Ao ventre da alma



As fotos andavam escondidas, fora da vista, sumidas, para evitar lembranças, sofrimento, esperança. Pois foi só tocá-las e voltou tudo, memórias saídas do escuro, como pedras preciosas sobre negro veludo. Aliás, mesmo sem fotos, você volta. A verdade é que nunca se foi. Eu saio, ensaio; mudo de casa, crio asa; mudo de cidade, que maldade; mudo de país, não estou feliz. Só não mudo de você, por quê? Cansei de fingir que sou dura, que não sofro, que curei. Não vai passar, eu sei. Sou, para sempre, rainha de um só rei.

Sabe por quê? A capacidade de ser feliz que senti ao seu lado foi algo tão violento que é impossível esquecer...ou substituir. Fui tão completa, tão preenchida, tão total que chegava a doer. Não faltava nada, eu não queria mais nada além de respirar...você. Respirar o ar que você expirava, beber a água que você suava, comer...não, nem era preciso comer nada além da sua presença. Eu me alimentei de você.

Talvez tenha ido com sede demais ao pote. Antropofagia? Quem sabe? A capacidade de um sagitariano se arremessar sobre o que ama é absolutamente indescritível!!! Se arremessar da montanha, se jogar no espaço, virar bicho, virar ave, virar deus. Fazer milagre, beber vinagre e achar que é vinho. Que é champanhe francês!!!

Vivi ao seu lado o dia mais feliz da minha vida — meu Deus, quantos são os seres humanos que sabem qual foi o dia mais feliz de suas vidas? O dia em que eu quis morrer, pois sabia que nada haveria de mais importante e de profundo em minha existência do que aquele momento.

Estado de graça... como sei o que é isso!!! Chegar pertinho da morte. Mais um pouquinho, você vai, sucumbe, não resiste, o coração pára. A felicidade plena pode ser letal. Naquele instante, naquela cidade, naquele quarto de hotel, soube claramente que o meu momento era aquele. E as realizações anteriores, que pareciam tão efetivas, tão integrais? Viraram pó! Na hora. Em silêncio, falei com Deus e pedi: “Senhor Deus, me mata agora, ou vou correr, o resto da vida, atrás desse momento”. Deus não me atendeu. Sobrevivi. E é o que faço, ainda hoje.

Enquanto durou, que entrega! Com totalidade. Feito mãe parideira, gente ou bicho (há diferença, quando se trata de mãe?) que, apesar do amor e do medo, abre as pernas e, aos gritos de dor e êxtase, joga o filho no mundo. Que nem peito materno que se entrega, sem lascívia, à boca da cria. Igual à ingênua freirinha que renuncia ao amor do homem e se oferece ao orgasmo divino. Ou como língua que, sensualmente gelada, continua se dando ao sorvete. Um ser se doando a outro sem qualquer restrição. “Toma, faz o que quiser. Usa e abusa. Pode até jogar fora. É tudo seu”.

A plenitude se desfez no éter, antes de se completar o ciclo. Fui colhida pela morte. Não a minha não a sua. A morte da minha crença na nossa capacidade de ser feliz. O pé na terra. A falta de relacionamento entre a terra e o pé. Você se foi e me levou consigo: vísceras, órgãos vitais, neurônios, metros cúbicos de ar, litros de sangue. Matéria orgânica que, se fosse encaminhada a um teste de laboratório para se descobrir a que tipo de ser pertencia, gente ou bicho, possivelmente o resultado seria: ameba...

Costumo sorrir em silêncio dessa literatura, a séria ou a leviana, sobre a completude da mulher. Essa gente não sabe de nada! Bastava olhar pra você que eu gozava até com os fios do cabelo. Com seu discreto estrabismo. Com essa pele morna e lisa que eu não cansava de acariciar. A boca...não era uma boca, era o paraíso. A voz, os abraços, os dengos. Orgasmos múltiplos. Põe múltiplos nisso! Infinitesimais... Cristalizados nas tais fotos que, hoje, escondo com medo de sofrer. Está tudo ali, no meu olhar pra você, cadela olhando o dono com unção. Momentos que deveriam ter-se cristalizado num filho nosso. O mundo merecia esse filho, fruto de uma cama feita para ser a origem do mundo. Era a cama que o criador quis dar ao homem e ele não teve competência para perceber. A cama e a mesa. Como gostávamos de comer, em todos os sentidos possíveis, tudo farto, suficiente, prazeroso. Tudo com tesão.

