O outro lado do amor



Abriu-se toda naquela tarde. Tinha os olhos fixos no céu nublado, a boca pequena semi cerrada não pronunciou uma única palavra. Ali, naquele lugar secreto, em nosso segredo mútuo, senti seu sangue verter sobre minhas pernas numa quentura proibida, mas amei, amei aquela menina como nunca amaria qualquer outra, até que meu prazer carnal fosse mais forte e que o sentimento de amor e gozo a partisse em duas e a privasse do último respiro. Camila morreu de amor. Um amor angelical que só pode ser sentido aos seis anos de idade e cuja experiência anterior nada significa para o homem que possui o fluido puro da sexualidade que se despertou para a vida e se acabou como todos hão de acabar um dia: mortos pelo amor maior que o corpo, pelo prazer que não se prende aos limites físicos.

Durante anos esperei que Camila aprendesse o necessário para partilhar do meu amor por ela. Esperei que pudesse caminhar sozinha sem tropeçar nos obstáculos inexistentes e que pudesse chamar meu nome com tanta convicção e tanto entusiasmo que me fizesse crer que ali poderia nascer o amor de dentro da própria menina, sem que eu tivesse de plantá-lo, mas por si, apenas por regar a terra nasceria o fruto sem árvore, sem flor, só amor puro e pronto para ser desfrutado num dia sereno.

Aos poucos, sem pressa, éramos íntimos e secretos. Amantes do sorriso, da grama verde, dos balanços no parque de terra batida. Camila era vida que espera pelo momento em que deixa de ser para doar-se ao fim. E o momento estava próximo. Sublime dia em que fomos ao jardim atrás da casa. Nosso cantinho de beijos e abraços e trocas. Nosso canto de rezas e pecados ainda não consumados em todo seu ardor.

Deitou-se, ciente de que não precisava esperar nada, de que não conviveria com a culpa nem com o trauma. Não suportaria vê-la crescer infeliz. Seus olhos eram só amor, amor que não sabe que ama. Seu corpo era a brancura sem cor de um ser totalmente alheio a si. Camila era minha. Minha carne, meu sangue, meu amor, meu desejo, meu fim.


Cris da Paz

Souvenir



A coisa toda começou quase que por acaso, em Buenos Aires. Eu estava na feira de San Telmo, e tinha apenas uma hora para voltar à Recoleta, fechar a conta do hotel e ir para o aeroporto. Tinha já comprado várias lembrancinhas para amigos e familiares, mas o fato é que não havia encontrado nada para mim. Ou melhor, havia encontrado uma pulseira antiga, chinesa, de laca preta com pequenos elos de ouro, mas o preço estava acima do que eu podia pagar, mesmo após exaustivas negociações com o vendedor, severamente prejudicadas por meu espanhol canhestro.

Não havendo muito tempo, acabei comprando uma pequena caixa de porcelana antiga, uma espécie de porta-jóias em miniatura, branca com pequenas flores arroxeadas a decorar sua tampa. Nas laterais havia incrustada uma moldura rendada em latão, muito delicada e pequenina.

Até bonitinha era a peça. Não era a pulseira que eu queria, mas servia como lembrança de minha estada na cidade. Poderia ter sido qualquer outra coisa, mas foi a caixinha.

Marília veio me visitar duas semanas depois. Mostrei as fotos, rimos juntas quando contei sobre minha vontade de aprender tango, tomamos café, comemos bolo, e foi só no momento de se despedir que minha amiga reparou na pequena peça.

Meu aniversário, meses depois, o quinto de minha gravidez de risco. Eu era toda feita de nervos, hormônios, inchaços e lágrimas. Marília me deu outra caixinha, esta redonda, também de porcelana, também com pinturas primaveris a decorar a tampa. Ao abraçar forte minha amiga de infância, chorei. Chorava por tudo naqueles dias. Mas Marília supôs que meu choro fosse de emoção, amplificada pela emoção do presente.

Ficaram ali as peças, sobre a mesinha no hall de entrada. Quando Marília vinha, sempre falava alguma coisa a respeito, portanto acabei as deixando lá, à vista dos comentários.

O bebê era ainda pequeno quando Marcos viajou para a Europa. Talvez porque meus hormônios ainda estivessem confusos, talvez por insegurança, pelo fato de estar muito acima do peso, eu ainda chorava. O bebê também chorava muito, eu dormia pouco, e por isso chorava ainda mais.

Nos onze dias em que estive sozinha, vi crescer um ciúme que nunca sentira. Imaginava que Marcos jamais voltaria, que tinha outra, que de uma hora para outra receberia uma mensagem de abandono, ou a notícia da queda de um avião.

Fui tomada de uma alegria absurda quando voltou, me abraçou e disse que sentira também minha falta. E cheguei a ficar feliz quando tirou da mala três pequenos pacotes, que escolhera cuidadosamente entre um compromisso e outro. Três caixinhas de porcelana, compradas em três países diferentes: Itália, França e Inglaterra.

Cheguei a pensar que poderia ter comprado perfumes, chocolates, uma lingerie sensual para quando eu voltasse ao meu peso, mas o fato de Marcos ter se preocupado em escolher algo que julgava me fazer feliz, naquele momento, foi o bastante.

Tinha agora um quinteto, a agrupar-se na mesinha do hall. Mas a coisa foi tomando proporções perigosas. Fosse aniversário, Natal, dia das mães, lá vinham amigos e familiares com suas caixinhas de porcelana. Porque todos esperavam que eu gostasse, eu demonstrava gostar.

Como dizer que não era bem isso, como esclarecer o mal-entendido, sem correr o risco de magoar pessoas que evidentemente tentavam me fazer feliz?

Uma vez Marcos convidou um colega do escritório e sua jovem noiva para jantarem conosco. Trouxeram uma garrafa de vinho para ele e uma caixinha para mim. Sendo todos advogados, a conversa transcorreu por caminhos profissionais aos quais eu não tinha acesso. Fiquei quieta num canto, imaginando o que Marcos havia dito para eles. Uma fúria silenciosa foi crescendo dentro de mim. Para eles, eu não tinha nome, não tinha vida, não tinha personalidade, tinha apenas uma coleção de caixinhas de porcelana.

No Natal daquele ano, minha irmã e minha mãe se juntaram para comprar uma caixinha que viram num antiquário, caríssima, diziam...

E quando vinham pessoas, eu antes já me esmerava limpando, polindo e arrumando minha já vultuosa coleção. E todos paravam, admiravam, faziam perguntas sobre sua origem, comparavam as pinturas, perguntavam a idade das peças, como se tivessem vida.

E tinha sempre que contar quantas eram, pois sempre alguém perguntava: “Quantas você já tem?”

“Trinta e oito”. “”Quarenta e três”. “Cinqüenta e nove”. Meu ódio secreto foi sendo alimentado aos poucos, peça por peça, data por data.

Em minhas mais loucas fantasias, me via destruindo as miniaturas a marretadas, atirando-as janela abaixo, quinze andares, as pinturinhas primaveris, as princesinhas segurando pombinhas, as bordinhas douradas, tudo se espatifando em caquinhos no concreto frio do calçamento embaixo.

Novamente aniversário e minha prima chegou com flores. Um grande maço de rosas amarelas. Ironicamente, me senti traída. Estava preparada para odiá-la um pouquinho mais. Será que ela simplesmente não tinha lembrado do meu aniversário, e só trouxera flores de última hora? Será que eu não valia mais a procura por um modelo diferente? Que fizera eu para desmerecer um presente que todos sabiam que eu gostava?

A resposta veio quatro dias depois, quando Ana chegou cheia de felicidade, explicando que encomendara a peça antes, mas devido à restauração, não ficara pronta a tempo. Mais uma caixinha...Abracei-a sorrindo.

Aumentando o equívoco, eu fingia cada vez mais. Uma vez, me peguei fingindo para mim mesma, sozinha, admirando as peças que já ocupavam uma mesa bem maior, no canto da sala de estar. Mas se eu dissesse a todos a verdade, como iriam entender meu fingimento? Não pensariam também que eu mentia a respeito de outras coisas? Estariam prontos a gostar desta outra que não gostava de caixinhas de porcelana?

Naquele dia, levei o bebê cedo para a casa de minha mãe. Malas, jóias e documentos já estavam no carro, estacionado a duas quadras dali. Guardei também minhas pulseiras, paguei uma fortuna por elas. Nunca contei a ninguém, mas há três anos coleciono pulseiras. Calculei errado o tempo, deveria ter me vestido mais cedo. Se alastrou mais rápido do que eu havia imaginado. Desci de pijama mesmo, pelas escadas, esbarrando em vizinhos assustados, portas abertas, bombeiros que subiam, mangueiras, hidrantes. Assisti da rua o fogo, as altas chamas lambendo as janelas, flamejantes, ardentes, dançando e pulando freneticamente ante olhares incrédulos.



Cozete Gelli

Borboleta amarela



Uma borboleta amarela esvoaçava em plena uma da tarde na Avenida Presidente Antônio Carlos, Centro do Rio. Miragem, só podia ser, pensei. Mas não.

Enquanto eu aguardava impaciente que o motorista do táxi furasse o bloqueio dos ônibus e seguisse a via estreita demais para tanto trânsito, ela borboleteava alegre e faceira no meio do gás carbônico daquela selva do asfalto, sob o calor inclemente de janeiro.

A caminho de um almoço de negócios, atrasada, interpretei aquela aparição como um sinal de boa sorte. Tenho, desde pequena, por influência de minha mãe, uma superstição envolvendo borboletas: quando elas aparecem para mim, algo bom está para acontecer.

A bobagem que costumo utilizar para ludibriar minha alma é o resultado de uma interpretação do filme "Suplício de uma Saudade", um dos grandes sucessos de Hollywood, que minha mãe viu e reviu nos cinemas. Contava a história de uma médica chinesa que se apaixona por um oficial americano. Ele morre na guerra e ela volta à colina cheia de borboletas para se lembrar do dia em que disse a ele, ali, que, para os chineses, este animalzinho é um sinal de boa sorte. Se não é exatamente assim, foi desta forma que aprendi a mensagem do filme, se bem que, se o namorado da moça morreu na guerra, ela não teve tanta sorte.

Passei, desde então, a achar que as borboletas gostam de circular à minha volta. De vez em quando, algumas chegam a pousar em meus ombros. Sem dúvida alguma, sou uma pessoa de muita sorte. Minha vaidade sugere que este poderia ser o argumento de um filme mexicano, do tipo realismo mágico. Meu senso de ridículo indica que isto não daria nem novela venezuelana.

Dentro do táxi, ar condicionado a toda prova, o trânsito não anda um centímetro.

Estressada, começo a me inquietar. Melhor ir a pé, que vai mais rápido, comento, meio sussurrando, só para torturar o motorista, que se angustia e se culpa por ter tomado o pior caminho.

Olho para o lado e lá está ela de novo, grande, amarela, passeando entre os carros.

