O Pedido




- ... então... peça o que você quiser.


- O que eu quiser?


- Sim, o que quiser.


O diálogo do dia anterior terminou assim. Não era a primeira vez que protagonizava uma conversa como essa. Lembrava-se bem que, quando menino e ainda em tenra idade, ouvira seu pai proferir iguais palavras às vésperas de seu aniversário. Naquela época tudo era diferente e ele era um dos mais novos filhos de uma família de 7 irmãos e, apesar de sua pouca idade, já entendia que aquele “o que você quiser” dito pelo pai não era realmente o que quisesse pois, sabia das parcas posses do velho a julgar pelo barraco que moravam, roupas que trajavam, arroz branco que comiam...


Era conhecido de todos o que ele queria, até parecia estar estampado em seus pequenos e brilhantes olhos quando falava com propriedade do objeto de seus desejos. Não importava a cor, poderia ser verde, vermelha ou azul, queria uma bicicleta Tigrão, daquelas que o pneu traseiro é maior que o dianteiro, pois tem aro 16 enquanto que o da frente tem aro 10, falava ele como que todo entendido do assunto. Isso facilita o equilíbrio, completava.


Na realidade ele nem sabia direito pilotar uma bicicleta, quando tentou foi nas de colegas que logo as queriam de volta temendo quedas e outros acidentes pertinentes. Mas isso não fazia com que desistisse. Um dia haveria de andar na sua própria bicicleta, falava a si mesmo tentando erguer a cabeça à espera de um futuro melhor.


Para não contrariar o pai e, por conseguinte, a si mesmo pediu um carrinho. Um fusquinha azul. Quero um fusquinha azul, disse. Ele sempre via o brinquedo quando ia à venda comprar mantimentos. O preço do carrinho era o equivalente a meia dúzia de ovos. É claro que o pai já havia comprado e embrulhado o brinquedo. O mesmo foi colocado debaixo de sua rede enquanto dormia. Ao acordar cedinho no dia “d” lá estava o pequeno embrulho à sua espera. Com euforia contida rasgou o papel colorido que envolvia o pacote. Sempre lhe diziam que quem rasgasse papel de presente ao desembrulhar ganharia mais outros. Naquele dia o ditado não valeu. De presente só recebeu o carrinho azul.


Embora o diálogo fosse semelhante, desta vez quem lhe falava era Margarida, sua possível quase futura namorada. Passaram-se 10 anos e, por causa da igualdade das palavras, não pôde furtar-se à lembrança do episódio com o pai. Mensurou possibilidades e imaginou o que poderia advir do fruto de seu pedido. Peça o que quiser, relembrava ele. Sorriu, olhou firme nos olhos da garota e sussurrou algo ao seu ouvido. Foi assim que ganhou seu primeiro beijo.




Roldan Henrique

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