquina. Bati a porta, me afastei.
As ruas tinham adquirido aquele aspecto melancólico característico dos dias de chuva. Poças de todos os tamanhos acumulavam-se contra o meio-fio. Soprava um vento gélido, cortante. Primavera em Niterói.
Segui-a a uma distância segura, passos lentos, água entrando nos tênis, mãos abrigadas nos bolsos, vento balançando os cabelos, sopro gelado no peito. O casaco vencido. O corpo arrepiado.
Alana caminhava como uma princesa, parecendo mal tocar o chão. Botas pretas, calça jeans de marca, jaqueta de couro. Cinco ou seis pescoços masculinos quase quebraram só para vê-la passar, olhos brilhando numa ambição natural. Ela não olhava para os lados, para as pessoas, para nada a sua volta. Só para frente.
Fiquei me perguntando por que ela havia abandonado o berço de ouro onde nascera para se enfurnar naquele prédio que mais parecia um cortiço do século XVIII. Cansada da vida de luxo? Querendo independência, viver sua vida sem a interferência dos pais? Como alguém criada para ser uma dondoca escapa disso?
Ela entrou num mercadinho logo na beirada da Avenida Feliciano Sodré. Ambiente pequeno, sujo, prateleiras empoeiradas exibindo produtos à preços paradoxalmente mais altos do que os dos grandes supermercados. Me abriguei a duas prateleiras de distância. Via seu rosto abaixado, enquanto escolhia o que levar. Sem prestar atenção em nada mais.
Mais alguns minutos lá dentro. Foi até o caixa levando alguns quilos de arroz, feijão, macarrão e outros mantimentos. Pagou no cartão. Saiu apressada, como se o lugar a estivesse causando náuseas. Dei um tempinho, comprei um biscoito recheado e prossegui atrás dela. Que produtivo. Ela voltou para o mesmo lugar. Entrou no moquifo carregando suas compras, não sem antes respirar fundo, lançando um olhar de ódio contido aos umbrais da porta velha e descascada.
Voltei para o carro.
- Ela só foi ao mercado – anunciei.
Sena olhou para mim.
- O que fazemos agora? – perguntou.
- Contamos ao pai que a encontramos. E aguardamos novas instruções dele. – Detestava aquelas perguntas, mas meu salário vinha dele, que as fazia. Melhor não comentar.
- Certo. – Olhou para o prédio em petição de miséria, os olhos verdes semicerrados de admiração. – O que será que essa garota está fazendo aí?
Sena conversou com o pai de Alana naquele mesmo dia, e ele nos mandou continuar a observá-la. Eu fiquei no carro, de campana. Detesto campanas. Elas me dão sono. Meus olhos ficam pesados logo nos primeiros minutos. Sena diz que o bom detetive consegue condicionar seu próprio corpo. Sena diz muitas coisas.
Ele voltou a se juntar a mim horas mais tarde. Nada tinha acontecido. Alana Lopes e seu namorado continuavam em seu ninho de amor. Ligou para casa e comunicou a esposa Lia que chegaria bem tarde. Já tinha conseguido alguém para ficar ali durante a madrugada. Tive pena do infeliz.
Tarde da noite, em casa, deitado na cama com três pesados lençóis em cima de mim, pensei em Alana Lopes.
Linda. Uma princesa. Criada num palácio.
Vivendo com plebeus.
Não fazia sentido.
Eu não sou detetive experiente nem sei se um dia vou ser. Estou nessa porque Sena me garantiu que poderia fazer uma grana. E quero essa grana. Todo cara de dezenove anos desse planeta quer grana. Sou só mais um na multidão.
Não sei se um dia vou ser realmente bom nessa coisa de investigar. Sena me acompanha quase sempre, mostrando como as coisas devem ser feitas. Ele é o detetive de verdade. Quinze anos de Polícia Civil, mais quase sete como particular o ajudaram a desenvolver uma astúcia fora do comum. Eu só olho e tento absorver o que puder.
Não tenho intuição, faro ou coisa assim.
Mas algo – algo que me manteve acordado por parte da noite, ouvindo o som do vento lá fora, açoitando a casa – me dizia que havia algo de estranho acontecendo com Alana Lopes.
E meus olhos só se fecharam quando admiti para mim mesmo que provavelmente não ia gostar de descobrir o que era.
Dia seguinte, nove horas, novamente em Ponta D’areia. O amigo de Sena, Nonato, havia estacionado mais a frente, no fim da rua, para não dar na vista. Chovia fraquinho, e as pessoas passavam com guarda-chuvas armados, pés marchando e fazendo a água das poças espirrar para os lados.
- Ela e o namorado não saíram – anunciou Nonato. Parecia bem desperto. Quando eu e Sena estávamos novamente no carro, vi por que: havia uma pequena garrafa térmica sobre o painel. Boa idéia, parecia funcionar.
Nós nos acomodamos para esperar. Aquilo era um saco. Eu queria estar fazendo outra coisa. Engraçado, uma hora lá dentro e eu ainda não caíra no sono. O bom detetive consegue condicionar o próprio corpo.