Não é possível!

Qualquer dia desses vou ler no jornal que as os cientistas descobriram que as borboletas não são aqueles seres inocentes e alegres que sempre pensamos que fossem. Vão dizer que elas são altamente resistentes à poluição e que sua presença nas grandes cidades só comprova a tese de que elas convivem muito bem com um mundo estragado e feio.

Acha difícil? Fizeram isso com as garças, lembra? Aquele serzinho branco, elegante e impávido, à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, dizem eles, está se alimentando do esgoto clandestino que deságua numa das paisagens mais bonitas do Rio.

Outro dia tentaram denegrir a imagem dos golfinhos. Que eles não são tão simpáticos assim, que por trás daquele sorriso maroto há segundas e terceiras intenções.

Desconfio que exista gente no mundo que vive só para acabar com as doces ilusões dos seres humanos. A próxima vítima vai ser a borboleta que passeia na Antônio Carlos, vocês vão ver.



Célia Abend

Julieta pós-moderna



Ela acorda apressada, afinal, já passa das sete. Arma-se: pega o celular, o laptop, confere a agenda do dia em seu palm. Depois de beber um gole rápido de café, dá as coordenadas para a empregada, que ficará no comando do QG doméstico durante o dia e sai, marcando passos decididos do alto de seu salto sete. Sabe-se lá a que horas voltará para casa hoje...

Terceirização dos afazeres domésticos: este maravilhoso fenômeno da contemporaneidade feminina possibilitou que nós, mulheres, descobríssemos que há vida fora de casa. Mergulhamos de cabeça no mundo, mas, hoje, percebemos que não levamos bote salva-vidas!

Levantamos nossos sutiãs em praça pública, hasteando a bandeira simbólica da luta contra as amarras da sociedade capitalista, contra os preconceitos pequeno-burgueses machistas, contra qualquer lei que impusesse limites à liberdade de nossos seios. Achávamos que éramos libertárias, outsiders. Mas, literalmente, no bojo pré-moldado desta revolução, não conseguimos vencer a Lei da Gravidade e, como conseqüência, vivemos hoje a ditadura dos seios fartos, simulacros de silicone e andamos presas, em armaduras-sutiã com aros, espumas, enchimentos a óleo e água...Tudo, para reforçar a imagem do air-bag duplo.

Ah!, a imagem...Contra os milhares de radicais livres que andam soltos por aí, vestimos nossas poderosas máscaras cosméticas e tentamos dizimar com golpes cientificamente calculados, utilizando poderosos ácidos, toda e qualquer ruga que ouse surgir em nossa pele. É o arsenal bélico da guerra química da mulher pós-moderna, que se torna cada dia mais sofisticado — em vão — pois nós, guerreiras da imagem, mesmo empunhamos nossas poderosas armas, também não conseguimos vencer a luta contra o temível “Senhor da Razão”.

Declaramos guerra contra as gordurinhas localizadas, utilizamos instrumentos de tortura em nós mesmas, dando choques elétricos nos malditos lipídios que tentam se instalar em nossas curvas. Malhamos horas e horas nas academias porque queremos aparecer para o mundo com nossos corpos perfeitos. Mas ficamos revoltadas quando os homens nos chamam de gostosas, porque queremos que eles vejam que somos inteligentes!

Não há dúvidas de que conseguimos conquistar nosso espaço, em várias esferas da vida social. Nós votamos, estamos no planalto, na indústria, nas empresas, na mídia, temos até uma Secretaria de Estado dos Direitos da Mulher, que luta e articula em nosso favor no terrível mundo masculino da política.

No trabalho, conseguimos ocupar cargos de decisão. Galgamos nosso lugar e chegamos ao Everest do mundo corporativo. E, entre um telefonema e outro do dia-a-dia corporativo, damos ordens aos nossos subordinados e às nossas empregadas que ficaram em casa, corrigimos a lição de casa de nossos filhos, fazemos listas de supermercado pela internet e pensamos no cardápio do jantar, numa rotina quase esquizofrênica, que mostra que ainda não conseguimos solucionar o binômio dialético mãe-mulher de negócios.

Somos independentes, sim, ganhamos nosso próprio dinheiro, investimos na bolsa, fazemos aplicações, temos orgulho de planejar nossa vida material, de conseguir estabilidade à nossa própria custa, mas ainda nos sentimos ofendidas se temos que dividir a conta de um simples jantar com um homem. Somos independentes, sim, mas ainda sonhamos com um amor shakesperiano, uma família hollywoodiana e um príncipe encantado que nos proteja dos males do mundo e abra os vidros de azeitonas para nós.

Rechaçamos as mulheres que, por opção, escolheram ser donas-de-casa, cultivar o lar e ver seus filhos crescerem ao invés de acompanhar as ações da bolsa subirem.

Embora nunca teremos coragem de admitir os bastidores de nossos sentimentos a quem quer que seja, somos machistas, sim! Somos sempre as pobres vítimas nas mãos desses inescrupulosos seres masculinos. Dizemos que os homens são todos iguais e somos incapazes de nos desarmar de nossos preconceitos feministas e sexistas para conviver harmonicamente, que seja, com as diferenças – que existem – entre nós e eles. Achamos, isso sim, que eles têm obrigação de nos entender...como se fosse tarefa fácil!

Não se trata de defender o masculino nem o feminino. Trata-se de ampliar nossa visão para o mundo e enxergar além da imagem refletida em nosso espelho. Ó espelho, espelho meu, se não conseguimos nem aceitar a diferença entre o masculino e o feminino, como saberemos qual é o nosso papel neste novo mundo da diversidade, mosaico e plural?

Apesar de todas as nossas conquistas que, como não nego, foram vitórias importantes ao longo da história da humanidade, ainda faltam muitos obstáculos — colocados por nós mesmas — a serem vencidos para chegarmos a ser “Mulheres Nota 1000”.

No fundo, somos todas Julietas pós-modernas. Mudaram as ambiências, vivemos num mundo mais complexo, mudaram as circunstâncias, mas nossa luta ainda é medieval: não nos libertamos dos nossos cintos de castidade...

Vivemos em um novo tempo e num novo espaço. Temos acertar nosso fuso-horário com o mundo e descobrir nosso lugar e nosso papel neste universo cibernético. Ainda temos muito, muito a aprender...

Julietas do mundo, uni-vos! A luta continua...



Luciana Mello

Sombra dos olhos




Isso é muito pouco! Ele gritou, tão alto e tão grave que ela sentiu toda a raiva de seus pulmões cansados. Cansados de tudo. Da idade, da fumaça do cigarro, do ar condensado de mágoa, do silêncio, da indiferença, do abandono.


Ao ouvir isso, ela apenas o olhou por entre as sobrancelhas com ar de pena, soltando da boca uma nuvem branca de tédio que subiu até o teto de madeira entalhada em rococó. Perfeito como foi no início.


Contaminado de desgosto, ele contemplou longamente aquela mulher. Vendo seus olhos pintados de sombra cintilante e o cabelo ajeitado num penteado duro como seu olhar, lembrou-se de quando ela lhe disse pela primeira vez que o amava. Em seus olhos não havia sombra. Ao contrário. Brilhando a luz do Sol, as pupilas não eram negras, mas douradas, da cor do compromisso na mão direita.


Os dias se passavam como horas, e cada hora longe um do outro pareciam dias. Sempre juntos, já não se sabiam mais divididos.


Quando veio o outono, o frio chegou cedo demais e atacou a plantação e os negócios da família. E, como não bastasse, ele começou a sentir suas mãos leves demais, tremulando inconstantes feito as folhas secas que via, através do vidro, desprendendo-se dos galhos de salgueiro no jardim. Foi quando ele percebeu que o olhar dela tornara-se opaco.


Enquanto se perdia de tudo e de si, também a perdia.


Certa manhã, ela sentou-se ao lado dele para o café numa proximidade infinitamente distante. No salto-agulha, os pés dela alfinetavam, assim como os da cadeira, o antigo tapete vermelho, agora desbotado, cor de carne sem sangue. Meia hora em que ela apenas mordia, sorvia e engolia sons. Ao fundo, ele só ouvia a vibração do ar entrando e saindo de seus pulmões, quase sufocado pelo peso dos próprios pensamentos.


Ali, naquele instante, ele notou pela primeira vez aquela sombra pérola nos olhos dela. E ela já não era tão bonita. Estrela apagada, tentava refletir alguma luz no brilho em pó sobre as pálpebras mirradas. No rosto marcado da mulher, ele lia os anos que passaram juntos, como em um álbum de família. Recordava os tempos bons, revivia-os. Escondia-se dela e de si na lembrança.


Naquela noite de inverno, em frente à lareira, sentiu-se asfixiado de um completo vazio. Uma pessoa-copo-plástico, descartável. A sala havia se tornado imensa para conter sua presença esmigalhada, mas minúscula para abrigar os escombros de vida sobre seus ombros.


Ela não estava partindo para economizar os parcos tostões que lhes sobraram, deixando-o mais confortável. Ao contrário, estava deixando-o, confortavelmente, para não precisar mais carregar aquele corpo pesado e doente. Não era nele que ela pensava.


Mas ele sim pensava nela, em tudo o que fez por ela. Construiu forças sobre os entulhos sentimentais e as soprou com todo o ar de seu peito.


Ouvindo aquele grito desesperado e profuso, ela deixou escapar seu último fantasma de fumaça, depositou o resto de cigarro ainda aceso sobre o cinzeiro e, mergulhada em si, levantou-se e saiu.


Enquanto escutava os pequenos passos se afastando, ele permaneceu calado, observando as fracas chamas na lareira. Refletidas pelas gotas de cristal do lustre, elas se espalhavam pela escuridão da sala feito chagas. Olhava, mas não via o fogo que quase se extinguia naquela última lenha velha, queimando o último pedaço, assim como o cigarro no cinzeiro.




Michelle Horst


Espelhos


Era um lugar escuro, com cheiro de mofo e rachaduras na parede. De repente viu que uma daquelas rachaduras revelavam um lugar diferente, e neste momento, foi arremetida por uma incessante vontade de fugir para lá.

Os pensamentos passaram, fluíram, não conseguiu contê-los. Começou a vagar por um novo caminho. Um lugar lúdico, colorido, alegre, com cheiro de incenso de cravo e sabor de torta de limão. Continuou andando e percebeu que algo muito estranho estava acontecendo. Em toda parte havia sua imagem refletida, era como se estivesse em uma cidade de espelhos que mostravam algo mais que sua face. Estranhou mas não teve medo, era uma mistura de nostalgia, com ansiedade e curiosidade.

Por alguns instantes sentiu-se aliviada, não por vaidade no sentido pejorativo da palavra, é que de alguma forma percebeu algo novo em seu reflexo. Ao fitar os espelhos viu que muita coisa havia mudado. Então, colocou-se a olhar minuciosamente todos os seus traços... Estava abatida, os olhos estavam inchados do choro que não conseguia controlar, um olhar vazio, sem brilho e com algumas rugas precoces; o corpo estava esguio e parecia carregar um grande peso.

