A Rejeição de Misha



Seus dedos haviam definhado até ficarem como gravetos quebradiços, secos e cinzas, gastos
por anos de abusos e profanações, pelo excesso desenfreado e pela doença que vem com o uso
exagerado do poder desimpedido e incontrolado. Essa punição se estendeu para o resto de seu corpo
que também secou e ficou caquético. Ele tinha a pele pálida de uma pessoa doente,
esqueleticamente magro exceto por sua barriga nua e inchada. Suas costas possuíam a saliência de
seus ossos e sua pele era fina.



"Porque você me odeia tanto?" O homem caquético perguntou, sua voz parecia o sussurro
frouxo de um velho, tudo sem fazer um gesto numa petulância preguiçosa.


A mulher que o confrontava com um pedaço afiado de osso preso em seu punho pálido não
podia dizer se ele havia se perdido na brisa da droga ou simplesmente ficado senil.


Ele sentou de pernas cruzadas sobre travesseiros com um acolchoamento grosso nesta sala
escura e de pouca mobília de sua Cidade-Estado. Seu olhar pálido contrastava com o dela. Os olhos
que antes enxergavam como os falcões, agora fracos, incapazes de enxergar à distância e não mais
penetrantes, embaçados, como os olhos de um porco selvagem que aprisionou a si mesmo há muito
tempo e se viu prisioneiro de seus próprios desejos. Olhos leitosos que estavam entediados,
consignados e sem esperança.


Pedaços de velas sobre pequenas peças de pedra obsidiana queimavam dentro de alcovas
rasas nas paredes; suas ceras escorreriam bem grossas paredes abaixo formando veias e piscinas
rudes, a fumaça delas preenchia a sala com um revoltante cheiro adocicado que fez a mulher enjoar
e querer vomitar. Todavia, a luz fraca produzida por elas mal conseguia iluminar a sala inteira
fazendo com que a escuridão manchasse tudo com uma fraqueza em sua cor.


"Eu não fiz de ti tudo o que tu és? Foi o caminho que eu te mostrei de alguma forma inferior
ao que disse que seria? Onde está a lealdade que tu me deves por eu poupar tua vida?"


Ela se arrepiou ao se recordar de seu forte rosto pairando sobre ela, sua face severa e ainda
bela olhando-a de cima para baixo enquanto ele a usava para o seu próprio prazer. Ela não
conseguia entender como aquele homem, o homem que ela acreditou ter amado um dia, teria se
tornado essa... coisa.


Anos atrás ele veio e a tirou de tudo o que ela havia conhecido: A infindável e mortífera
pobreza, a doença constante e a fome dolorosa, os ratos que lhe mordiam e dividiam com ela sua
cama e o esporte brutal dos guardas da cidade. Ele a havia retirado para longe da vida de uma
cidadã comum da cidade.


Seu verdadeiro motivo não era diferente do esporte dos guardas da cidade: Caçar e matar a
escória da cidade, amarrar e levar os mais fortes para a escravidão vendendo-os para os mercadores
de escravos que viajavam através das terras desertas, ou para a Arena onde eles saciariam a
multidão de cidadãos sedentos por sangue, morte e um breve alívio de suas vidas curtas e brutais.
Tudo isso para fazerem moeda, moeda ao custo de outros, moeda que poderá comprar favores no
meio da nobreza e dos imortais Reis-Deuses que governam sobre tudo e todos.



Ele fora um jovem homem que cresceu rapidamente entre os escalões da classe governante
da cidade, um passo abaixo dos feiticeiros imortais que governaram as terras, e muito distante das
condições do homem comum. Então quando ele vinha com seus homens, fazendo uma varredura
nas ruas, os guardas olhavam para o outro lado, pois seus bolsos haviam sido preenchidos com
moedas brilhantes e a necessidade inculpável de alimentar e proteger suas próprias famílias.


Ela não podia culpar os guardas. Por este dia, ela não podia, pois ela e sua família teriam
feito o mesmo.


"Eu não te amei? Não te ensinei os segredos? Não estás viva hoje enquanto o resto de tua
deplorável família está morto?" Sua tensa e arruinada voz lembrava-a, provocava-a.