Será que pra você a dose foi forte demais? Excedeu suas forças, sua capacidade, seu momento de vida? Às vezes, penso que sim. Só eu estava pronta. Você, não. Mas eu precisava entender o porquê. Para mim, foi tudo na medida certinha. Se o seu número fosse o mesmo, aquele instante não teria sido apagado da história da humanidade. Talvez eu não tivesse percebido algumas nuances. Lembro-me que, quando nos amávamos como loucos, às vezes você se feria. A fricção de nossos corpos esfolava o seu. Quem sabe sua alma também se ralava? Meu corpo ficava pleno, saudável, exultava. Em mim, ele e a alma estavam prontos, íntegros, confiantes.

Então... A explicação para o fim de tudo foi tão completamente sem explicação... Não foi? Achava que nada poderia acabar conosco. Hoje, admito que um discreto e eventual desequilíbrio na emoção de ambos, que nem percebíamos, pudesse ter a força de um vírus mortal... O meu “nós” se confundia com a vida. Quando acabou, morri...Você continua vivo?

Esta pessoa que escreve, fala, trabalha, se relaciona com o mundo é apenas uma sobrevivente, um egum, um zumbi. Espírito recolhido às esferas celestiais — ou às cavernas do inferno, sei lá — o corpo ficou por aí, destituído da alegria essencial, do prazer. Na juventude, se impasses ou dubiedades exigiam-me decisão, minha mãe alertava: “Sua alma, sua palma”. Corri o risco, mãe.

Borboleta perdida no túnel do tempo, reentranhei, regredi, sou lagarta outra vez. Recolhida, como feto, ao ventre da alma. Com a minha história presa na mão fortemente fechada.


Marília Trindade Barboza



(in "Os Passos da Paixão", no prelo)

Hell's angels



Os olhos têm aquela expressão vazada de maldade inocente, de suprema condescendência, como dos ídolos talhados em ouro e prata à luz das tochas, indiferentes às cerimônias e ao borbulhar das paixões e sacrifícios humanos; a macia pele do rosto de dezenove anos incompletos transparece e crepita, mas não se deixa tocar e, se o faz, o seu tato é de borracha ou vinil, porque os jovens de dezenove anos incompletos são pequenas monstruosidades portadoras do aleijão psíquico, faltando pedaços como um ombro para se chorar, um olhar atento, o gesto brusco no vácuo do antebraço consolador; os lábios congelados na frase de Peter Pan "eu sou a juventude eterna!”, a mão perpetuamente brandindo a estocada final na passagem do tempo. Um adolescente é sempre monstruoso porque desumano, assim como um deus, assim como um anjo, assim como você, Robi.

Eu o conheci precisamente no dia que completava trinta anos, dirigindo amargurada meu automóvel para o analista. Pensava: o Superman também tem trinta anos — mas o fato é que ele não existe, eu sim, e muito passageiramente, pelo visto. Fisgava-me freqüentemente refletindo sobre a minha transitoriedade e a imutabilidade da natureza. Esse mesmo céu, esse mesmo crepúsculo, essa mesma intensidade de tons avermelhados e laranja que contemplei aos quinze anos, estão agora testemunhando meus trinta, inalterados, imperturbáveis, tão odiosamente imutáveis, mas, se ter consciência disso é o preço da mortalidade, eu prefiro pagá-lo a permanecer nesse estado bestialício de eternidade inanimada como as areias, os corvos, o crepúsculo, as montanhas e o mais.

O que não deixa de ser putamente injusto, prosseguia pensando, quando o ronco de uma motocicleta ao lado do automóvel sobrepujou a música em FM como também os pensamentos acima descritos, além de todo o resto, o que acabou por irritar-me. Havia esquecido que deixara o vestido levantar exibindo as coxas, daí Robi, o motoqueiro, aparecer na minha janela, caninos pingando sangue.

Por segundos, foi como se estivesse me vendo lá fora, do outro lado da juventude, há dez, doze anos atrás, o sorriso entre tímido e malicioso, olhos irrequietos, inseguros, lábios naturalmente úmidos, cabelos emaranhados e elétricos como filamentos de cobre molhado e, Deus meu, que beleza!

