Marcas sobre a terra



Ele pisou em seus próprios passos, desde sempre. Mas não é como se andasse para trás. Ele andava para frente como qualquer ser humano normal. E no entanto seu andar era mais triste, pois já era conhecido: desde seu nascimento, suas pegadas já estavam marcadas na terra (e no cimento, e no telhado do tio, e furtivas, próximas ao armário de doces). Marcas claras, pegadas registradas e indeléveis, cada marca de sua passagem pela vida impressa a posteriori, deixando-o apenas com a possibilidade de seguir a si próprio.

A primeira coisa que realmente viu, ao sair do ventre da mãe para os braços do obstetra, foi a marca em sangue de seu próprio corpo nos braços do avental verde do médico. Depois, quando enfim engatinhou, quatro rastros podiam ser vistos: as mãos, uma atrás da outra, e o arrastar dos dois joelhos, como duas cobras que se arrastassem lado a lado todo o tempo.

Sua mãe esforçava-se para limpar da casa todas as pegadas a serem ainda andadas por ele. E, no dia em que pegou determinado rastro, ela gritou para o pai: Venha, querido! Ele vai andar pela primeira vez! De fato, próximo à mesa de centro da sala de estar, as marcas mudaram de quatro para dois pezinhos carimbados, hesitantes, que passaram a antecedê-lo, aonde quer que fosse.

Sua vida fora marcada antes de sua chegada, em uma espécie de má sincronia. Aos 8 anos, andando pelo playground, aborrecido por não conseguir sair de suas pegadas, chutou forte a grama. Mas mesmo aquele chute já estava gravado: um rasgo fundo na grama verde. E ele pôde acompanhar a grama brotar do nada, mícrons de segundos após ele passar o pé, milímetro por milímetro. Seu chute havia reparado a marca que antes existia.

Olhou para trás e percebeu que nenhuma pegada o seguia. Deu-se conta que nenhuma de suas marcas havia restado. Seus pés, ao se levantarem, levavam consigo as marcas conhecidas. Nada restava de suas marcas pregressas. Entendeu seu terrível destino: nenhum passado e o futuro traçado.

Aos doze anos, andava pelo mesmo playground, olhando para baixo e vendo as marcas de lágrimas desaparecerem ao serem atingidas pelas lágrimas reais. Como uma espécie de proteção, olhava apenas para o chão, mantendo os olhos bem próximos às pontas de seus pés. Dessa forma, podia se surpreender minimamente se seus pés fizessem uma curva inesperada para, por exemplo, desviar de algum cocô de cachorro no caminho.

Para sua surpresa, notou imediatamente que o próximo passo não estava lá! Nenhuma marca. O mundo sumiu por um instante à sua volta enquanto ele experimentava uma sensação de liberdade completamente desconhecida. Pulou de alegria! Exatamente a tempo de ser atingido nos quadris pelas pernas do menino gordo no balanço... Voou meia légua e caiu, direitinho, na marca profunda deixada no chão de grama por seu bumbum.

Aos 21, notou que as marcas traçadas não eram tão abundantes. Ao sair do elevador, naquele dia, percebeu um único rastro que continuava a subir as escadas. Percebeu suas digitais na porta que levava ao terraço do prédio onde morava. Continuou até perceber as marcas subindo na murada. Durante a queda, viu, 18, 17, 15, 13 andares abaixo, a mancha disforme, espalhada e borrifada, se aproximando, na calçada.



Augusto Galery

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