- O que você acha que eles estão fazendo lá? – perguntei, incomodado pelo silêncio.
- Desde quando você é tão inocente? – disse ele à guisa de resposta.
- Você me entendeu.
Em ocasiões assim, Sena tende a dar uma de engraçadinho. O pior é que ele se acha mesmo engraçado.
- Não se pode ficar conjecturando ainda. Mal descobrimos a garota aqui. Vamos esperar.
Esperar era o que eu não queria. A visão do carro já estava me deixando enjoado, o mesmo painel, volante e tudo o mais. Não agüentava mais ficar com o traseiro parado na droga do banco. Respirei fundo. O bom detetive consegue... ora, que fosse pro inferno.
- Eu vou sair – falei.
- Pra onde? – perguntou Sena. Não parecia surpreso. Pouca coisa o surpreende.
- Vou conversar novamente com a Nádia. – Nádia era o nome da amiga de Alana. A que nos contara sobre ela e seu namorado.
Sena olhava para mim com interesse.
- Entendo. E sobre o que vocês vão conversar, exatamente?
Olhei pela janela enquanto pensava.
- Sei lá. Me parece melhor do que ficar aqui sem fazer nada.
- O que te deu pra querer falar com a garota de novo, Robson? Diga.
- Eu... – minha voz sumiu porque eu sabia que a resposta ia soar estúpida. Pensei em formas de fazê-la parecer mais madura e refletida, mas não tem como fazer um “Sabe, eu não consegui dormir direito ontem à noite pensando sobre isso. Acho que há um mistério obscuro por trás dessa história, e eu vou desvendá-lo a todo custo!” soar ajuizado.
Sena observava a porta do prédio, mas eu sabia que ainda queria uma resposta.
- Eu tenho a impressão que ela vai fazer alguma coisa – falei.
- Verdade?
- Não se desiste de tudo assim. Principalmente se você mora numa casa com mais quartos que um orfanato e tem uma conta corrente com mais zeros do que é capaz de contar.
- Tem razão. – Ainda sem se virar para mim. – Tudo bem. Vá atrás da sua resposta.
- Sério? – Fora fácil demais.
É claro. – Olhou para mim, sorrindo. – Se é o que seu instinto te diz, corra.
Nádia estava em casa. Morava num apartamento espaçoso no Ingá, pequeno bairro próximo ao centro. Os ônibus passavam fazendo pular a água nas calçadas. Tomei dois banhos. A água estava tão gelada quanto o vento. Na entrada do prédio, meus dentes batiam forte.
Ela atendeu meu telefonema e apareceu na portaria. Cabelos curtos em desalinho, olhos negros, casaco pesado. Pele branca se destacando no frio. Palidez natural. Bonita. Não entrei, estava ensopado. Ela saiu e parou na minha frente com os braços cruzados.
- Olá.
- Achou ela?
- Alana está com Marcos.
- Eu sabia. Vaca.
- Tem alguma idéia de porque ela está com seu namorado?
Testa franzida. A resposta devia ser óbvia, e eu um idiota.
- Ela é uma vaca, oras. – Como se aquilo explicasse tudo.
- Alguém como ela não sai de casa para se enfiar naquele pardieiro. Você sairia?
Ela fez que não.
- Como é Alana, na sua opinião?
Ela olhou em volta, sentindo frio, achando aquela conversa toda sem sentido, querendo voltar para casa.
- Ela é metida, ok? Nojenta ao extremo, sempre quer se dar bem em tudo.
Muitos dos ditos amigos de Alana me haviam contado o mesmo, com a diferença de alguns poucos adjetivos. Gananciosa, mal-intencionada, chata, esnobe.
Era justamente aquilo que não entrava na minha cabeça. Como alguém assim sai de seu apartamento luxuoso e vai morar numa piscina de sujeira?
- Seu namorado...
- Ele não é mais meu namorado.
-...tem alguma coisa que pudesse interessar a Alana?
Nádia ficou pensativa. Olhar baixo, analisando possibilidade, lembranças. Braços ainda cruzados, defensiva.
- Qualquer coisa – insisti.
- Ele... – parou, incerta. – Ele já foi preso, sabe?
Eu não sabia.
- Assaltou uma casa com alguns amigos. Só que não conseguiram provar nada e ele foi solto. Os outros dois foram em cana.
- E ele ficou com o dinheiro – completei. Ela assentiu.
- Mas ele já gastou tudo, de qualquer forma. Quer dizer... Eu acho.
- Obrigado, Nádia.
- Isso não vai me causar problemas, vai?
Eu garanti que não, enquanto me afastava.
Saí em disparada contra o vento. Eu literalmente voava de volta à Ponta D’areia.
No meio do caminho, porém, uma vibração do bolso da calça me fez parar. Era Sena no celular.
- O casal vinte saiu de carro – noticiou ele. – Estamos na rua que leva à Praia das Flechas.
