Sentimentos



Ele passou por mim e sorriu, fiquei olhando as covinhas do seu rosto... Não lembro se sorri também, costumo dizer que um olhar fala por si, acho que lhe olhei querendo que meu olhar fosse a resposta para o seu sorriso.

Ele passou e o seu perfume ficou, deve ter ficado na minha pele, parecia um toque aveludado, insistente a me perturbar, busca desenfreada pelos seus ares.

Sabe, o que sinto não dá pra explicar, quisera eu poder entender... Não me sinto confusa, estou no melhor do meu consciente e mesmo assim, no melhor do meu abobamento. Isso é mal. Seu sorriso me fascina.

Mas eu nunca deveria mesmo ter pensado em “nós dois”, pois nunca vai existir um “nós dois”. Não queria que fosse assim, imaginei um sonho diferente. O problema é que a razão e o coração nem sempre estão de acordo.

Da próxima vez que me mandar um sorriso assim vou falar para o meu receio ficar na sua, não interferir no meu vocabulário. Talvez, num sonho, eu lhe diga o quanto admiro suas covinhas... rostinho de menino a brincar com a minha timidez.

Passei todo o tempo na sua busca, entre idas e vindas sem propósito, sonhando em esbarrar com ele pelos corredores, talvez ele notasse um “quê” a mais nas minhas desculpas, talvez seu perfume desgrudasse de mim de vez, ou ficasse comigo pra sempre.

Mesmo sabendo que esse “esbarrão” possa magoá-lo, pois tenho o dom de magoar corações, não consigo deixar de desejar isso . Mas o que dizer de um desejo sem tamanho que busca o seu propósito por puro ambição? E o que dizer de um querer sem medida, uma intensidade que sufoca? Há uma tentativa de não magoar, há um tentativa de viver. Quem sabe desvendar o que há por detrás de um poema?

Depois de tantos encontros e desencontros, o vento o trouxe de volta, talvez um leve sorriso denunciando sentimentos... Se pudesse lhe diria para não corresponder ao meu desatino, se pudesse lhe diria para buscar o segredo no fundo dos meus olhos, se pudesse lhe diria para não sorrir com essas covinhas pra mim...



Isabelly Kim
Codinome Beija-Flor

Águas Profundas



Olhou então de lado, como se quisesse contemplar seu rosto de perfil, poderia considerar-se angustiada não fosse aquele friozinho na barriga inconsciente lhe deixando sem razão. Ele estava perto e distante, juntos por acaso.

Perguntava-se insistentemente o que estava fazendo, mas em resposta só conseguia fitá-lo. Estava se tornando inevitável não notá-lo porque já sentia seu cheiro a penetrar pelos poros lhe tirando toda a atenção.

“Que coisa, sempre fui tão dona de mim!”. Não adiantava argumentar, aos poucos rendia-se àquela tentação, ainda tentou resistir, boa guerreira que era, mas venceu-se e convenceu-se. Era impossível fugir.

Tentou se controlar, mas seu sorriso lhe dissuadiu, fingiu não ouvir o que ele dizia, mas sua voz já ecoava por todo o seu corpo, doce e frenética em tons vacilantes que no momento ela não conseguiu decifrar, ou talvez não quisesse. Mais uma vez dentro de si a pergunta, “Por quê? Se sempre fui tão dona de mim?”. Mas soava como uma resposta, era como a resposta!

Decidiu então não se preocupar. “E daí?”. Já estava mais calma quando sentiu seus olhos sobre si, vacilante, sem sentido, devolveu-lhe o olhar. Não era de insistir e nem de desistir, mas não se entregaria sem lutar.

Ela pensou em si e nas suas águas profundas, quem teria coragem de mergulhar? Quem encarasse seu rosto plácido nunca imaginaria tanta profundidade em seu ser, mundo complexo que às vezes nem ela conseguia desmistificar. “Não, qualquer um se afogaria”, ele não seria exceção, a menos que se contentasse com a superfície, mas aí ele não seria ele, dono de toda a sua admiração.

