Um Amor Maior


É a música que a embala a caminho de casa.

A noite fria e molhada embaralha mais ainda os pensamentos dela.

Parada no sinal vermelho, ela mal vê os pingos da chuva que embaçam o pára-brisa, está olhando para dentro, para dentro de si mesma, e sente que também chove lá no escuro recôndito da alma. Rói a unha sem perceber, assusta-se ao dar-se conta que só agora nota que adquirira o hábito. Deve ser a ansiedade, pensa. E volta a olhar para dentro.

Pensa na vida e nas conseqüências de viver.

Pensa no amor e nas conseqüências de viver o amor.

Morde o lábio ao lembrar da paquera no restaurante, onde almoça todos os dias. Lembra do olhar insistente do rapaz e sorri. Ah, se ela não fosse assim tão ela mesma, se não amasse tanto…, pensa contrariada.

Se não fosse assim, também não teria descartado o namorado virtual que os amigos lhe arranjaram por livre e espontânea pressão. Se não fosse assim, não teria recusado tantos convites para sair.

Ela tenta em vão avaliar os últimos acontecimentos, como quem tenta deter o tempo, como quem tenta medir o céu ou o mar…

Estaria sendo justa consigo mesma????

Até onde conseguirá ir movida por esse amor? Onde cessarão seus limites? Até quando fará comparações onde as conclusões são sempre as de que um outro amor não vale a pena se não for o “seu” amor? Até onde levantará a muralha que a mantém presa, que a mantém do lado de dentro de si mesma e que a protege dos que estão de fora?

Se para si mesma não possui respostas plausíveis, para a família e amigos próximos, ela já não é normal, já ultrapassou os limites da normalidade, fugiu do padrão de comportamento esperado de uma mulher madura, independente e na frente do tempo.

Tempo!, ela pensa. Será que é só disso que precisa, de um empurrão do tempo? Será que ao menos consegue definir em que tempo está a viver? No passado ou no futuro? No presente, certamente não é.

Vive o passado quando recosta a cabeça no travesseiro e não consegue dormir, quando perde o sono e fica a sonhar acordada ou quando dorme e sonha com ele. Será que é nele que pensa quando esquece as chaves ou quando não consegue lembrar onde exatamente deixou o carro?

Vive o futuro quando espera, quando quer um amor maior que ela mesma, quando planeja o que vai falar e fazer quando reencontrá-lo, quando pensa e pensa, sem chegar a nenhuma conclusão sobre o que fará com o seu amor nos dias seguintes, nos meses e anos que se seguem…

Será que ele vem?, pensa desgastando suas esperanças.

Pensa se algum dia encontrará alguém como ele, alguém que a entenderá como ele, que a amará como ele, que chegará tão perto da sua alma como ele…

Estaria disposta a arriscar-se?

Valeria a pena deitar abaixo a muralha que a protege do mundo… e dos homens?

Valeria o risco de uma decepção maior que a constante?

O sinal verde e as buzinas dos carros que estão atrás fazem-na despertar. A música já é outra; suas dúvidas e inquietações são as mesmas.

Respostas não tem. Apenas tem a certeza de sentir-se à espera de um amor maior. No fundo, entretanto, sabe que já conheceu e viveu esse amor, só não sabe se um dia ele retornará, se algum dia será completamente o “seu” amor.



By Marlene Bastos

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