SOMBRAS



Aquele pedacinho da estação do metrô lhe era familiar, sempre que ia ao trabalho, ou saia de casa passava por ali, era entre a bilheteria e a catraca, pequeno trecho que ficou ainda mais cravado na sua mente depois daquele dia. Era uma manhã comum e de repente do nada, fora abordado por uma turma que, a título de abordagem, lhe ofereceram uns trecos para comprar e logo após deram voz de assalto...

O que veio após isso foi algo terrível e nunca antes experimentado ou imaginado. Na verdade foram segundos, mas que pareceram uma eternidade. Com palavras ásperas e de baixo calão lhe foram tirados a carteira, o relógio e o celular. Os sapatos e roupas não chamaram a atenção dos meliantes. Baixou a cabeça e saiu assim, de fininho, lamentando o acontecido. Seu semblante estava sério e seu olhar de repente tornou-se vazio. Andou até não conseguir mais. Sombras de espectros o assustavam, era a primeira vez que andava no vazio de seus pensamentos.

O que lhe furtaram de material em algum tempo conseguiria de volta. Nos jornais e TV o que não faltam são promoções e ofertas de celulares, relógios, bolsas e afins. Fora humilhado e insultado. Ouvira palavras lhe acusando do que nunca foi, não é e jamais será. Talvez para manter-se vivo não reagiu, apenas calou-se resignado. Naquele dia também lhe furtaram a maior riqueza: paz e alegria.

Algo que lhe doía e que não podia evitar: Tinha que continuar a passar por aquela mesma estação do metrô na saída e na volta pra casa. Apesar da vontade de mudar não dispunha de condições financeiras para tanto. A solidão, mesmo em meio a tantas pessoas solidárias, passou a ser sua companheira. O sorriso lhe faltou e era comum ser visto olhando para lugar nenhum. Foi um tempo difícil, especialmente por não poder mudar cenários e circunstâncias. Aos poucos, frente às palavras de apoio a ele dirigidas, foi recobrando o ânimo e, algumas vezes, pôde ser visto sorrindo. A solidão, enfim, deu lugar ao recomeço. A resiliência aplacou a loucura.



Roldan Henrique

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