Quando desviei o rosto tinha envelhecido o suficiente a ponto de fixar os olhos embaçados nos ponteiros luminosos mas, empurrando a dor para baixo, sete palmos no inconsciente, senti só irritação pela intromissão do rapazinho que perturbava meus pensamentos, minha solidão, minha maturidade, espiando, sem mais nem menos, para dentro do carro, com a mesma sem cerimônia que um bebê, escondido debaixo da mesa, espiaria as calcinhas das senhoras.

Devo acrescentar que, dentro de um automóvel, sinto-me tão absolutamente só e segura como no ventre materno e, além do mais, não havia notado as coxas. A bem da verdade, fiz tudo para livrar-me dele, mas o destino conspirou.

...

O tempo fluiu (como sempre) . Passaram-se duas semanas. Não paro em casa, mas o garoto tinha um faro diabólico. Sempre me pegava nos intervalos da muda de roupa, banho, jantar e outra escapada. Enquanto isso eu: a) estava sendo perseguida por um cineasta maldito; b) batia cartas comerciais; c) fazia um tratamento dentário intensivo; d) chateava-me com os amigos no bar; e) ou seja, merdava.

Certa tarde, final de expediente no escritório, eis Robi que surge ao lado da minha escrivaninha: vamos sair? Caninos pingando sangue. Sem saber como, ele vencera as estruturas de aço da burocracia e, munido de crachás, credenciais de apoio e um sorriso tentador, me apanhara sobre uma IBM, dois diretores afoitos e quarenta e cinco atentos funcionários entrincheirados na vastidão do expediente. Como se eu não tivesse coisa melhor a fazer no mundo que sair com ele. E não mesmo. Para mim a situação se afiguraria esmagadora, mas Robi era um caçador nato. De toda uma vasta multidão de admiradores, ele se destacara surpreendendo-me na minha própria cidadela. Ele, Robi, o motoqueiro. Era incrível.



Márcia Denser


Texto foi extraído do livro "Animal dos Motéis", Civilização Brasileira- Massao Ono / Editores — Rio de Janeiro, 1981, pág. 31.



Amor - O Interminável Aprendizado



Criança, ele pensava: amor, coisa que os adultos sabem. Via-os aos pares namorando nos portões enluarados se entrebuscando numa aflição feliz de mãos na folhagem das anáguas. Via-os noivos se comprometendo à luz da sala ante a família, ante as mobílias; via-os casados, um ancorado no corpo do outro, e pensava: amor, coisa-para-depois, um depois-adulto-aprendizado.

Se enganava.

Se enganava porque o aprendizado de amor não tem começo nem é privilégio aos adultos reservado. Sim, o amor é um interminável aprendizado.

Por isto se enganava enquanto olhava com os colegas, de dentro dos arbustos do jardim, os casais que nos portões se amavam. Sim, se pesquisavam numa prospecção de veios e grutas, num desdobramento de noturnos mapas seguindo o astrolábio dos luares, mas nem por isto se encontravam. E quando algum amante desaparecia ou se afastava, não era porque estava saciado. Isto aprenderia depois. É que fora buscar outro amor, a busca recomeçara, pois a fome de amor não sabia nunca, como ali já não se saciara.

De fato, reparando nos vizinhos, podia observar. Mesmo os casados, atrás da aparente tranqüilidade, continuavam inquietos. Alguns eram mais indiscretos. A vizinha casada deu para namorar. Aquele que era um crente fiel, sempre na igreja, um dia jogou tudo para cima e amigou-se com uma jovem. E a mulher que morava em frente da farmácia, tão doméstica e feliz, de repente fugiu com um boêmio, largando marido e filhos.
Então, constatou, de novo se enganara. Os adultos, mesmo os casados, embora pareçam um porto onde as naus já atracaram, os adultos, mesmo os casados, que parecem arbustos cujas raízes já se entrançaram, eles também não sabem, estão no meio da viagem, e só eles sabem quantas tempestades enfrentaram e quantas vezes naufragaram.

Depois de folhear um, dez, centenas de corpos avulsos tentando o amor verbalizar, entrou numa biblioteca. Ali estavam as grandes paixões. Os poetas e novelistas deveriam saber das coisas. Julietas se debruçavam apunhaladas sobre o corpo morto dos Romeus, Tristãos e Isoldas tomavam o filtro do amor e ficavam condenados à traição daqueles que mais amavam e sem poderem realizar o amor.