Foi então que uma forte angústia lhe invadiu, uma mistura de sentimentos intensos e extremos. Sentiu que suas forças tinham chegado ao fim, acreditava que nunca mais voltaria a si mesma. Foi então que o inesperado ocorreu.

Olhou para si de forma mais profunda, viu que estava viva e que ainda gozava da mesma beleza, apesar das cicatrizes. Todo seu medo aos poucos foi se transformando em força e sua dor em esperança. Compreendeu que neste novo lugar tudo era possível, que se podia ser quem quisesse, e aos poucos sua imagem começou a se transformar.

Seu rosto recuperou a jovialidade, o vigor, o sorriso. Emergiram de seu intimo várias cores, todas as cores que lhe formaram e que foram apagadas com o tempo. Tudo dependia apenas de suas escolhas. Não entendia o que estava acontecendo e de onde vinha todo aquele entusiasmo. Fechou os olhos por alguns instantes e olhou novamente para o espelho.

Um dia, como um espelho quebrado, ela havia se partido para se doar a alguém, acreditava que seria feliz, em vão... Pura insensatez, compreendeu que a dualidade é una em si, apenas. E o seu mundo foi se mesclando com mais cores, mais sorrisos, mais metáforas, mais formas, mais hipérboles, mais...

Olhou-se no espelho e tirou todos os trapos, farrapos, pedaços... o que sobrou era único, belo, real. Naquele dia constatou que a sua verdade nunca deveria ser esquecida, contestada, subestimada, e que sempre é hora de se olhar no espelho e se despir. Mas, alguns ainda preferem esconder os seus espelhos.



Gilciene Santos

Cartas ausentes


Trazia consigo uma flor de afeto na lapela; pequenas algibeiras costuradas por fora com pregas finas sobre as calças, caminhava a passos descuidados, saltitantes, feliz por estar indo pra casa encontrar sua mãe que lhe preparava a refeição.

Amorim se rejubilava com as carícias viçosas de sua mãe. Contava a ela, todos os dias, como havia sido no colégio, qual das frutas havia comido primeiro, quais colegas haviam pedido teco (*), as lições de casa. O orgulho de Henriete era abundante por seu filho, não lhe media gracejos.

À noite, deitava-se em sua cama para ouvir fábulas. Henriete passava uma, duas, às vezes até três horas contando estórias; não se incomodava em permanecer ali, desajeitada, fabulando ao seu filho o quanto fosse necessário para que o sono o alcançasse.

Eram tempos de guerra, o pai de Amorim fora enviado em uma das tropas para campos longínquos, todo mês escrevia-lhe cartas recheadas de atenção, tentando amenizar seus terrores através das meiguices que destinava ao filho. Os versos eram para sensibilizar a vida do filho ao mesmo tempo em que humanizassem seus dias de guerra.

Amorim sentia falta do pai, mas a mãe estava sempre presente, não permitia que se sentisse desamparado um momento sequer.

Os anos foram passando, os natais, as páscoas e os aniversários eram sempre sublinhados pela ausência do pai, que restringia sua presença e participação a uma carta por mês. Amorim revelava-se cada vez mais inconsolável, as lembranças do pai tornavam-se-lhe vagas; fragmentos de palavras contidas em cartas antigas se confundiam com frases orais ditas em breves períodos já remotos. Aos poucos, o pai ia se desfazendo na memória como o vapor da chaleira que se desvanece ao cessar da chama.

*

Um longo e rigoroso inverno molestou a região naquele ano, foi o natal mais impróspero e triste de todos; Henriete não mais conseguia abrandar Amorim, que já se fazia crescido e inquieto com todos os atributos que lhe eram devidos à idade. O dinheiro minguava com as dificuldades que o país passava em guerra e com a falta do marido. Ao cabo do mês de Abril, o sol timidamente começou a surgir, trazendo consigo algum calor, expulsando a neve e a neblina, convocando as flores a apresentarem-se diante dele, com toda a solenidade e respeito que lhe era devido e só elas sabiam fazer com seus desabrochos.

A frieza de ânimo, de Amorim e da mãe, era sutilmente enganada por essas gentilezas da natureza, que lhes atraíam e lhes compraziam. Em agosto, Amorim partiria para a escola normal superior da capital, já estava em idade avançada e não podia esperar mais pelo pai, que mantinha-se fielmente remetendo as cartas todos os meses. A guerra se delongara muito e o pai perdera todo o amadurecimento de Amorim.

No último dia do mês de julho, já terminando seus preparativos e prestes a partir, Amorim recebeu uma carta que havia sido postada por outra pessoa; de fato, já tinha notado certa demora no recebimento da usual missiva do pai, mas não tinha se preocupado, pois logo partiria e depois tomaria informação, através da mãe; além de que, o atraso podia ser uma falha do serviço postal, que às vezes se enganava.

Abriu o envelope cautelosamente, não disfarçando certo receio, e leu a mensagem em voz alta.

Enquanto percorria as palavras datilografadas naquele papel timbrado com a insígnia do exército, seus olhos não compreendiam seu significado, eram palavras soltas, esparsas, que somente no fim da carta adquiriram algum sentido e algum sabor. Amorim sentou-se no sofá a fim de amparar o corpo, a mãe se aproximou timidamente, se abraçaram e Amorim disse que o pai estava morto, num tom de conclusão. Morrera em uma das últimas batalhas da guerra, que agora já havia se encerrado.



(*) pedido um pedaço



Tiago Muzulon


Equilíbrio instável


A tia de Sandra demonstrava inexplicável apreço por mim. Visitávamos pouco Dona Juliana, poucos eram os motivos. Mas a viúva gostava muito de conversar comigo. Fechada para a maior parte das pessoas, olhava-me nos olhos e desandava a falar detalhes que nem sempre me interessavam sobre sua vida.

Doutor Almeida morreu assassinado num churrasco de família. Foi ao banheiro e de lá não saiu mais. Acusaram Valdir, o caseiro, que havia alguns dias vinha reclamando da maneira pouco respeitosa com que era tratado pelo patrão. Não conseguiram prendê-lo. Estava desaparecido desde então. Cheguei a conhecer Valdir. Sujeito calmo, fisionomia leve. Olhos expressivos e inocentes. Difícil crer que tivesse matado Doutor Almeida; ainda mais da maneira como tinha matado. Cravou-lhe um ancinho no crânio. Um episódio estranhíssimo, que a viúva fazia questão de contar em detalhes. Mas sempre com um sorriso condescendente e uns trejeitos de corpo que pareciam puxar seus seios para fora do decote. Mesmo com mais de quarenta, era convidativa a figura de Juliana, como ela insistia que eu a chamasse. Sem o Dona, que ela não era dona de ninguém. E ninguém é meu dono também não, viu? Aquele sorriso...

Uma vida amorosa intrigante e pouco convencional, tinham ela e o marido. Técnicas e modalidades de coito me foram apresentadas em nossas conversas. Chorosa, reclamava da falta que lhe fazia a presença de Astolfo – confessava-se a mim naquelas tardes em que Sandra passava estudando com Marina, as duas trancadas no quarto. De um momento para outro, passei a freqüentador assíduo da casa. Quando chegávamos, Sandra me beijava suavemente na boca e trancava-se com a prima; Juliana separava uma dose de uísque, que eu sorvia ansiosamente, e ela reabastecia quantas vezes eu quisesse. Era nosso segredo, eu muito novo, ela sorrindo condescendente. Bebíamos juntos e, à medida que a conversa evoluía, caíamos sempre na armadilha do assunto “sexo”. As palavras surgiam e falávamos abertamente. Ela admitiu certa vez ter ficado lubrificada após ouvir um episódio vivido por mim.

Fazia um ano e, talvez pelo peculiar da data, o episódio da morte remexia-lhe tanto naquele dia. Juliana contou ter tido relações com o morto em sonho. Rimos daquilo. O sonho se repetiu. Ela entrava em detalhes quanto aos trabalhos de línguas e mãos, além de quase descambar para o linguajar técnico quando se detinha aos genitais, de tão explícita. Experiências gradativamente mais freqüentes e intensas.

Eu insistia que eram apenas sonhos marcantes pela peculiaridade do momento que ela atravessava e pela falta que tais encontros lhe faziam. Ela insistia que não, a gente trepou, dizia, vulgar somente comigo. Era recatadíssima. Não comigo. Certo dia me chamou a seu quarto e mostrou – com aquele sorriso no rosto – o lençol manchado de sangue. Não soube o que argumentar; a prova, vermelha, ratificava o que ela garantia ter acontecido. Foi ele. O Astolfo.

Tanto ela quanto eu sabíamos que aquele equilíbrio instável não duraria por tanto tempo. Foi na cozinha, onde sempre conversávamos. O armário fez tanto barulho que as meninas chegaram a diminuir o som do quarto para tentar identificar a origem daquela chacoalhação. Nem assim, Dona Juliana parou de mexer, pois sentiu que em segundos eu explodiria entre suas coxas ainda tão rígidas. Rosto ao mesmo tempo tranqüilo e excitado, não se intimidou quando a porta do quarto da filha foi aberta no fim do corredor, e passos se aproximavam. Fiquei nervoso e momentaneamente senti que minha energia poderia recuar em vez de extravasar, mas o rosto dela parecia me convencer de que naquele momento só havia eu, ela e nossos fluidos. A filha já vinha chegando perto quando minhas pernas quase falharam, o armário fez um barulho maior ainda, e durante o transe pude senti-la me segurando para que não fosse desperdiçada uma gota. Ajeitou mais ou menos o leve vestido, antes que Marina apontasse na entrada da cozinha o rosto entediado, perguntando que barulho era aquele. A mãe, sorrindo e com as pernas ainda escorrendo, alegou que estávamos procurando algo sob o armário. A filha mascou duas vezes o chiclete, olhou para mim, sorriu com o lado da boca e voltou lá para dentro. Juliana era segura, e viveríamos uma história linda, quente, escura e úmida. Éramos um deslizar infinito de peles.

Em poucos meses, veio a notícia: estava grávida. Preocupei-me, mas ela disse que eu não me incomodasse, o filho não era meu. De súbito, minha vontade foi de voar em seu pescoço. Traidora sem caráter. Contive o impulso, pois o que Sandra iria pensar? De mais a mais, não cabia sentimento de posse em nossa história, tão desprovida de quaisquer limitações ou barreiras. Trepávamos e era a isso que se resumia. Mas a placidez com que ela me contou agrediu-me profundamente. Pudor, talvez fosse o que lhe faltasse. Não exigíamos nada um do outro, mas há limites a serem respeitados até no mais livre dos amores.

