O Indulto e o Prisioneiro




O cárcere priva o homem de elementos imprescindíveis à sua existência, detalhes do vai-vem da vida antes ignorados, como o ar, a luz do sol e até mesmo o caminhar.


Ali, na cadeia, imprescindível para uns, os considerados fortes, é a posse de telefones celulares, contrabandeados para dentro dos presídios com a conivência do próprio sistema de segurança. Imprescindível para outros, os fracos, é o fim da tortura, do abuso de poder, dos espancamentos e melhoria da assistência judiciária gratuita.


Na manhã anterior ao natal, do lado de fora das grades e do presídio, Luiz contempla a luz do sol de uma maneira diferente. Parece apreciar mais aquele espetáculo matinal, olha para o céu azul, enche o peito de ar e chega a pensar se realmente existiria um deus.


Ele, assim como cerca de 160 mil presos em todo o país, deixa a penitenciária no dia 24 para passar o natal com a família. Não imagina como será aparecer em casa, de mãos abanando, parecendo mais um mendigo que um pai de família. Apesar de tudo, está contente por ter alcançado o indulto por bom comportamento. Havia prometido para a mãe, velha e sofrida, e para a esposa, guerreira e cansada, que não voltaria mais para a cadeia depois que cumprisse sua pena. Mesmo assim, nunca recebera visitas.


A caminho de casa, um desalento imenso cai sobre Luiz. Sente-se desventurado, desgraçado, infeliz. É véspera de natal e ele não tem presentes para o seu filho, não tem dinheiro nem para pegar um ônibus. Nas mãos, apenas uma sacola plástica com uns pequenos pertences. Segue a pé para casa, por um caminho conhecido, vai andando e martelando idéias tortas na cabeça dura.


Pára em frente ao supermercado que um amigo seu já trabalhou por uns meses. Depois de alguns minutos, resolve entrar. Lá dentro, na seção de alimentos, olha para cima e depara com uma câmera, então lembra do comentário do amigo sobre a mesquinhez do patrão que nunca iria contratar alguém para monitorar as imagens do circuito interno de vídeo.


Nem deu por si, já foi pegando algumas coisas e enfiando na sacola. Um funcionário que fazia reposição se aproxima perguntando se ele precisa de ajuda. Ele responde que não, anda mais um pouco e se dirige para a saída. Atravessando a avenida, do meio da ilha, ouve vozes e passos no seu encalço, tenta manter a calma e pára. Os funcionários chegam perguntando sobre o cupom fiscal e Luiz diz que não lembrou de pedir, pedem para ele voltar ao supermercado para buscar o tal cupom.


Luiz, acuado e cabisbaixo, segue os dois até a entrada do supermercado. Pede um minuto dizendo que precisa dar um telefonema, deixa a sacola no chão da calçada e intenta uma corrida, na esperança de evadir-se do local.


Tentativa fracassada! Em segundos, é imobilizado enquanto os transeuntes observam a cena achando tudo muito normal. A viatura chega rápido. Luiz é preso em flagrante delito e encaminhado para a delegacia distrital.


Luiz não tem advogado, mas conhece alguns de seus direitos, como o de ficar calado, não tem mesmo muito o que falar, nem para ele próprio consegue explicar o que lhe passou pela cabeça. Pensa nas feições da mãe e da esposa se o vissem agora, nem pra bandido ele dava certo, murmurariam com certeza. Telefonema? Avisar quem e de quê, se ninguém sabia mesmo que ele passaria o natal em casa?


Enquanto Luiz murmura e lamenta suas mazelas, os dois policiais do plantão jogam outro preso na cela. O novato já chega perguntando qual era a bronca de Luiz, mas ele não está para conversa e pouco fala, só o suficiente para saber que o novo ocupante da cela, de alcunha Zezão, é barra pesada com uma ficha criminal quilométrica, tem um bom advogado, muito dinheiro e, segundo ele, companheiros que o tirariam dali. Ele acha tudo aquilo conversa fiada e tenta dormir.


À noite, Luiz ainda martela os últimos acontecimentos, pensa nas conseqüências dos seus atos, na punição com a regressão do regime e a suspensão de saídas temporárias durante o próximo ano. Tenta esquecer tudo aquilo por alguns instantes, encosta a cabeça na cama dura e tenta dormir enquanto sente no corpo respingos da chuva que cai lá fora e adentra a janela gradeada.


É alta madrugada quando Luiz acorda sobressaltado com o barulho da porta da cela abrindo. Ainda atordoado, não consegue entender direito o que está acontecendo, na penumbra só percebe que dois homens armados e com as camisas sobre as cabeças entraram na alcova. Em poucos segundos, os dois presos são praticamente arrastados de dentro da cela. Luiz acha estranho não ter uma alma viva na entrada da delegacia, os dois policiais do plantão simplesmente sumiram.


Lá fora, um carro preto com as portas abertas e com o motor ligado espera por eles. Seguem em alta velocidade e param a poucas quadras dali, fazem sinal para Luiz descer e, como ele não entende de imediato, empurram-no para fora do carro.


Caído no chão, inerte, sob a chuva forte, ele fica sem saber o que fazer. Procurar abrigo onde? Caminha sem presa no rumo de casa, não se importa com a chuva, quiçá as gotas lavassem seus pecados! Já na frente de casa, as luzes apagadas revelam a ausência de ceia, de papai Noel e de presentes. Sente vontade de bater na porta e entrar, mas acaba dormitando no frio do pequeno alpendre.


Os primeiros raios do sol mal apareceram, ele já tinha tomado a sua decisão. Segue o longo caminho de volta para a delegacia e se entrega espontaneamente. Quem sabe o próximo natal não será diferente? Ele não tem certeza, mas se dispõe a esperar.


Enquanto isso, do outro lado da cidade, um catador de papelão apanha uma sacola esquecida na calçada de um supermercado. Dentro ele encontra pães, biscoitos, iogurtes e até um panetone. Segue seu caminho sorrindo e agradecendo a Deus pelo alimento para seus filhos. Seria um bom natal, afinal.




By Marlene Bastos


Publicado originalmente no Overmundo

http://www.overmundo.com.br/banco/o-indulto-e-o-prisioneiro-1


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