Ainda com o desejo preso na pupila dos olhos, sentimento à flor da pele, não conseguia parar de notar seu comportamento e sua voz dissonante, uma coisa de pele que se misturava à sua.

Tentava descobrir o motivo de tanta euforia em si, e então a pergunta virou uma afirmação. “Há um pouco de mim nele.” A chave do segredo estava em não precisar mostrar tudo que ela era, pois havia muito dela nele, como um elo. Mas o mistério persistia. “Eu não vou me entregar!”.


Isabelly Kim

Destino??



Nunca parei pra pensar exatamente sobre a vida, sobre o porquê de estar nesse mundo, o porquê de encontrar as pessoas que encontrei, passar pelo que passei ou o porquê de tomar as decisões que tomei.

Na verdade, nunca sequer acreditei em destino, sempre imaginei que tudo o que regia a vida de cada ser humano fosse o acaso, nossa existência seria apenas um conjunto de fatos resultantes da mera casuística que rodeia o Universo. Não estaríamos aqui por um motivo predeterminado ou por uma missão a ser cumprida.

Para mim, nós existíamos apenas como fruto de condições físicas, químicas e biológicas apropriadas, nada mais além disso. Porém eu estava enganada.

Com o tempo, descobri que existia uma força muito maior que nos regia, força essa contra a qual não podíamos fugir ou lutar. Tudo no Universo estava conectado e possuía um propósito, um objetivo. Isso é o que chamam de Destino.

Descobri que algumas vezes, o Destino pode se transformar em algo muito maior que apenas mera Teoria ou desculpa que as pessoas usam para tentar explicar as coisas da vida que simplesmente não podem ser compreendidas ou mudadas.

Outras vezes, o Destino é um fato real e tangível da existência. É uma força maior e mais poderosa do que nós, capaz de mudar completa e irrevogavelmente a vida de um indivíduo. Eu sou a prova disso.

Infelizmente, o Destino não se refere apenas sobre encontrar o amor de sua vida, ou encontrar o seu lugar no mundo, ou descobrir o seu papel. O Destino é selvagem e imprevisível demais para ser abrangido por um conceito tão ínfimo.

E quando o Destino reserva algo pra você, não há como saber o que vai acontecer, a única coisa de que realmente se tem conhecimento é de se trata de algo fora de nosso controle, e que todo tipo de mudança acarretada por ele vai afetar cada pedaço de sua vida. Irá afetar a forma como você vê e experimenta o mundo, com quem você interage, por quem você se apaixona, com quem você cria laços de amizade, forma família – e até mesmo a morte – tudo muda a partir do momento em que o cosmos interfere.

E quando o Universo resolve interferir, muitas vezes vemos nossos planos tão bem traçados irem por água a baixo, e a única opção que nos resta é aceitar, encarar, ver o que vai acontecer e fazer sempre o nosso melhor.

Pessoalmente, eu jamais mudaria uma única coisa de meu Destino. Mesmo que as forças superiores tenham decidido que eu iria morrer correndo por dentro desse labirinto verde, ferindo minhas pernas e braços nessa relva exuberante e selvagem, mesmo eu sendo caçada como se fosse uma presa encurralada e amedrontada sentindo os olhos de meu futuro assassino irradiando crueldade, loucura e desejo. E se até mesmo na última das hipóteses eu for torturada de todas as formas mais dolorosas existentes, mesmo que meu corpo se torne irreconhecível, eu nunca culparia nada nem ninguém, muito menos o Destino, uma vez que foi ele que me deu algo extremamente belo, poderoso e admirável: o Amor.

E eu estou conformada com qualquer tipo de repercussão que possa ser gerada ou requerida. Não me importo, aceitarei meu Destino com a cabeça erguida, ciente de que estarei fazendo a coisa certa e de que vivi plenamente até os últimos dias que me foram permitidos. Por que para mim, não há nada mais honroso do que morrer por aquele que se ama, por aquele a quem você entregou-se de corpo e alma.