Quem? Quem? Eu insistia. Ela bebeu o uísque calmamente, ajeitou a saia. Só então revelou. O pai era o falecido. Como é que é? Ela tinha certeza. Sentia; essas coisas que mulher diz. Dá para saber. Mulher sempre sabe. Era o finado médico, o autor da proeza. Garantiu. Os encontros noturnos entre os dois continuavam, ela não fazia segredo, e eu nada podia fazer. Não tinha como mantê-la acordada permanentemente. Quase não dormia de madrugada imaginando-a com ele, sem a culpa, sem as limitações do mundo real a prender-lhes ao possível, às barreiras físicas e seu confinamento. Para mim, a cozinha. Para ele, todas as dimensões. Não era justo. E agora essa. Desejei que o filho fosse meu, que nascesse com a minha cara. Minha cabeça girava.

Saí da cozinha às pressas, fui chamar Sandra para irmos embora. Não bati na porta antes de entrar bruscamente no quarto e concluí que não era para estudar que as duas se trancavam.

Hoje, não sinto raiva ou indignação. Minha maior angústia é acreditar ter um filho cujo rosto nunca vi. Esses anos talvez tenham sido suficientes para que Sandra tenha esquecido aquele infeliz ocorrido, como eu esqueci. Tudo me parece tão menor do que minha agonia que não consigo ver crime em duas moças se descobrindo. Não me sinto traído, nem sinto tê-la traído com Juliana. Nosso namoro inocente foi a parte menos relevante de tudo aquilo.

Decidi voltar à casa da mulher de quem fugi com tantas perguntas na cabeça, para vê-la – e à criança. Minha curiosidade me consome. Talvez seja a ânsia de conhecer meu filho ou de ver com meus olhos, caso a versão dela prevaleça, a materialização de um encontro tão insólito. Nego-me a concordar com as idéias absurdas da viúva quanto a seus encontros com Astolfo. A solidão pode destruir a mais sã das consciências. Vai ver é isso. O filho tem que ser meu. Ainda assim, algo inconsciente não me deixa descartar por completo a possibilidade estapafúrdia de o finado tê-la de fato engravidado em um sonho. Não sei, acho que o que mais quero mesmo é comer novamente aquela mulher.

Toco a campainha. Ela abre. Surpresa, dá um gritinho seguido de um sorriso quase aliviado. Está idêntica a antes. Veste um robe japonês, que havia estreado comigo em nosso último encontro. Pede que eu entre. Serve um uísque no copo em que eu gostava de beber. Duas pedras de gelo e umas gotinhas de água tônica, como ela dizia. Está sozinha em casa. O filho dorme no quarto. Não comenta nada além disso sobre o garoto. Sem me repreender pela longa ausência, pergunta se eu me lembro do robe. Sorrio e digo que sim. Ela me beija e vamos para a cama.

No dia seguinte, acordo com uma voz de criança chamando e batendo na porta. Um calafrio me desce pela coluna e divide-se pelas pernas até as unhas dos pés.

Ela levanta, corre para a porta e a abre. O moleque entra.

O rosto do garoto me é familiar. Em pouco tempo, lembro. É a cara do Valdir, o caseiro.


André Tartarini

Folha seca




Reminiscências




Aquele homem leva uma vida de autômato. Não por estar aposentado, muito menos por ignorância ou estupidez. Por falta de direção e sentido. Ao contrário de quando era responsável pelo destino de milhares de pessoas no comando de uma aeronave. Morreu-lhe a mulher, de câncer, há pouco mais de um ano. Com ela compartilhou quarenta anos de vida.

Acabara de chegar em casa. Entrou na sala e lembrou-se do cachorro ausente. O animal de estimação o recebia com festa. 0 cão seguiu o destino da esposa, depois de meses sem abanar o rabo. Não suportou a perda. O homem sentiu-se envergonhado; O cachorro conviveu com a dona apenas dez anos e se entregou a uma prova de amor superior à dele. É assim que se sentia e jurou não procurar outro calor na ausência da mulher. O coração em turbulência não suportava a saudade. Viu, na estante da sala, a foto do único filho. Mora no exterior, visita o Brasil uma vez ao ano. No Natal. Seguiu o próprio rumo e também não pertence mais àquele homem.

Caminhou até a cozinha para beber água. Viu a gaiola num canto na área de serviço. Vazia. Desde o dia em que decidiu abrir a portinhola e deixar os canarinhos partirem. Para que o canto não lhe trouxesse lembranças. "Quê que ela tá fazendo aqui?", surpreendeu-se o homem. Ele ordenara a empregada a se livrar daquela cela solitária havia muito tempo.

Na prateleira de um dos quartos, viu os livros esquecidos. "Pra quê ler?" Só tinha prazer nas leituras ao lado da mulher. As histórias ganhavam vida. Ele na poltrona da sala, a companheira na cadeira de balanço, fazendo crochê. A cadeira se encontrava ali, paralítica. Movimentos apenas nas recordações. Viagens não têm mais sentido sem a mulher. Os pães não possuem o mesmo sabor. Nem o café. A cafeteira ainda é vermelha, as marcas do pó e do filtro de papel são as mesmas, mas o café passado pela empregada, há poucos meses naquela casa, jamais soube acompanhar o leite com dignidade. A esposa preparava todas as refeições. Para o homem, ninguém a substituirá.



Reflexos



Era início de noite, acabara de voltar de uma caminhada pelas ruas do bairro, momento em que tentava aterrissar e reabastecer-se. Entrou no quarto, abriu a porta do armário para retirar algo e cristalizou o olhar diante do espelho. A imagem replicada o perturbou. Não sabia o porquê. Era como se o rosto fosse o espelho das angústias. "É uma fotocópia perfeita de nossas imperfeições. Será que é pra isso que serve? E se não existisse? As mulheres se sentiriam mais belas? Os homens mais jovens? As crianças mais felizes? Os velhos mais dignos?". As abstrações começaram a inquietá-lo.

Lembrou-se de um dos contos de Jorge Luis Borges, um dos escritores preferidos na época em que gostava de ler. Não se recordava da história, apenas de uma frase que o incomodou naquele momento. "Os espelhos têm algo de monstruoso. Os espelhos e a cópula são abomináveis, porque multiplicam número de homens".

Tirou a roupa e ficou mirando o espelho. A imagem refletida, implacável, atravessou-lhe o espírito, embora ele não conseguisse entrar na alma do espelho. A calvície avançava, a barriga crescera, os cabelos brancos no peito arrancavam das raízes sentimentos profundos. O coração palpitou. As rugas simbolizavam a ampulheta do tempo a sinalizar os caminhos traçados em direção ao fim, o pênis acentuara sua pequenez diante da vida fugaz.

Concluíra que o espelho não enganava, ao contrário, ia fundo, era lente de aumento a refletir os desenganos. "Ao duplicar o número de homens, a desilusão". Abaixou-se, enfiou a mão no bolso da calça, que se encontrava no chão, apagou a luz do quarto, voltou para diante do espelho e acendeu um isqueiro. Viu diante de si o monstro de Borges. Não viu a saudade, porém a sentiu duplicada. Tremeu por dentro, como no dia do enterro da esposa. Não suportava a ausência da mulher. E temia o inevitável. Sabia que era uma aeronave sem conserto, manutenção quase impossível, máquina cujos motores silenciariam em breve. Cerrou o punho, socou o monstro, a vista escureceu, estatelou-se no chão. Os cacos de vidro machucaram menos que a imagem refletida no espelho.



Adriano Macedo


A Cidade do Sol


Mariam tinha cinco anos quando ouviu pela primeira vez a palavra harami.

Foi numa quinta-feira. Não poderia ter sido em outro dia, porque ela se lembrava de estar inquieta e preocupada, e só ficava assim às quintas-feiras, quando Jalil vinha visitá-la na kolba onde morava.

Para passar o tempo, até a hora em que finalmente o veria, atravessando a grama da clareira, que lhe batia nos joelhos, e acenando para ela, Mariam desceu da prateleira o serviço de porcelana chinesa de Nana.

Esse serviço de chá era a única relíquia que sua mãe tinha herdado de sua avó, que morreu quando Nana tinha dois anos de idade. Ela adorava cada uma daquelas peças de porcelana azul e branca: a curva graciosa do bico do bule, os pássaros e os crisântemos pintados à mão, o dragão do açucareiro, destinado a espantar os maus espíritos.

Foi esta última peça que escapuliu das mãos da menina e se espatifou no chão da kolba.Quando Nana viu o açucareiro, seu rosto ficou vermelho, seu lábio superior começou a tremer e seus olhos, tanto o vesgo quanto o bom, se detiveram em Mariam de um jeito inexpressivo, sem sequer piscar.

A mãe parecia tão furiosa que Mariam teve medo de que um jinn fosse se apoderar de seu corpo novamente. Mas o gênio não veio, não desta vez. O que aconteceu foi que Nana agarrou Mariam pelos pulsos, puxou-a para bem perto de si e disse, entre dentes:

- Você é uma harami desastrada. Vejam só a minha recompensa por tudo o que tive de agüentar: uma harami desastrada, que quebra a louça de família.

Na hora, Mariam não entendeu nada. Não conhecia aquela palavra, harami, e não sabia que significava "bastarda". Tampouco tinha idade suficiente para avaliar aquela injustiça, para ver que a culpa é dos que geram os harami, e não dessas crianças cujo único pecado foi ter nascido.

É claro que, pelo jeito como Nana disse aquela palavra, a menina deduziu que ser harami era uma coisa ruim, repugnante, como um inseto, como aquelas baratas que a mãe estava sempre maldizendo e varrendo para fora da kolba.

Tempos depois, já mais velha, entendeu enfim. Foi o jeito como Nana pronunciou a palavra - quase como se a cuspisse na sua cara - que fez com que Mariam se sentisse atingida por ela. Então entendeu o que a mãe estava querendo dizer, que um harami era algo indesejável, que ela, Mariam, era um ser ilegítimo que nunca teria condições de exigir o que as outras pessoas possuíam, como amor, família, aceitação ou mesmo um lar.Jalil nunca a chamava assim.

Dizia que ela era a sua florzinha. Gostava de pegá-la no colo e lhe contar histórias, como daquela vez que lhe contou que Herat, a cidade onde Mariam nasceu em 1959, foi o berço da cultura persa, onde viviam escritores, pintores e sufis.

- Era impossível esticar a perna sem dar um chute no traseiro de um poeta - disse ele, rindo.

Jalil lhe contou também a história da rainha Gauhar Shad, que, no século XV, mandou erguer os célebres minaretes da cidade como uma ode de amor a Herat. Ele descreveu os trigais verdejantes que a cercavam, os seus pomares, os seus vinhedos carregados de frutos, os seus bazares abobadados e repletos de gente.

- Há um pé de pistache, Mariam jo - disse-lhe um dia Jalil -, debaixo do qual está enterrado ninguém menos que o grande poeta Jami.

Inclinou-se para frente e sussurrou: - Jami viveu há cerca de quinhentos anos. É verdade. Levei você até lá uma vez, para ver a árvore. Você era bem pequena. Não deve se lembrar.

