Paixão e Resignação


Tarde triste de domingo. O dia chuvoso chora por um motivo que a muitos não importa ou interessa. Através da vidraça da janela, as lágrimas de Regina se confundem com as gotas da chuva.


Olha em direção ao quarto e, como uma leoa protegendo as crias, confirma o sono inocente de suas duas princesas. Suspira fundo e volta a olhar para a chuva. “Será que os meus domingos serão sempre tristes?” Pensa Regina enquanto sente o frio da noite gelar sue corpo. Por dentro, sente o sangue queimar nas veias.


Busca refúgio no silêncio da pequena sala, no mesmo momento em que todos os seus pensamentos voam na direção de Cláudio. Ela o aceita da maneira que o destino o colocou na sua vida e vive cada momento com ele como se fosse o último: solenemente. Ela nunca sabe quando ele vem, mas quando vem, sabe que a quer. Provavelmente nunca descobrirá se ele a ama ou se somente sente falta dos seus lábios, porque sabe que a sede deles nunca é saciada.


Mais um suspiro e outro olhar para o quarto das pequenas. Não consegue imaginar a felicidade de uma mulher ao lado de um homem errante, que somente por tê-la, por ter sido o único a tocá-la em toda a sua vida, não significa que seja exatamente o seu homem. Suas emoções entorpecidas por este homem que a quer com voracidade, que a excita ao delírio, que a domina até que ela já não consiga lutar contra suas próprias emoções.


Nada envilece uma mulher como a culpa e o arrependimento. “Um homem casado!” Ela pensa sofridamente. Não era exatamente isso que sonhava para si quando menina, quando ainda escrevia no seu diário e sonhava com um príncipe, daqueles de cavalo branco. Hoje, vive do outro lado da vida de um homem erradio que, felizmente entre tantas contrariedades, deu-lhe dois tesouros que dormem seu sono inocente, sem sequer desconfiar do que consome sua jovem mãe.


Naturalmente ela o quer e isso a faz sofrer. “O amor é um vício, consome a gente.” No reflexo da vidraça encontra um par de olhos sem brilho, a pele sem o viço natural da idade, o semblante sombrio. A consciência adormecida por um amor mutilado.


Ela degradou-se e resignou-se. Há tempos refugiou-se na solidão. A ninguém mais fala senão consigo mesma, guarda para si a dor e o prazer do amor, seus motivos inconfessáveis ao mundo, aceita o sofrer como parte natural da vida, tanto ruim quanto imutável. “A vida é sofrimento.”


Às vezes é uma ninfeta, escrava do amor que dá. Às vezes abranda a volúpia com a solidão. Na tentativa de racionalização, descobre a fuga. Na tentativa de razão, um silêncio insano, onde o delírio cede espaço a um malincônico recomeço. A solidão incrivelmente forja a paixão, mas a ternura que ela possui é suficiente para fazer sucumbir qualquer inquietação de sua consciência.


A noite ganha espaço enquanto, lá fora, a chuva se transforma em um chuvisco, que de algum lugar trouxe Cláudio; e Regina se surpreende sorrindo. O suspiro morre na garganta e, porta a fora, ela corre no borriço, despida de todas as razões que insistem em mantê-la afastada dele. Vestida, pura e simplesmente, de emoções, pronta para amá-lo. É assim que ela se dá.


Até o dia em que conseguir desvencilhar-se da teia da paixão que a consome solenemente. Se conseguir.


By Marlene Bastos

Nenhum comentário:

Postar um comentário