Os músicos da cidade de Bremen


Um vez, um asno, depois de ter servido dedicadamente o seu amo durante muitos anos, viu-se ao chegar à velhice, desprezado e maltratado. Em vista dessa ingratidão, resolveu fugir do cercado para dirigir-se a Bremen, pois tinha sabido que o burgomestre estava recrutando músicos para a banda da cidade. Como ele sabia zurrar muito bem, com certeza venceria as provas. Pelo caminho, encontrou um velho cão de caça, um gato e um galo, também aborrecidos com os respectivos donos. Todos se uniram a ele, de boa vontade, também com a esperança de serem contratados para músicos, uma vez que o cão ladrava, com voz de baixo, o gato era um magnífico barítono e o galo um excelente tenor. Juntos, os quatro encaminharam-se para Bremen, mas a noite os surpreendeu no lugar mais denso da floresta. Viram, de repente, uma luz brilhar por entre as árvores e seguiram naquela direção, ate chegar em frente de uma casa.


O asno foi depressa para perto da janela do andar térreo, que se achava iluminado e olhou para dentro. Lá estavam sentados uns salteadores, em torno de uma pequena mesa, cheia de iguarias e garrafas de vinho. O asno se ergueu, então, sobre o peitoril da janela. O cão subiu-lhe ao lombo, o gato sobre o lombo do cão e o galo sobre o lombo do gato. Assim colocados, apresentavam um estranho aspecto, mas pior foi quando os quatro se puseram a "cantar". Em seguida, o asno, sempre com os três companheiros às costas, quebrou a vidraça, entrou na sala e começou a galopar alegremente ao redor da mesa. Os salteadores, assustados com aquela estranha aparição, pensaram que o diabo, em carne e osso, ali surgira para agarrá-los e correram para fora da casa, indo refugiar-se na floresta. Os quatro companheiros sentaram-se, então, calmamente junto à mesa, comeram até quase rebentar, beberam até a última gota do vinho e finalmente, depois escolheram cada qual o lugar que mais lhe agradava e deitaram-se para dormir.


Lá pela meia noite, ao verem que tudo estava escuro e silencioso, os salteadores aproximaram-se da casa, certos de que o diabo valente, tinha ido embora. Um dos bandidos, o mais valente, entrou resoluto na sala. Dirigiu-se para a cozinha, sem acender luz e, ao ver os olhos do gato que fulguravam na escuridão, pensou que eram duas brasas e, então, tirou um fósforo e aproximou-se das supostas brasas, para acendê-lo. O gato, enfurecido, saltou sobre o infeliz e arranhou-o sem dó nem piedade. O bandido fugiu apavorado e foi tropeçar no cão, que tinha se enrodilhado perto da porta. Quando o alucinado homem tentou fugir pelo quintal, foi cair exatamente em cima do asno, que lhe aplicou um certeiro par de coices. Entrementes, o galo, que tinha acordado com aquele reboliço, ergueu aos ares o seu sonoro cocorocó. É fácil imaginar o terror do bandoleiro, que, por fim, conseguiu alcançar os companheiros e contou-lhes que a casa se achava invadida por um grupo de desenfreados demônios. De pleno acordo, resolveram abandonar para sempre a casa e mudaram-se para lugar mais tranqüilo. Os aspirantes a músicos instalaram-se definitivamente na casa e, tendo descoberto no sótão um grande tesouro, que tinha pertencido aos bandoleiros, repartiram-no entre si, como bons amigos. Desde então, passaram a viver como grandes senhores, sem necessidade de se apresentarem ao concurso para músicos na cidade de Bremen.


Jacob e Wilhelm Grimm


Fonte: O Mundo da Criança - Histórias de Fadas (Vol.3),
1949, Ed. Delta. Tradução e adaptação de Vera Braga Nunes

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