Ele tinha razão. Mariam não se lembrava disso. E, embora tenha passado os primeiros 15 anos de sua vida nos arredores de Herat, nunca viu essa célebre árvore.

Nunca viu os famosos minaretes de perto, nunca colheu frutos dos pomares da cidade ou passeou pelos seus campos de trigo. Mas sempre que Jalil contava aquelas histórias, Mariam o ouvia, encantada. Admirava Jalil pelo tanto que conhecia do mundo. Estremecia de orgulho por ter um pai que sabia tantas coisas.

- Quantas mentiras! - exclamou Nana depois que Jalil tinha ido embora.

- Um ricaço mentiroso, é isso que ele é! Nunca levou você para ver árvore nenhuma. E não se deixe seduzir. O seu adorado paizinho nos traiu. Ele nos expulsou, nos botou para fora da sua bela casa como se não valêssemos nada. E fez isso feliz e contente.

Mariam só ficava ouvindo, sem nenhuma convicção. Nunca teve coragem de dizer a Nana que não gostava nada, nada de vê-la falar assim de Jalil. Na verdade, perto dele, não se sentia uma harami. Toda quinta-feira, por uma ou duas horas, quando Jalil vinha vê-la, todo sorrisos e cheio de presentes e carinhos, Mariam se sentia digna das belezas e das coisas boas que a vida tinha para oferecer. E, por isso, amava Jalil.

Mesmo tendo que dividi-lo com outras pessoas.Jalil tinha três esposas e nove filhos, nove filhos legítimos, e Mariam não conhecia nenhum deles. Era um dos homens mais ricos de Herat. Era dono de um cinema, que Mariam jamais tinha visto, mas que Jalil descreveu para ela depois de muita insistência da menina.

Portanto, conhecia a fachada de azulejos azuis e terracota, sabia que tinha um balcão com lugares privativos e um teto de treliça.

E conhecia também as portas de duas folhas que se abriam para um saguão azulejado onde havia pôsteres de filmes indianos em vitrines emolduradas. Às terças-feiras, segundo lhe disse Jalil, as crianças podiam tomar sorvete de graça na bombonière.

Nana ouviu isso com um sorriso de desdém. Esperou ele sair da kolba para dizer, com uma risadinha:

- Os filhos dos estranhos ganham sorvete. E para você, Mariam, o que ele tem a dar? Histórias de sorvete...

Além do cinema, Jalil também era proprietário de terras em Karokh e em Farah, tinha três lojas de tapetes, uma de roupas e um Buick Roadmaster preto, modelo 1956. Era um dos homens mais bem relacionados de Herat, amigo do prefeito e do governador da província. Tinha uma cozinheira, um motorista e três empregadas.

Nana havia sido uma dessas empregadas. Até a sua barriga começar a crescer.Quando isso aconteceu, nas palavras da própria Nana, a sufocação coletiva da família de Jalil foi tão grande que parecia até que toda Herat tinha ficado sem ar.

Seus sogros e cunhados juraram que haveria derramamento de sangue. Suas esposas exigiram que ele a pusesse para fora daquela casa. O próprio pai de Nana, um humilde entalhador de Gul Daman, uma aldeia vizinha, a repudiou.

Vendo-se caído em desgraça, fez as malas e embarcou num ônibus para o Irã. E nunca mais se ouviu falar dele.

- Às vezes - disse-lhe Nana certa manhã, bem cedinho, enquanto alimentava as galinhas no quintal da kolba - gostaria que meu pai tivesse sido homem bastante para afiar um dos seus cinzéis e tomar a atitude mais honrada. Teria sido melhor para mim. - Atirou mais um punhado de grãos no cercado, fez uma pausa, e olhou para a filha. - E acho que não só para mim.

Você teria sido poupada da dor de saber que é o que é. Mas meu pai era um covarde. Não tinha dil, não tinha coragem para tanto.Nem Jalil, acrescentou Nana. Ele também não teve coragem de agir como um homem honrado, enfrentando a família, as esposas, os sogros e os cunhados, e assumindo a responsabilidade por seus atos.

Tudo o que fizeram foi chegar a um acordo, a portas fechadas, para salvar as aparências.Logo no dia seguinte, Jalil mandou que ela juntasse os seus poucos pertences lá no quarto das empregadas e fosse embora.- Sabe o que ele disse às suas esposas para se defender? Que fui eu quem forcei aquela situação. A culpa era minha. Didi? Está vendo só? Isso é que é ser mulher neste mundo.

Nana pôs no chão a tigela com a comida das galinhas e ergueu o rosto de Mariam com um dos dedos.

- Olhe para mim.A menina obedeceu, com alguma relutância.- Aprenda isso de uma vez por todas, filha: assim como uma bússola precisa apontar para o norte, assim também o dedo acusador de um homem sempre encontra uma mulher à sua frente. Sempre. Nunca se esqueça disso, Mariam.

Para Jalil e suas esposas, eu era uma erva-de-passarinho. Uma ciganinha. Nós duas éramos. E olhe que você ainda nem tinha nascido.

- O que é uma ciganinha? - indagou Mariam.- É uma planta - disse Nana. - Daquelas que a gente arranca e joga fora.

Mariam fez cara feia por dentro. Jalil não a tratava como uma planta assim. Nunca. Mas a menina achou que era melhor ficar calada.

- Só que, à diferença dessas ervas daninhas, eu tinha de ser replantada, entende, e tinha que receber água e comida. Por sua causa. Foi isso que ele combinou com a família - disse Nana, acrescentando que tinha se recusado a ficar morando em Herat.

- Para quê? Para vê-lo passar de carro pela cidade, com suas esposas kinchini?Disse ainda que tampouco quis morar na casa de seu pai, na aldeia de Gul Daman, que ficava no alto de uma colina, a dois quilômetros ao norte de Herat. Preferiu ir viver num lugar afastado, distante, onde os vizinhos não ficariam olhando para a sua barriga, apontando para ela na rua, rindo, ou, o que seria ainda pior, cercando-a de uma gentileza que não era sincera.

- E acredite - acrescentou Nana -, o seu pai ficou muito aliviado por me ter bem longe. Foi a decisão perfeita para ele.

Foi Muhsin, o filho mais velho de Jalil com sua primeira esposa, Khadija, quem sugeriu aquela clareira que ficava nos arredores de Gul Daman. Para se chegar até lá, era preciso pegar uma estradinha de terra que subia morro acima saindo da estrada que ligava Herat ao vilarejo.

A tal estradinha era bordejada de um capim alto, pontilhado de flores brancas e amarelas. Ia serpenteando pela encosta da colina até desembocar num terreno plano recoberto de choupos, faias e tufos de arbustos silvestres. Lá de cima, avistavam-se as pás enferrujadas do moinho de vento de Gul Daman, à esquerda, e, à direita, estendia-se a cidade de Herat.

O caminho ia dar pertinho de um riacho bem largo e repleto de trutas que descia das montanhas Safid-koh ao redor de Gul Daman. Cerca de duzentos metros acima, havia um pequeno bosque de salgueiros-chorões e, bem no meio, à sombra das árvores, ficava a clareira.Jalil foi até lá para ver o local. Quando voltou, disse Nana, parecia um carcereiro se vangloriando das paredes impecáveis e do piso reluzente da sua cadeia.- E foi assim que o seu pai construiu essa toca de ratos para nós.Quando tinha 15 anos, Nana quase se casou.

O pretendente era um rapaz de Shindand, um jovem vendedor de periquitos. Foi ela própria quem contou essa história a Mariam e, embora a mãe parecesse menosprezar o episódio, a menina bem sabia, pelo brilho melancólico que via em seus olhos, que ela tinha sido feliz. Pela única vez na vida, talvez, nos dias que antecederam esse tal casamento, Nana tinha sido genuinamente feliz.Quando a mãe lhe contou essa história, Mariam se sentou no seu colo e ficou imaginando Nana sendo preparada para se vestir de noiva.

Pôde vê-la a cavalo, sorrindo timidamente sob o véu de seu traje verde, as palmas das mãos pintadas com hena vermelha, o repartido do cabelo enfeitado com purpurina prateada, as tranças impregnadas de seiva de árvore. Viu também músicos tocando a flauta shahnai e os tambores dohol, as crianças gritando e acompanhando o cortejo pelas ruas.Só que, uma semana antes da data marcada, um jinn penetrou no corpo de Nana.

Ninguém precisava descrever para Mariam essa parte da história, pois a menina já havia testemunhado a cena com os próprios olhos, inúmeras vezes: Nana caindo no chão de repente, com o corpo todo se enrijecendo, os olhos se revirando, os braços e as pernas tremendo, como se algo a estivesse sufocando por dentro, e, nos cantos da boca, aquela espuma branca, por vezes rosada de sangue. Depois, vinha aquele torpor, aquele desnorteamento assustador, aqueles murmúrios incoerentes.

Quando a notícia chegou a Shindand, a família do vendedor de periquitos cancelou o casamento. "Eles ficaram apavorados", como disse a própria Nana.O vestido de noiva foi enfurnado em algum lugar. E, desde então, não apareceu mais nenhum pretendente.Na clareira, Jalil e dois de seus filhos, Farhad e Muhsin, construíram a pequena kolba onde Mariam viveria os primeiros 15 anos de sua vida.

O casebre era feito de tijolos rústicos e recoberto de barro com punhados de palha. Lá dentro, havia dois catres, uma mesa de madeira, duas cadeiras de encosto reto, uma janela e algumas prateleiras pregadas na parede, onde Nana guardava os potes de argila e o seu tão amado jogo de porcelana chinesa. Jalil instalou ali um fogareiro de ferro para o inverno e fez uma cerca de toras de madeira nos fundos da cabana. Pôs ainda um tandoor no quintal, para elas assarem o pão, e fez um galinheiro com uma cerca.

Comprou uns poucos carneiros e construiu um cocho para os animais. Mandou Farhad e Muhsin cavarem um buraco bem fundo a uns duzentos metros do círculo de salgueiros, e construiu uma latrina no local.Jalil podia ter contratado operários para a construção da kolba, observou Nana, mas não contratou.- Para ele, aquilo era uma espécie de penitência - disse ela.Pelo que Nana dizia, no dia em que Mariam nasceu não apareceu ninguém para ajudar. Foi num daqueles dias úmidos e nublados da primavera de 1959, no vigésimo sexto dos quarenta anos, em sua maioria tranqüilos, do reinado de Zahir Shah.

Jalil não se deu o trabalho de chamar um médico, ou sequer uma parteira, acrescentou ela, embora soubesse que o jinn poderia penetrar no seu corpo e provocar uma daquelas convulsões no momento do parto. Nana ficou ali sozinha, deitada no chão da kolba, com uma faca ao seu lado e o corpo banhado em suor.- Quando a dor piorava, eu mordia um travesseiro e gritava até ficar rouca. Mesmo assim, não aparecia ninguém para enxugar o meu rosto ou me dar um gole de água. E você, Mariam jo, parecia não ter pressa alguma. Por quase dois dias, você me fez ficar ali deitada, naquele chão frio e duro. Não comi nem bebi nada. Só fazia força e rezava para você sair.

