O Menino e a Águia Encantada






O menino rabiscou o chão da praia com o dedo, suspirou com melancolia, como o vento que balaçava os seus cabelos...

Ele sempre ia pra praia quando estava triste, porque foi ali que ele a conheceu. Podia sentir o coração batendo forte enquanto pensava nela, e às vezes chorava lembrando...

Foi numa tarde como aquela que ele a viu pela primeira vez.

Recordava-se bem de sua imagem, ao chegar, voando linda com suas penas verde-esmeraldas e um olhar hipnotizante de olhos negros brilhantes. Era uma águia.

“- Oi menino. Queres brincar comigo?”

Ele estava impressionado com tanta beleza e por um momento ficou sem palavras, mas sentindo a suavidade de sua voz e uma amizade sincera, deixou-se envolver.

“- Quem és tu?”

O menino havia notado que suas penas eram diferentes, de um colorido estonteante e aquilo o fascinou.

“- Sou prima dos ventos, irmã do sol, venho de lugares distante.”

“- E o que procuras por aqui belo pássaro?”

“- Não sou um pássaro comum, sou uma águia encantada. E procuro amigos. Queres ser meu amigo?”

Sem dúvida que queria e foi com um sorriso que respondeu. Aquele dia tinha sido um dos mais especiais que tivera na companhia da águia, pois fora o dia do início de uma grande amizade.

Ele encontrou em seus olhos a calma que tanto buscava e em seu ser o mistério que sempre o seduziu. E a águia, no seu mundo inexplicável, encontrou no menino a alegria de outrora e a amizade que a fazia feliz.

Então depois daquele encontro, de almas que se completam, a águia sempre voltava para visitá-lo e o menino, por sua vez, sempre a aguardava ansiosamente.

E toda vez que voltava suas penas estavam diferentes pois mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava.

Certa vez, voltou totalmente branca, cauda enorme de plumas fofas como o algodão.

“- Menino, eu venho de montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que eu vi, como presente para ti ... “

E assim ela começava a cantar as canções e as estórias daquele mundo que o menino nunca vira. E ele sonhava que voava nas suas asas.

Quando ela partia o menino ficava triste, mas o seu coraçao se enchia de alegria sempre que pensava na sua volta, e a aquardava contando cada segundo na esperança do reencontro.

Sem que ele percebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado como a águia. Porque em algum lugar ela deveria estar voando.

Ele sentia-se o menino mais feliz do mundo pois havia conhecido uma águia diferente de todas as demais. Sua única tristeza era quando chegava a hora em que ela tinha que partir.

Mas a águia do menino voava livre e vinha quando sentia saudades...

De algum lugar ela haveria de voltar.

E ela sempre voltava. Como da vez que voltou vermelha como fogo, penacho dourado na cabeça.

“- ...Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga.”

“Minhas penas ficaram como aquele sol e eu trago canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.”

E de novo começavam as estórias.

O menino amava aquela águia e podia ouvi-la sem parar. E a águia amava o menino, e por isso voltava sempre.

E foi desta amizade que nasceu o verdadeiro amor. O mais belo sentimento tomou lugar no coração do menino e depois disto ele não seria mais feliz sem o objeto de seu amor, pois é mesmo certo que quem não ama demais não ama o bastante.

Embora ele soubesse ser impossível tal concretização de sentimento, ele a desejava mais do que poderia ser capaz.


E só a presença de sua beleza era suficiente para alimentar seu amor, por isso ele só se sentia completo com a sua volta, embora às vezes ela demorasse mais do que lhe fosse possivel suportar.


Mas ah!, pensava ele, que mundo maravilhoso que guarda em algum lugar secreto a águia encantada que se ama ...


“- Tenho ciúmes quando vais e não sei por onde andas.” - falou certa vez o menino ao refletir-se em seus olhos misteriosos. “– Tua ausência provoca um eclipse em meus céu e faz com que eu deseje o teu sol.”


“- Meu menino, quando voou por sobre as águas límpidas dos lagos que me levam para a imensidão dos mares azuis, lembro-me de ti e só então a paisagem esta completa, pois a tua imagem é necessária para que eu veja a beleza das cores com toda a intensidade.”


E o menino sentia-se feliz por saber que viajava com sua águia.


Mas chegava sempre a hora da tristeza.


“- Tenho que ir.” - ela dizia.


“- Por favor não vá, fico tão triste, terei saudades e irei chorar ...”


“- Eu também terei saudades” - dizia a águia. “- Eu também irei chorar. Mas eu vou te contar um segredo: As plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios ... E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera da volta, que faz com que minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for, não haverá saudades.”


“Eu deixarei de ser uma águia encantada e tu deixarás de me amar.”


Assim ela partia. O menino sozinho, chorava de tristeza à noite. Imaginando se sua águia voltaria.


Ele nunca entendia porque ela tinha que partir, mas certo dia, com a delicadeza de seu esplendor, ela tentou explicar-lhe.


“- É preciso partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar.”


“Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudades, eu ficarei mais bonita. Sempre que eu ficar com saudades, tu ficarás mais bonito. E enfeitar-se-á para me esperar ...”


E partia. Voava para lugares distantes. O menino contava os dias, e cada dia que passava a saudade crescia.


Mas foi num dia também como aquele que aconteceu algo que o menino não esperava, mas já temia. Numa tarde fria de início de inverno, ela chegou e o menino notou que suas penas estavam sem cor, senão com uma cor cinzenta triste assim como os seus olhos negros brilhantes.


“- Oi menino.”


“- Esperava-te.”


As folhas caiam das árvores e o verde aos poucos desaparecia. Seu silêncio e tudo ao seu redor denunciava o que os corações não eram capazes de admitir. E não foi preciso mais nenhuma palavra para saberem que aquela era uma despedida.


O menino queria chorar, queria gritar para que ela não se fosse, mas algo o calava. Talvez a calma em que a águia se encontrava. Será que ela não se importava em nunca mais o ver?


“- O amor surgiu em nós por engano, se esse engano persiste, pois o amor não tem outro desejo senão o de atingir a sua plenitude, logo o sentimento que nos invade, ultrapassa o que é possivel.”


“- Então... deixar-me-ás? “- murmurou tristemente.


E ela, perdida em pensamentos: “– Menino, eu escolhi te amar e por isso hoje pago o preço. É pra mim muito doloroso amar-te e não ter-te e igualmente doloroso ver o teu amor e não o poder corresponder. Vês as minhas penas? Trazem toda a melancolia da dor de ter de te deixar. E em meu coração já não há espaço para a tristeza. Mas levarei comigo o teu sorriso e sempre o terei quando a saudade apertar.”


E o menino alegrou-se em saber que também era amado embora já o suspeitasse. Mas desesperado com a separação, chorou.


E outra lágrima rolava pela face do menino enquanto lembrava... Pois parece que via novamente sua águia ir embora voando com suas penas ao vento e o brilho do sol deixando seu contraste no horizonte.


Ela se foi, sem se despedir, pois é difícil dizer adeus quando se quer ficar. Não pode, portanto, ouvir suas últimas palavras:


“- Eu te amo!”


No rabisco da areia da praia um desenho se formava, um coração e dentro duas inicias.


E é por isso que ele todas as tardes ia para a praia, triste de saudade, mas feliz com o pensamento de sua ingênua esperança:


“– Será que algum dia ela voltará?”



Leila Basthos



2 comentários:

  1. Hum... gostinho de saudade... Adorei!
    Na expectativa para desvendar o mistério viu?
    Beijos!

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  2. Nossa, Leila, que bonito!
    Adorei!
    Viajei!
    Bjokas

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