A Presidente Pedreira. Tinham passado por mim e eu não vira.
- Sena, você sabe se os pais dela estão em casa? – A família Lopes residia num apartamento em frente à praia.
- Bem, com certeza não. Os dois trabalham. Ontem eu tive que ir encontrá-lo no trabalho, inclusive. Mas por que...
- Eles vão assaltar o apartamento.
Silêncio.
- Como sabe disso?
- O tal do Marcos já foi indiciado por roubo. É por isso que ela está com ele, Sena. Alana precisa dele para roubar a casa.
Mais silêncio. Sons de tráfego. De respiração.
- Vou ligar para o Mário. Corra pra cá.
Eu corri.
Vento bagunçado o cabelo, pessoas olhando admiradas, água esguichada pelos carros. Fria. Muito fria.
Mar revolto, ondas agitadas. Minhas passadas soando, altas, na calçada. Alguns malucos com roupas leves correndo por esporte. A chuva apertou. Gotas contra meus olhos. O prédio de fachada envidraçada apontando a minha frente. Entre aqui, amigão.
Uma senhora estava saindo. Eu segurei o portão e entrei. Jardinzinho, portaria, porteiro nervoso, gritando palavrões. Ia chamar a polícia, o caramba. Qual era mesmo o andar? O nono. Melhor não esperar o elevador. As escadas, então.
Subindo de dez em dez degraus. Respirando rápido, sem me dar conta do ar. Ecos de passos. Sexto andar, sétimo, oitavo...
Uma enorme mão de pedra segurou meu braço e tampou minha boca. Olhos verdes brilhando no escuro. A voz era um sussurro arrepiante.
- Você fica aqui. Eu assumo, agora.
- Nem vem. – Não me importava que tivesse seus dois metros e braços grandes o suficiente para tirar a Terra da órbita. Eu queria participar daquilo.
- Cala a boca. Você fica aqui. Mário está chegando. Já fez um bom trabalho. Agora eu assumo.
- Mas...
Ele saiu para o corredor. Eram apenas dois apartamentos por andar. A luz incidiu sobre seu corpo, e refletiu rapidamente no cano da arma em sua cintura. Sena só usava a arma em caso de extrema necessidade. Como aquele.
Ele desapareceu no corredor. Eu mal conseguia me mexer. Estava com medo. Com um baita cagaço. Fechei os olhos, respirei. O bom detetive consegue condicionar seu corpo. Parei de tremer. Caminhei um pouco, estiquei a cabeça. A porta do apartamento 902 estava aberta. Vi uma sombra se afastando mais para dentro.
Agucei os ouvidos. Vozes abafadas. “Você não consegue abrir?!”. Alana. Irritada. “É difícil, cacete!”. Marcos. Exasperado.
Aproximei-me mais. Sena ia me matar, mas todo mundo morre um dia.
- Merda, eles trocaram o cofre! – Alana. Possessa.
- Quietos. Ninguém se mexe. – Sena.
- Quem é você?! – Alana. Sobressaltada.
Meu pescoço contornou a parede. Do outro lado da grande sala, meu chefe estava parado na frente de uma porta. Arma apontada. Semblante duro. Calculei que fosse um quarto, mas uma parede me impedia de ver.
- Ei, cara, a gente...
- Saiam. Os dois. Agora. – Sem admitir retórica.
Sena chegou para trás. Os dois deviam estar caminhando em sua direção. Era o que seus olhos diziam. A arma apontava para baixo. Tudo finalmente tinha acabado.
Ou não.
O corpo de Marcos atingiu Sena, desequilibrando-o. Numa fração de segundo, Alana Lopes surgiu no limiar da
porta, enquanto meu chefe e seu namorado despencavam.
A arma disparou para o alto. Bum.
Ela correu. Queria escapar. Era o que seus olhos diziam. Seu plano tinha fracassado.
Seu semblante encontrou o meu. Não parou, ao contrário, veio com mais gana. Mais raiva.
Fechei o punho. Meu braço de ergueu até a altura da cabeça e se projetou a frente.
Acertei Alana Lopes no meio do nariz. Sua cabeça pendeu para trás, e em um segundo e meio acertou o chão.
Bum.
- NINGUÉM SE MEXE! – trovejou Sena. Já estava de pé. Marcos jogado num canto.
Alana olhou para mim e depois para Sena. A cólera transformava seu belo rosto em algo indescritível. Feio de se ver.
Seus olhos tinham perdido toda a luz. Restava apenas escuridão.
Meu peito requeria mais ar do que de costume. Olhei para Sena, ele para mim. “Bom trabalho, garoto”, balbuciou.
A face de Alana Lopes ainda vem me assombrar. Estou sujeito a isso, sou muito novo. Sena diz que isso passa.
Acredito nele.
Nas ocasiões em que seu rosto aparece em minha mente, distorcido e feio, penso na maldade do homem. Na ganância. No desejo incontrolável e insaciável por mais.
E o sono me custa a vir.


Josué de Oliveira

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