Ela ainda lembrava a morte de seu pai gorgolejando, o espasmo sangrento de sua garganta
quando a lâmina assassina o rasgou entre as costelas. A morte de sua irmã não foi menos terrível de
se assistir, ocorrendo enquanto os homens nobres faziam esporte com ela. Ela nunca soube o que
havia acontecido com sua mãe. Ela, entretanto, havia sido poupada, pois os olhos do jovem nobre já
a haviam notado enquanto ela tentava achar um caminho para fora, buscando escapar do caos e da
chacina.


Não houvesse ela provado possuir uma mente ágil, ela teria durado apenas um curto período
de tempo antes de ser vendida nos mercados e a paixão do nobre por ela rapidamente se tornado
tediosa. Ela teria sido substituída tão rápido por outra dentre as milhares de pessoas amontoadas
juntas nas cidades do mundo moribundo. Mas ela era curiosa, grata, até mesmo sedenta por
aprender o que ele a ensinou, para estudar os segredos sombrios que eles compartilhavam juntos:
Ela aluna, ele o mestre.


"Eu te odeio pelo que tu és," Ela rosna com os seus olhos negros piscando, "Pelo que tu
fizeste de mim, e o que eu serei por tua causa. Eu preferia ter morrido na sarjeta, miserável e leiga
do que com o destino que agora paira sobre mim... Um destino que eu posso ver em teu rosto
decadente!"


Ele levantou um braço em estado terrível, de cor cinza, os ossos finos entre sua carne
corrompida definiam de forma clara e grotesca sua mutação sobrenatural.


"Entoe um sílaba, faça um gesto, e eu cortarei tua garganta antes que tu consigas terminar,"
Ela prometeu, gesticulando com sua adaga para reforçar a ameaça.



Ele respondeu calmamente, abaixando seu braço em terrível estado, "Me mate e os
sacerdotes te acharão, farejando tua magia profana e proibida. Eu ainda sou importante, percebes?
Tu não serás capaz de fugir da cidade.".


Ele respondeu calmamente, abaixando seu braço em terrível estado, "Me mate e os
sacerdotes te acharão, farejando tua magia profana e proibida. Eu ainda sou importante, percebes?
Tu não serás capaz de fugir da cidade.".


Ele respondeu calmamente, abaixando seu braço em terrível estado, "Me mate e os
sacerdotes te acharão, farejando tua magia profana e proibida. Eu ainda sou importante, percebes?
Tu não serás capaz de fugir da cidade.".


Seus homens chegaram até ela, para forçarem-na a retornar a cidade com eles e eles não
quiseram aceitar um "Não!" como resposta. Em retorno ela drenou a vida da terra, de seu jardim, do
pequeno vilarejo escravo onde ela se escondeu por muitos anos. Ela modelou essa energia em coisas
terríveis com sua arte arcana, coisas que mataram os homens de seu amante de maneiras
indescritíveis, da mesma forma como mataram a terra ao seu redor drenando e profanando-a,
transformando-a em cinzas e areia queimada como toda a magia faria.


"Tu planejas me queimar? Como um herege... um mago? Como provarás isso?" A pergunta
satirizava dela, mas seus olhos negros não demonstravam sentimentos, nenhum ar de preocupação.
Eles brilhavam com ódio e malícia insaciáveis.


"Queimar é uma morte muito boa para ti! Eu vim te estripar e te dar uma morte lenta antes
do inferno eterno que tu sofrerás debaixo do olho negro do Sol nas terras perdidas."


Magos como o velho homem e a jovem mulher, cujos encantamentos mágicos rasgaram a
alma viva da terra para servirem de combustível para infindáveis feitiços de destruição e malícia,
mataram o mundo e criaram os desertos, como se o mundo fosse um homem que eles apunhalaram
com uma adaga ardente. Por isso os elementos rejeitam qualquer um que pratique as artes arcanas e
os profanadores deverão vagar pelas terras perdidas, criadas por eles mesmos, num eterno tormento
após suas mortes.


"Então terás tua vingança? Isso não importa. Matando-me ou não, os elementos ainda te
rejeitarão! Teus restos decadentes vagarão pelo deserto eternamente e teu fantasma assombrará teus
ossos brancos onde eles caírem. Tu não ganharás salvação pelo que pretendes fazer!"


"Tudo o que eu quero é vingança. A eternidade não parece ser tão longa, então," Seus olhos
negros brilham perigosamente com uma luz firme e insana revelando que ela não tinha medo algum
de agir.