- Sinto muito, Nana.- Cortei o cordão que nos ligava. Foi para isso que peguei a faca.- Sinto muito, Nana.

Nesse momento, Nana sempre esboçava um sorriso sofrido, e Mariam não sabia ao certo se aquilo significava uma recriminação persistente ou um perdão relutante. Não passava pela cabeça da menina como era injusto pedir desculpas pela maneira como nasceu.

Quando isso finalmente aconteceu, lá por volta dos seus dez anos, Mariam deixou de acreditar naquela história do seu nascimento. Acreditava sim na versão de Jalil que lhe disse que, mesmo estando longe, tinha conseguido mandar Nana para um hospital em Herat, onde ela seria atendida por médicos e teria uma cama limpa e decente num quarto bem iluminado. Jalil abanou a cabeça tristemente quando a garota mencionou o detalhe da faca.Mariam passou também a duvidar de que tivesse feito a mãe sofrer por dois dias seguidos.

- Pelo que me contaram o parto durou, ao todo, menos de uma hora - disse Jalil. - Você sempre foi uma boa filha, Mariam jo. Mesmo na hora de nascer foi uma boa filha.- Ele nem estava aqui! - esbravejou Nana.

- Estava em Takht-e-safar, andando a cavalo com seus amiguinhos queridos.Quando lhe disseram que era uma menina, acrescentou Nana, Jalil deu de ombros, continuou a escovar a crina do cavalo e ficou mais duas semanas em Takht-e-safar.

- Na verdade, ele sequer a pegou no colo até que você tivesse completado um mês. E, mesmo assim, apenas a olhou, comentou que você tinha um rosto comprido e a devolveu para mim.

Mariam acabou desacreditando também dessa parte da história. Jalil admitia que estava cavalgando em Takht-e-safar, mas, quando chegou a notícia, não se limitou a dar de ombros. Pulou no cavalo e voltou para Herat. Embalou a filha nos braços, passou o dedo por aquelas sobrancelhas ralas, cantarolou uma cantiga de ninar. Mariam não conseguia imaginar Jalil dizendo que ela tinha um rosto comprido, embora fosse verdade.Nana disse que foi ela que escolheu o nome Mariam, porque era o de sua mãe.

- Quem escolheu fui eu - disse Jalil -, porque, na nossa língua, esse é o nome de uma linda flor.

- A sua favorita? - indagou a menina.

- Bom, uma delas - respondeu ele, sorrindo.


Khaled Hosseini


Trecho do Livro "A Cidade do Sol".

O Mundo de Sofia


Sofia Amundsen voltava da escola para casa.

Percorrera a primeira parte do caminho em companhia de Jorunn, sua colega de classe.

Tinham conversado sobre robôs. Jorunn considerava o cérebro humano um computador complicado. Sofia não estava bem certa se concordava com isto. O ser humano não seria algo mais do que uma máquina?

Quando passaram pelo supermercado, cada uma tomou o seu rumo. Sofia morava no final de um bairro extenso, com belas casas, e tinha que andar quase o dobro de Jorunn para voltar da escola.

Sua casa parecia ficar no fim do mundo, pois atrás do quintal não havia outras casas, só a floresta.

Dobrou a rua Kløverveien. Bem no fim, a rua formava uma curva fechada, chamada de “a curva do capitão”. Só aos sábados e domingos viam-se pessoas por ali.

Era um dos primeiros dias de maio. Em alguns jardins, densas coroas de narcisos floriam sob as árvores de frutas. As bétulas pareciam vestidas de finas capas de florescências verdes. Não era curioso como nesta época do ano tudo começava a crescer e a medrar? Como se explicava que quilos e quilos da substância verde das plantas pudessem brotar da terra sem vida quando o tempo ficava mais quente e os últimos resquícios de neve desapareciam?

Sofia olhou a caixa de correio, antes de abrir o portão do jardim. Em geral havia um monte de folhetos de propaganda e alguns envelopes grandes para sua mãe. Sofia costumava colocar toda a correspondência sobre a mesa da cozinha, antes de ir para o seu quarto fazer a lição de casa.

Para o seu pai vinham às vezes só alguns extratos bancários, o que não era de se estranhar, pois afinal de contas ele não era um pai como os outros. O pai de Sofia era capitão de um petroleiro e passava quase todo o ano viajando.

Quando voltava para casa por algumas semanas, ficava andando pela casa de chinelos e dedicava toda a sua atenção a Sofia e a sua mãe. Mas a proximidade desses momentos desaparecia por completo quando ele estava em serviço.

Hoje havia na grande caixa verde de correio apenas uma pequena carta — e ela era para Sofia.

“Sofia Amundsen”, estava escrito no pequeno envelope. “Kløverveien, 3.” Era tudo; não havia remetente. A carta não estava sequer selada.

Assim que Sofia entrou, abriu o envelope. Dentro encontrou apenas uma pequena folha, não maior do que o envelope que a continha. Nela estava escrito: Quem é você?Nada mais. A mensagem não tinha qualquer fórmula de saudação, tampouco um remetente, só estas três palavras escritas a mão, seguidas de um grande ponto de interrogação.

Ela olhou mais uma vez o envelope. Estava certo… a carta era mesmo para ela. Mas quem a teria colocado na caixa de correio? Sofia fechou rapidamente a porta da casa, cuja fachada era pintada de vermelho. Como de costume, o gato Sherekan conseguiu sair furtivamente do meio dos arbustos, saltar sobre o patamar da escada e enfiar-se dentro de casa, antes que Sofia conseguisse fechar a porta.

— Miau, miau, miau!

Quando a mãe de Sofia ficava irritada por algum motivo, ela às vezes dizia que sua casa parecia uma menagerie, isto é, uma espécie de zoológico particular. De fato, Sofia estava muito satisfeita com sua coleção de bichinhos. Primeiro ela ganhou um aquário com peixes ornamentais, a quem deu os nomes de Cachinhos Dourados, Chapeuzinho Vermelho e Peter, o Pretinho. Depois vieram os periquitos Tom e Jerry, a tartaruga Govinda e finalmente Sherekan, um gato malhado.

Todos os bichos serviam como uma espécie de indenização por sua mãe sair sempre tão tarde do trabalho e por seu pai ficar viajando tanto pelo mundo.Sofia jogou a mochila da escola num canto e colocou uma tigela de ração para Sherekan. Depois, segurando a carta misteriosa, largou o corpo sobre um banquinho da cozinha.

Quem é você?Se ela soubesse! É claro que ela era Sofia Amundsen, mas quem era esta pessoa? Isto ela ainda não tinha descoberto direito.

E se tivesse outro nome? Anne Knutsen, por exemplo. Será que só por isso seria também uma outra pessoa?

De repente lembrou-se de que no começo seu pai queria que ela se chamasse Synnøve Amundsen. Sofia tentou imaginar-se estendendo a mão e apresentando-se como Synnøve Amundsen. Não, não dava. Toda vez que pensava nisso imaginava sempre outra pessoa.

Então saltou do banquinho e foi para o banheiro com a carta misteriosa na mão. Parou diante do espelho e olhou-se fixamente nos olhos.

— Sou Sofia Amundsen — disse.

Como resposta, a garota do espelho não teve a menor reação. Não importava o que Sofia fizesse, ela fazia a mesma coisa. Com um movimento rápido, Sofia tentou se antecipar à imagem do espelho; mas ela foi igualmente rápida.

— Quem é você? — perguntou Sofia.

Também desta vez não recebeu qualquer resposta; por um breve instante, porém, não teve certeza de ter sido ela ou sua imagem no espelho quem tinha feito a pergunta. Com o dedo indicador, Sofia apertou o nariz da figura do espelho e disse:

— Você sou eu. E como não recebeu qualquer resposta, inverteu a sentença e disse:

— Eu sou você.

Sofia Amundsen nunca estava muito satisfeita com sua aparência. Com freqüência ouvia que tinha lindos olhos amendoados, mas provavelmente lhe diziam isto porque seu nariz era pequeno demais em relação ao tamanho da boca. O pior de tudo eram mesmo os cabelos lisos, que não tomavam forma nenhuma. Às vezes seu pai lhe acariciava os cabelos e a chamava de “a garota dos cabelos de linho”, parodiando uma composição de Claude Debussy.

Para ele era fácil dizer isto; afinal, não era ele quem estava condenado a carregar a vida inteira cabelos pretos e escorridos de tão lisos. E nos cabelos de Sofia não adiantava passar nada, nem spray, nem gel.

Às vezes ela achava sua aparência tão estranha que se perguntava se não teria sido um bebê malformado. Sua mãe sempre contara que tivera um parto difícil. Mas será que era mesmo o nascimento que determinava a aparência de uma pessoa?

Não era um tanto esquisito ela não saber quem era? E também não era uma injustiça o fato de ela mesma não poder determinar sua aparência? Isto simplesmente lhe tinha sido imposto ao nascer. Seus amigos, estes sim ela talvez pudesse escolher, mas não tinha tido a chance de escolher-se a si própria. Não tinha sequer decidido ser uma pessoa.

O que era uma pessoa?Sofia olhou de novo a moça no espelho.

— Acho que agora prefiro ir fazer minha lição de casa — disse, como que tentando se desculpar.

No momento seguinte já estava no corredor.

Não, prefiro ir até o jardim, pensou.

— Miau, miau, miau!

Sofia espantou o gato para a escada de fora e fechou a porta.

Quando já estava no jardim, caminhando no passeio de saibro com a carta misteriosa na mão, experimentou subitamente uma sensação estranha. Sentiu-se como uma boneca que ganhara vida por uma varinha de condão.

Não era extraordinário estar viva naquele momento e ser personagem de uma aventura maravilhosa como a vida?

Sherekan saltou elegantemente sobre o passeio de saibro e desapareceu na groselheira, que se erguia bem ao lado. Era um gato muito vivo, cheio de uma energia vibrante que ia dos bigodes brancos até a ponta da cauda chicoteante. Ele também estava ali no jardim, mas certamente não tinha consciência disso do mesmo modo como Sofia.

Depois de pensar um pouco sobre o fato de existir, Sofia não pôde deixar de pensar também que um dia desapareceria.

Estou vivendo no mundo agora, pensou. Mas um dia terei desaparecido.

Será que havia uma vida após a morte? Também sobre esta questão o gato não fazia a menor idéia.

Há pouco tempo a avó de Sofia tinha morrido. Por mais de meio ano, Sofia sentia todos os dias a falta que sua avó lhe fazia. Não era injusto que um dia a vida tivesse um fim?