O amor se procurava. E se encontrando, desesperava, se afastava, desencontrava.

Então, pensou: há o amor, há o desejo e há a paixão.
O desejo é assim: quer imediata e pronta realização. É indistinto. Por alguém que, de repente, se ilumina nas taças de uma festa, por alguém que de repente dobra a perna de uma maneira irresistivelmente feminina.
Já a paixão é outra coisa. O desejo não é nada pessoal. A paixão é um vendaval. Funde um no outro, é egoísta e, em muitos casos, fatal.

O amor soma desejo e paixão, é a arte das artes, é arte final.

Mas reparou: amor às vezes coincide com a paixão, às vezes não.

Amor às vezes coincide com o desejo, às vezes não.

Amor às vezes coincide com o casamento, às vezes não.

E mais complicado ainda: amor às vezes coincide com o amor, às vezes não.

Absurdo.

Como pode o amor não coincidir consigo mesmo?

Adolescente amava de um jeito. Adulto amava melhormente de outro. Quando viesse a velhice, como amaria finalmente? Há um amor dos vinte, um amor dos cinqüenta e outro dos oitenta? Coisa de demente.

Não era só a estória e as estórias do seu amor. Na história universal do amor, amou-se sempre diferentemente, embora parecesse ser sempre o mesmo amor de antigamente.

Estava sempre perplexo. Olhava para os outros, olhava para si mesmo ensimesmado.

Não havia jeito. O amor era o mesmo e sempre diferenciado.

O amor se aprendia sempre, mas do amor não terminava nunca o aprendizado.

Optou por aceitar a sua ignorância.

Em matéria de amor, escolar, era um repetente conformado.

E na escola do amor declarou-se eternamente matriculado.



Affonso Romano de Sant'Anna


Texto extraído do livro "21 Histórias de amor", Francisco Alves Editora – Rio de Janeiro, 2002, pág.11.

Mila



Era pouco maior do que minha mão: por isso eu precisei das duas para segurá-la, 13 anos atrás. E, como eu não tinha muito jeito, encostei-a ao peito para que ela não caísse, simples apoio nessa primeira vez. Gostei desse calor e acredito que ela também. Dias depois, quando abriu os olhinhos, olhou-me fundamente: escolheu-me para dono. Pior: me aceitou.

Foram 13 anos de chamego e encanto. Dormimos muitas noites juntos, a patinha dela em cima do meu ombro. Tinha medo de vento. O que fazer contra o vento?

Amá-la — foi a resposta e também acredito que ela entendeu isso. Formamos, ela e eu, uma dupla dinâmica contra as ciladas que se armam. E também contra aqueles que não aceitam os que se amam. Quando meu pai morreu, ela se chegou, solidária, encostou sua cabeça em meus joelhos, não exigiu a minha festa, não queria disputar espaço, ser maior do que a minha tristeza.

Tendo-a ao meu lado, eu perdi o medo do mundo e do vento. E ela teve uma ninhada de nove filhotes, escolhi uma de suas filhinhas e nossa dupla ficou mais dupla porque passamos a ser três. E passeávamos pela Lagoa, com a idade ela adquiriu "fumos fidalgos'; como o Dom Casmurro, de Machado de Assis. Era uma lady, uma rainha de Sabá numa liteira inundada de sol e transportada por súditos imaginários.

No sábado, olhando-me nos olhos, com seus olhinhos cor de mel, bonita como nunca, mais que amada de todas, deixou que eu a beijasse chorando. Talvez ela tenha compreendido. Bem maior do que minha mão, bem maior do que o meu peito, levei-a até o fim.
Eu me considerava um profissional decente. Até semana passada, houvesse o que houvesse, procurava cumprir o dever dentro de minhas limitações. Não foi possível chegar ao gabinete onde, quietinha, deitada a meus pés, esperava que eu acabasse a crônica para ficar com ela.

Até o último momento, olhou para mim, me escolhendo e me aceitando. Levei-a, em meus braços, apoiada em meu peito. Apertei-a com força, sabendo que ela seria maior do que a saudade.