"Eu conheço mais truques do que tu, garota. Aprendeste tudo o que eu tinha para ensinar e
me abandonaste, mas eu não parei de estudar desde que tu te foste. Tu tinhas poder, oh sim, mas o
Rei-Deus me permitiu pesquisar em sua biblioteca uma vez – o preço foi incrível, mas eu tive a
chance e gozei dos segredos daqueles tomos antigos! Segredos negros que amaldiçoaram minha
alma mais do que qualquer outro que nós já exploramos juntos."


Seus lábios envelhecidos cuspiam saliva enquanto produziam um agitado grito. Seus olhos
cegos brilhavam agora com uma terrível intensidade, uma intensidade que pertence aos homens
jovens ou aos sacerdotes fanáticos dos Reis-Deuses, e não aos frágeis velhos homens cujas vidas
fracassadas os amaldiçoaram.


Suas vozes explodem uníssonas, pronunciando sílabas arcanas retorcidas num idioma
perdido pelas eras, a dela, com raiva e força, a dele, crua e sussurrada, ambos se conheciam bem
para imaginarem as intenções antes que qualquer sinal fosse revelado.


Sua recitação foi impecável, rápida e terminou antes dela. O terreno fora da mansão secou,
as plantas ficaram cinza e caíram, o solo se transformou em poeira devido à batalha arcana – a vida
da terra foi devorada pela recitação de seus feitiços profanadores gêmeos.


Isso não importava, pois ele terminou primeiro e coisas sombrias conjuradas de alguma
dimensão esquecida além das sombras profundas da sala rasgaram a mulher diante dele,
envolvendo-a numa névoa vermelha enquanto sua carne e músculos lhe eram arrancados em meio a
gritos inimagináveis.


O velho soltou um grosseiro sorriso expondo seus dentes e caçoou dela com uma satisfação
maldosa, mesmo com a poeira em seus pulmões, mas quando as coisas sombrias finalmente se
foram, não havia nada. Nenhum osso, nenhuma marca de sangue, nenhum resto de sua amada. A
fronte do caquético profanador teve apenas um breve momento para ficar confusa...


O osso branco da lâmina da adaga da mulher estava envolto com um vermelho brilhante,
uma cor que também pintava seu sangrento punho, dando evidência do ataque fatal que ela realizou
silenciosamente por trás enquanto sua ilusão distraía-o de todo o resto.


Momentos após seus feitiços terem sido recitados, num piscar de olhos após as forças
sombrias terem rasgado a falsa imagem da mulher e fugirem saciadas de volta para sua dimensão
antediluviana, a mulher ficou sobre o cadáver de seu ex-amante e professor, agora esparramado em
silêncio no chão da câmara sombria como um estranho boneco vestido com gravetos simbolizando
seus braços e pernas. Seu sangue carmesim escorreu e formou uma piscina ao longo do chão de
pedra como uma vasta poça de tinta. Os olhos mortos fitavam os cantos escuros da câmara,
confusos pela sombra de um pensamento, os lábios ressequidos abaixo abertos formulando uma
pergunta de surpresa que nunca ganhará voz.


"Tu deves ter aprendido segredos terríveis, velho tolo, mas eu encontrei ruínas nas terras
perdidas, ruínas com seus próprios segredos terríveis, segredos que descansavam há eras antes dos
Reis-Deuses sequer governarem estas fracassadas cidades dos homens. Eu não vou terminar como
tu, não vou – Divirta-te com tua eternidade de sofrimentos até que enterrem o teu corpo e a terra te
rejeite, profanador!"


Ela cospe no atormentado cadáver, a coisa caída e corrompida pelos anos de uso de magia e
profanação, a coisa que em breve irá vagar pelas infindáveis terras desérticas até que o Sol negro
queime a carne de seus ossos.


Além do fraco brilho de uma das luas que ascende, uma sombra pálida passa sorrateiramente
pelas cinzas que foi tudo que restou do jardim ao redor da mansão, e então pelas paredes brancas
lavadas, desaparecendo nas ruas.


Ela pagou bem – ninguém irá descobrir o corpo do nobre homem morto até o amanhecer e
ela estará bem longe da cidade quando isso ocorrer. Os caçadores irão segui-la, farejando sua
magia, procurando por sua destruição, mas ela fugirá para os desertos profundos onde eles não se
esforçarão para segui-la, onde eles a esquecerão deixando que as feras dos desertos disputem por
ela.




Jeffrey L. Kromer




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