Cismada, Sofia parou um instante no passeio de saibro. Tentou concentrar todo o seu pensamento no fato de existir, a fim de esquecer que um dia deixaria de existir. Mas não conseguia. No mesmo instante em que se concentrava no fato de existir, pensava também que um dia morreria. E o mesmo ocorria ao contrário: só quando sentiu intensamente que um dia desapareceria é que pôde entender exatamente o quanto a vida era infinitamente valiosa.

E quanto maior e mais clara era uma face da moeda, tanto maior e mais clara se tornava a outra. Vida e morte eram os dois lados de uma mesma coisa.

Não se pode experimentar a sensação de existir sem se experimentar a certeza que se tem de morrer, pensou. E é igualmente impossível pensar que se tem de morrer sem pensar ao mesmo tempo em como a vida é fantástica.

Sofia lembrou-se de que sua avó dissera algo semelhante no dia em que soube de sua doença.

— Só agora entendo o quanto a vida é rica — foram suas palavras.

Não era triste que a maioria das pessoas tivesse primeiro que ficar doente para só então entender o quanto a vida é bela? Ou então que tivessem de encontrar uma carta misteriosa na caixa de correio?

Talvez fosse melhor verificar se não havia chegado mais alguma coisa. Sofia correu até o portão e examinou o que havia dentro da caixa de correio. E estremeceu da cabeça aos pés ao descobrir outro envelope idêntico ao primeiro. Será que ela verificara direito se a caixa estava realmente vazia da primeira vez que apanhou a correspondência?

O outro envelope também trazia o seu nome. Abriu-o e tirou uma pequena folha de papel, igual à primeira, em que estava escrito:De onde vem o mundo?

Não faço a menor idéia, pensou Sofia. Mas também ninguém sabe! E apesar disso Sofia achou a pergunta pertinente. Pela primeira vez em sua vida ela pensava que era praticamente impossível viver num mundo sem ao menos perguntar de onde ele vinha.

Sofia estava tão perturbada com as duas cartas misteriosas que resolveu se enfiar em sua caverna. A caverna era o seu esconderijo secreto. E ela só ia para lá quando estava muito brava, muito triste ou muito alegre. Hoje ela estava muito confusa."


Jostein Gaarder


Trecho do Livro "O Mundo de Sofia".

O Beijo das Sombras



Senti o medo dela antes de ouvir seus gritos.

O pesadelo dela pulsou dentro de mim, arrancando-me do meu próprio sonho, onde eu estava numa praia e Orlando Bloom passava óleo de bronzear no meu corpo. Imagens — dela, não minhas — invadiram-me a mente: fogo e sangue, o cheiro da fumaça, a lataria retorcida de um carro. As figuras me circundavam, me embrulhavam, me sufocavam, até que alguma parte racional do meu cérebro me lembrou de que aquele não era o meu sonho.

Acordei, mechas de cabelos negros e compridos estavam grudadas na minha testa. Lissa estava deitada em sua cama debatendo-se e gritando. Eu pulei da minha cama, cruzei rapidamente os poucos centímetros que nos separavam.

— Liss — disse eu, sacudindo-a. — Liss, acorde.

Os gritos cessaram, substituídos por um pranto leve:

— Andre — ela gemeu. — Ai, meu Deus.

Eu a ajudei a se sentar.

— Liss, você não está mais lá. Acorde.

Depois de alguns minutos, seus olhos se abriram, hesitantes, e, sob a luz fraca, pude ver um lampejo de consciência começando a ocupar sua mente. A respiração frenética foi se acalmando, e ela se recostou em mim, descansando a cabeça no meu ombro. Eu a abracei e passei a mão sobre os seus cabelos.

— Tudo bem — disse a ela calmamente. — Está tudo bem.

— Eu tive aquele sonho.

— É. Eu sei.

Nós ficamos sentadas ali durante algum tempo, sem dizer mais nada. Quando senti que ela estava se acalmando, inclinei-me em direção à mesinha de cabeceira que ficava entre as nossas camas e acendi o abajur. A luz era fraca, mas nenhuma de nós precisava de muita claridade para enxergar. Atraído pela luz, Oscar, o gato do rapaz que dividia a casa conosco, saltou para dentro pela janela aberta.

Ele recuou para longe de mim — por alguma razão, os animais não gostam de dampiros — mas subiu na cama e roçou a cabeça em Lissa, ronronando baixinho. Os animais não têm problema algum com os Moroi, e todos amavam Lissa de modo especial. Sorrindo, ela acariciou-lhe o queixo, e eu senti que ela ia gradualmente se acalmando.

— Quando foi a última vez que você se alimentou? — perguntei, estudando-lhe a fisionomia. Sua pele clara estava mais pálida do que de costume. Círculos escuros se estendiam embaixo dos olhos, e ela parecia enfraquecida. Tinha sido uma semana puxada na escola, e eu não conseguia lembrar quando fora a última vez que eu fornecera sangue a ela.

— Foi há... mais de dois dias, não foi? Três? Por que você não disse nada?

Ela deu de ombros e evitou o meu olhar.

— Você estava ocupada. Eu não quis...

— Ocupada? Que se dane — disse eu, mudando de posição. Era de se esperar que ela parecesse tão fraca. Oscar, evitando a minha aproximação, saltou da cama e voltou para a janela, de onde podia assistir a tudo a uma distância segura.

— Venha. Vamos fazer isso.

— Rose...

— Venha. Você vai se sentir melhor.

Eu inclinei a cabeça e joguei meu cabelo para trás, deixando o pescoço à mostra. Ela hesitou, mas a visão do meu pescoço e do que ele oferecia era tentadora demais. Uma expressão de fome invadiu-lhe o rosto, e seus lábios se abriram levemente, expondo os caninos que ela normalmente mantinha escondidos enquanto circulava entre os humanos.
Aqueles caninos contrastavam estranhamente com o resto de suas feições. Seu belo rosto e os cabelos louro claros faziam com que ela parecesse mais um anjo do que uma vampira. Assim que seus dentes se aproximaram da minha pele nua, eu senti o coração disparar num misto de medo e ansiedade. Sempre detestei sentir essaexpectativa, mas era inerente a mim, uma fraqueza que eu não conseguia conter.

Seus caninos me rasgaram a pele, com força, e eu dei um grito sentindo a breve chama da dor. Depois passou e se transformou numa imensa e maravilhosa alegria que se espalhou por todo o meu corpo. Era melhor do que todas as vezes em que eu estivera bêbada ou chapada.
Era melhor do que sexo — ou pelo menos eu imaginava que fosse, uma vez que nunca fizera sexo. Era um cobertor de puro prazer, de um prazer refinado que me cobria e trazia a promessa de que tudo ficaria bem no mundo. E o prazer continuava a me preencher. A química da sua saliva disparava uma onda de endorfina, e eu perdia a noção do mundo, perdia a noção de quem eu era.

Então, infelizmente, acabou. Demorara menos de um minuto.
Ela se afastou, passando as costas das mãos nos lábios, enquanto meexaminava com o olhar.

— Você está bem?

— Eu... estou. — Me deitei de costas na cama, tonta por causa da perda de sangue. — Eu só preciso descansar um pouco. Estou bem.

Seus olhos claros, de um verde cor de jade, me olhavam com preocupação. Ela se levantou.

— Vou ver alguma coisa para você comer.

Meu protesto chegou sufocado aos meus lábios, e ela saiu antes que euconseguisse formar uma frase. O frisson da mordida dela em mim se esvanecera assim que o contato físico se interrompeu, mas um rastro dele ainda corria pelas minhas veias, e eu senti um sorriso tolo me invadir os lábios. Virei a cabeça e vi Oscar, ainda sentado na janela.

— Você não sabe o que está perdendo — disse a ele.

Sua atenção agora estava concentrada em algo lá fora. Ele se agachou, eeriçou o pelo preto escuro. Depois contorceu o rabo.

O sorriso desapareceu do meu rosto, e fiz um esforço para me sentar. O mundo à minha volta girava, e eu esperei até que ele parasse para tentar me pôr de pé. Quando consegui, a tontura tomou conta de mim novamente, e desta vez se recusou a ir embora.
Mesmo assim, pude ir aos tropeços até a janela e ver, ao lado de Oscar, o que havia do lado de fora da janela. Ele me olhou cauteloso, afastou-se um pouco para o lado, e depois voltou novamente os olhos para o que chamara anteriormente a sua atenção.

Uma brisa morna — morna demais para um outono em Portland — brincou com os meus cabelos quando me debrucei na janela. A rua estava escura e relativamente silenciosa. Eram três horas da manhã, basicamente a única hora em que não há movimento no campus de uma faculdade, ou em que não há quase movimento.
A casa na qual há oito meses alugávamos um quarto ficava numa rua residencial cheia de casas velhas e de arquiteturas variadas. Do outro lado da rua, a lâmpada de um poste de luz piscava, prestes a se apagar. Mas ainda me fornecia claridade suficiente para distinguir as formas dos carros e dos prédios. No nosso próprio quintal eu pude ver as silhuetas das árvores e dos arbustos.E um homem me observando.

Esquivei-me surpreendida. Havia um vulto de pé ao lado de uma árvore no quintal, a uns dez metros de distância, de onde ele podia facilmente ver através da janela. Ele estava tão perto que eu provavelmente conseguiria atingi-lo se jogasse algo em sua direção. Com certeza ele estava perto o suficiente para ver o que Lissa e eu tínhamos acabado de fazer.
As sombras o cobriam tão bem que, mesmo com minha visão aguçada, não consegui enxergar suas feições, apenas a altura. Ele era alto. Muito alto. Ficou ali de pé, pouco visível, por apenas um instante, e depois se afastou e desapareceu escondido pelas sombras das árvores que ficavam mais adiante no quintal. Eu estava certa de ter percebido mais alguém se movimentando ali por perto e se juntando a ele antes que a escuridão os engolisse.

Fossem quem fossem, Oscar não gostou nada deles. À exceção de mim, ele geralmente se dava bem com a maioria das pessoas, e se deixava perturbar apenas quando alguém parecia uma ameaça iminente para ele. O sujeito do lado de fora não fizera nada de intimidante para Oscar, mas o gato sentira algo, algo que o pusera em alerta. Algo semelhante ao que ele sempre sentira em mim.

Um medo de arrepiar percorreu-me o corpo, quase — mas não inteiramente — erradicando o agradável êxtase da mordida de Lissa. Afastando-me da janela, eu me meti de qualquer jeito numa calça jeans que encontrei no chão, quase caindo enquanto a vestia. Uma vez vestida, apanhei meu casaco e o de Lissa, e as nossas carteiras. Enfiando os pés no primeiro par de sapatos que encontrei, dirigime então para a porta.

Lá embaixo, encontrei-a na cozinha desarrumada, investigando a geladeira. Um dos nossos colegas de casa, Jeremy, estava sentado à mesa com as mãos na testa, olhando tristemente para um livro de cálculo. Lissa olhou para mim surpresa.

— Você não devia estar de pé.

— Nós temos que ir. Agora.