Carlos Heitor Cony


O texto acima foi publicado no jornal "Folha de São Paulo" , edição de 04-06-1995, e faz parte do livro "Figuras do Brasil – 80 autores em 80 anos de Folha", Publifolhas – São Paulo, 2001, pág. 318, organização de Arthur Nestrowski.

O Velho de Alcântara-Mar


Eu estava a almoçar sozinho num restaurante, como tanto gosto de fazer, a meio do dia de trabalho. Detesto «almoços de trabalho», almoços de circunstância ou almoços de coisa alguma. Detesto almoçar os outros, resumindo. Prefiro almoçar a comida, acompanhada de uma revista ou de um jornal.


O restaurante era pouco mais que uma tasquinha de Alcântara, que tem a vantagem de ter uma comida caseira e sem pretensões e de não ser frequentado pela classe emergente dos almoços, com os telemóveis em cima da mesa, ao alcance de uma urgência, porque gente importante e ocupada é assim. Este restaurante, pelo contrário, é frequentado por uns clientes discretos, habituais e silenciosos, que vêm comer polvo cozido com todos e parecem cobertos por uma fina poeira de tristeza que os toma, de certa forma, íntimos. Íntimos, apesar do nosso mútuo silêncio, cúmplices na solidão das mesas, como marinheiros naufragados, cada um em sua ilha.


Gosto destes personagens lisboetas da hora de almoço, que comem sozinhos resmungando entre dentes, que compram lotaria, lêem os anúncios do Correio da Manhã e tratam as empregadas de mesa por «Menina isto» e «Menina aquilo». Imagino em cada um deles um Fernando Pessoa, órfão de obra e deserdado de sentimentos. São solitários e tristes, porém não são trôpegos, mas dignos, de costas direitas e cara fechada olhando em frente, quando se levantam da mesa discretamente em direcção à porta, como se deslizassem em direcção à vida.


Um dia entrou um homem destes, que eu já tinha visto anteriormente. Era um cliente de bairro, um «vizinho» do restaurante — ocasionalmente almoça, mas, regra geral, limita-se a chegar sobre o tarde, senta-se numa mesa em frente à porta com um jornal dobrado à frente, encomenda uma bica e fica a olhar para a rua, atento ao passar do tempo. Vê-se que é reformado porque não tem horário fixo nem pressa alguma. Não será viúvo, mas apenas gasto, viverá num 3° esquerdo, indiferente às lamúrias da «patroa», sentado num sofá de costas para a janela para receber a luz para as palavras cruzadas do jornal.


Mas nesse dia o homem entrou no restaurante com um sorriso luminoso na cara. Parecia ter rejuvenescido dez anos, as costas estavam mais direitas, a roupa mais alisada, o cabelo penteado deveria cheirar a água de colónia Ach. Brito. Só percebi a razão da transformação quando o vi virar-se para trás na porta da entrada e estender a mão a um miúdo que o seguia: era o neto. Passeou o miúdo pelo restaurante como se apresentasse uma namorada rainha de beleza. De mão dada com ele, foi até ao balcão e sentou-o lá em cima para que todos os empregados o vissem, sorriu à volta e fez um gesto largo para o miúdo, indicando o mostruário onde repousavam a pescada para cozer ou fritar, o leitão frio ou quente da Mealhada e as costeletas de vitela para grelhar, e disse: «Então, escolhe lá o que queres almoçar».


Pediu mesa com toalha de pano, encostada à parede, de onde todos o pudessem ver e ele pudesse ver todos. Levou o neto ao colo até à mesa, sentou-o na cadeira, atou-lhe o guardanapo de pano ao pescoço e então o miúdo agarrou-lhe a cara de repente, puxou-o para si e deu-lhe um beijo. O velho sentou-se à frente dele e olhou em frente. Encontrou o meu olhar, que devorava a cena. Por um brevíssimo instante pareceu-me que ele tinha ficado suspenso da minha reacção: queria ser visto, mas tinha medo. Inclinei a cabeça e cumprimentei-o em silêncio — foi a primeira vez que o cumprimentei: o seu olhar era líquido de ternura e firme de orgulho. Quando for velho, quero ser exactamente assim.


Miguel Souza Tavares


Texto extraído do livro “Não te deixarei morrer, David Crockett”, Editora Nova Fronteira – Rio de Janeiro, 2005, pág. 99.