Ela arregalou os olhos, e, então, um segundo depois, compreendeu do que se tratava.

— Você tem... mesmo? Você tem certeza?

Fiz que sim com a cabeça. Não sabia explicar por que eu tinha certeza. Mas eu tinha. Jeremy olhou intrigado para nós.

— Aconteceu alguma coisa?

Eu tive uma ideia.

— Liss, pegue a chave do carro dele.

Ele olhava para uma e para a outra alternadamente.

— O que vocês estão...

Lissa caminhou até ele sem hesitar. O medo dela me invadiu por meio de nosso laço psíquico, mas havia algo mais além do temor: certeza plena dela de que eu cuidaria de tudo, de que ambas ficaríamos seguras. Como sempre, eu esperava me mostrar merecedora de tamanha confiança.

Ela abriu um sorriso largo e olhou bem dentro dos olhos dele. Durante um momento, Jeremy apenas olhou de volta, ainda confuso, e então pude ver o transe tomar conta dele. Seus olhos tornaram-se vítreos, e ele a olhou de modo submisso, em estado de adoração.

— Vamos precisar do seu carro — disse ela com voz suave. — Onde está a chave?

Ele sorriu e eu estremeci. Eu tinha uma alta capacidade de resistência àcompulsão, mas, ainda assim, podia sentir seus efeitos mesmo quando dirigida a outra pessoa. Estremeci também, pois, durante toda a minha vida, tinham-me ensinado que era errado usar a compulsão. Jeremy tirou do bolso um molho de chaves penduradas num grande chaveiro vermelho e o entregou a Lissa.

— Obrigada — disse Lissa. — E onde está estacionado?

— Na rua, mais para baixo — respondeu ele em transe. — Na esquina. Na Brown. — A quatro quarteirões de distância.

— Obrigada — disse ela, afastando-se. — Assim que sairmos, quero que você volte para os seus estudos. Esqueça que nos viu esta noite.

Ele fez, servilmente, um sinal afirmativo com a cabeça. Tive a impressão de que ele teria se jogado de um penhasco por ela sem hesitar se ela assim o tivesse pedido. Todos os humanos são suscetíveis à compulsão, mas Jeremy parecia ainda mais fraco do que a maioria deles. Isso foi bem útil para nós naquele momento.

— Vamos — disse eu a ela. — Temos que ir.

Saímos e fomos em direção à esquina que ele nos indicara. Eu ainda estava tonta por causa da mordida e andando meio trôpega, não conseguindo me movimentar com a rapidez que desejava. Lissa teve de me amparar algumas vezes para que eu não caísse. O tempo todo a angústia dela me invadia o pensamento, vinda diretamente da sua mente. Tentei ao máximo ignorá-la; eu já tinha de lidar com os meus próprios medos.

— Rose... o que você vai fazer se eles nos pegarem? — sussurrou ela.

— Eles não vão nos pegar — respondi com firmeza. — Eu não vou deixar.

— Mas, se eles tiverem nos encontrado...

— Eles já nos encontraram antes. E não conseguiram nos pegar. Nós vamos de carro até a estação de trem e de lá vamos para Los Angeles. Eles vão perder o nosso rastro.

Fiz com que esse plano parecesse simples. Era o que eu sempre fazia, embora não fosse nada simples manter-se em constante fuga das pessoas junto às quais tínhamos crescido. Vínhamos fazendo isso havia dois anos, escondendo-nos onde quer que pudéssemos e tentando ver se ao menos conseguíamos terminar o ensino médio. Nosso último ano do ensino médio acabara de começar, e morar num campus universitário parecia de algum modo mais seguro. Estávamos muito perto da liberdade.

Ela não disse mais nada, e eu senti a confiança dela em mim aumentarrepentinamente mais uma vez. Sempre fora assim entre nós. Eu era a que agia, que fazia as coisas acontecerem — às vezes precipitadamente. Ela era a maisracional, a que planejava as coisas e as pesquisava exaustivamente antes de agir. Ambos os estilos tinham as suas vantagens, mas naquele momento, era preciso que nos precipitássemos.
Não tínhamos tempo para hesitação. Lissa e eu éramos a melhor amiga uma da outra desde o jardim de infância, quando a nossa professora nos pôs em dupla para fazermos trabalhos escolares juntas. Forçar crianças de cinco anos a soletrar Vasilisa Dragomir e Rosemarie Hathaway, porém, era algo que ia além da crueldade, e nós — ou melhor, eu — respondemos à altura.
Atirei meu livro na professora e a chamei de fascista canalha. Eu não sabia o que aquelas palavras significavam, mas sabia muito bem como atingir um alvo em movimento. Lissa e eu nos tornamos inseparáveis desde então.

— Você ouviu isso? — perguntou ela de repente.

Levei alguns segundos para me dar conta do que os sentidos aguçados dela já haviam percebido. Passos, movendo-se rapidamente. Eu contraí o rosto preocupada. Tínhamos ainda dois quarteirões pela frente.

— Vamos ter que correr até lá — disse eu, agarrando o braço dela.

— Mas você não pode...

— Corre.

Usei até a última reserva da minha força de vontade para não desmaiar na calçada. Meu corpo não queria correr depois de ter perdido tanto sangue e enquanto ainda metabolizava os efeitos da saliva dela.
Mas eu ordenei aos meus músculos que parassem de reclamar e me agarrei à Lissa enquanto nossos pés se moviam pesadamente sobre o concreto. Em geral eu poderia correr mais rápido do que ela sem maior esforço — principalmente ela estando descalça —, mas, naquela noite, era ela quem me mantinha de pé.

Os passos que nos perseguiam foram ficando mais fortes, e chegando mais perto. Estrelas negras dançavam diante dos meus olhos. À nossa frente, eu pude distinguir o Honda verde de Jeremy. Meu Deus, se ao menos conseguíssemos chegar até lá...

A pouco mais de três metros do carro, um homem atravessou bem no meio do nosso caminho. Nós demos uma parada brusca, e eu puxei Lissa para trás pelo braço. Era ele, o sujeito que eu vira do outro lado da rua me observando. Ele era mais velho do que nós, com seus vinte e tantos, talvez, e parecia tão alto quanto eu o imaginara, teria provavelmente um metro e noventa ou noventa e cinco de altura.
E, em outras circunstâncias — digamos, se ele não estivesse impedindo a nossa fuga desesperada — eu o teria achado lindo. Cabelos castanhos na altura dos ombros, presos atrás num curto rabo de cavalo. Olhos castanho-escuros. Um casaco longo marrom como os que os cavaleiros usavam, não exatamente uma capa de chuva. Um guarda-pó, eu achava que era esse o nome. Mas o fato de ser um sujeito atraente era irrelevante agora.
Ele era apenas um obstáculo impedindo Lissa e eu de alcançarmos o carro e a nossa liberdade. Os passos atrás de nós diminuíram, e eu percebi que nossos perseguidores afinal haviam nos alcançado. Vindo de ambos os lados, eu detectei mais movimento,mais pessoas fechando o círculo. Deus. Eles mandaram quase uma dúzia de guardiões para nos buscar de volta. Eu não podia acreditar. A própria rainha não levava tantos guardiões com ela em suas viagens.

Em pânico, e sem o controle total de minha racionalidade mais aguçada, agi por instinto. Grudei-me em Lissa, mantendo-a atrás de mim e longe do homem que parecia ser o líder do grupo de perseguidores.

— Deixe-a em paz — rosnei. — Não toque nela.

A expressão dele era vazia, mas estendeu a mão num gesto que supostamente pedia calma, como se eu fosse um animal furioso que ele planejasse sedar.

— Eu não vou...

Ele deu um passo à frente. Chegou perto demais.

Eu o ataquei, dando um salto e usando uma manobra ofensiva que eu não empregava havia dois anos, desde que Lissa e eu tínhamos fugido. O gesto foi burro, outra reação guiada pelo instinto e pelo medo. E não havia esperança. Ele era um guardião experiente, não um aprendiz que ainda nem tivesse terminado o treinamento.
Além disso, ele não estava fraco e quase a ponto de desmaiar. E, caramba, ele era rápido. Eu me esquecera de como podem ser rápidos os guardiões, de como eles conseguem se movimentar e atacar como cobras. Ele me derrotou como quem afasta uma mosca. As mãos dele bateram em mim e mejogaram para trás.
Não creio que ele tivesse a intenção de bater com tanta força — provavelmente queria apenas me tirar do caminho —, mas a minha falta de coordenação interferiu na minha capacidade de reação. Sem conseguir me manter de pé, comecei a cair, indo imediatamente em direção à calçada num ângulo torto, primeiro com os quadris. Ia doer. Doer muito. Mas não aconteceu.

Num gesto tão rápido quanto o que usara para bloquear-me o golpe, o homem se estendeu e alcançou o meu braço, mantendo-me de pé. Quando consegui me estabilizar, percebi que ele me encarava — ou, mais precisamente, que olhava fixo para o meu pescoço. Ainda desorientada, não entendi de imediato.
Depois, aos poucos, com minha mão que estava livre, alcancei meu pescoço e toquei levemente na ferida que Lissa fizera mais cedo. Quando tirei os dedos, vi que havia um sangue grudento e escuro em minha pele. Constrangida, balancei ocabelo de modo a fazer com que caísse para a frente, em torno do meu rosto. Ele era pesado e comprido e cobria-me todo o pescoço. Eu o deixara crescer exatamente por essa razão.

Os olhos escuros do sujeito se deixaram pousar um pouco mais sobre amordida agora coberta e depois encontraram os meus. Eu correspondi com um olhar desafiador e rapidamente me livrei da mão dele que ainda me agarrava pelo braço. Ele me soltou, embora eu soubesse que poderia ter me mantido presa a noite inteira se assim quisesse. Lutando contra a tontura nauseante, eu me aproximei de Lissa novamente protegendo-a, firmando-me na expectativa de um novo ataque. Subitamente a mão dela agarrou a minha.

— Rose — disse ela calmamente. — Não.

Suas palavras, a princípio, não surtiram qualquer efeito em mim, mas, aos poucos, pensamentos tranquilizadores foram se instalando na minha mente, passando dela para mim por meio do laço que nos unia. Não era exatamente compulsão — ela não usaria esta habilidade comigo —, mas era eficaz, assim como o reconhecimento do fato de que eles estavam desanimadoramente em maior número do que nós e eram lutadores mais experientes. Até eu sabia que não tinha mais jeito. A tensão abandonou o meu corpo, e eu cedi, derrotada.

Percebendo a minha submissão, o homem deu um passo à frente, voltando agora a atenção para Lissa. Seu rosto estava calmo. Ele lhe fez uma reverência e a fez graciosamente, o que me surpreendeu, considerando sua altura.

— Meu nome é Dimitri Belikov — disse. Pude distinguir um leve sotaque russo. — Vim para levá-la de volta à Escola São Vladimir, princesa.



Richelle Mead


Trecho do Livro "O Beijo das Sombras"