Era isso o que eu iria fazer. Trocaria a minha própria vida por ele, para que o meu amor continuasse a viver nele, fortalecendo-o, ajudando-o a seguir em frente e com a total certeza de que ninguém sobre essa terra o amou mais e da forma que eu o amei. Edward foi e sempre será o meu passado, presente e futuro, tanto neste como no outro mundo.



Stephenie Meyer

Quando se gosta de alguém...


Esta coisa de gostar de alguém não é para todos e, por vezes – em mais casos do que se possa imaginar – existem pessoas que pura e simplesmente não conseguem gostar de ninguém. Esperem lá, não é que não queiram – querem! – mas quando gostam – e podem gostar muito – há sempre qualquer coisa que os impede. Ou porque a estrada está cortada para obras de pavimentação. Ou porque sofremos de diabetes e não podemos abusar dos açucares. Ou porque sim e não falamos mais nisto. Há muita gente que não pode comer crustáceos, verdade? E porquê? Não faço ideia, mas o médico diz que não podemos porque nascemos assim e nós, resignados, ao aproximar-se o empregado de mesa com meio quilo de gambas que faz favor, vamos dizendo: “Nem pensar, leve isso daqui que me irrita a pele”.

Ora, por vezes, o simples facto de gostarmos de alguém pode provocar-nos uma alergia semelhante. E nós, sabendo-o, mandamos para trás quando estávamos mortinhos por ir em frente. Não vamos.. E muitas das vezes, sabendo deste nosso problema, escolhemos para nós aquilo que sabemos que, invariavelmente, iremos recusar. Daí existirem aquelas pessoas que insistem em afirmar que só se apaixonam pelas pessoas erradas. Mentira. Pensar dessa forma é que é errado, porque o certo é perceber que se nós escolhemos aquela pessoa foi porque já sabíamos que não íamos a lado nenhum e que – aqui entre nós – é até um alívio não dar em nada porque ia ser uma chatice e estava-se mesmo a ver que ia dar nisto. E deu. Do mesmo modo que no final de 10 anos de relacionamento, ou cinco, ou três, há o hábito generalizado de dizermos que aquela pessoa com quem nós nos casámos já não é a mesma pessoa, quando por mais que nos custe, é igualzinha. O que mudou – e o professor Júlio Machado Vaz que se cuide – foram as expectativas que nós criamos em relação a ela. Impressionados?

Pois bem, se me permitem, vou arregaçar as mangas. O que é díficil – dizem – é saber quando gostam de nós. E, quando afirmam isto, bebo logo dois dry martinis para a tosse. Saber quando gostam de nós? Mas com mil raios, isso é o mais fácil porque quando se gosta de alguém não há desculpas nem “ ai que amanhã não dá porque tenho muito trabalho”, nem “ ai que hoje era bom mas tenho outra coisa combinada” nem “ ai que não vi a tua chamada não atendida”.

Quando se gosta de alguém – mas a sério, que é disto que falamos – não há nada mais importante do que essa outra pessoa. E sendo assim, não há sms que não se receba porque possivelmente não vimos, porque se calhar estava a passar num sítio sem rede, porque a minha amiga não me deu o recado, porque não percebi que querias estar comigo, porque recebi as flores mas pensava não serem para mim, porque não estava em casa quando tocaste.

Quando se gosta de alguém temos sempre rede, nunca falha a bateria, nunca nada nos impede de nos vermos e nem de nos encontrarmos no meio de uma multidão de gente. Quando se gosta de alguém não respondemos a uma mensagem só no final do dia, não temos acidentes de carro, nem nunca os nossos pais se sentiram mal a ponto de nos impossibilitarem o nosso encontro. Quando se gosta de alguém, ouvimos sempre o telefone, a campaínha da porta, lemos sempre a mensagem que nos deixaram no vidro embaciado do carro desse Inverno rigoroso. Quando se gosta de alguém – e estou a escrever para os que gostam – vamos para o local do acidente com a carta amigável, vamos ter com ela ao corredor do hospital ver como estão os pais, chamamos os bombeiros para abrirem a porta, mas nada, nada nos impede de estar juntos, porque nada nem ninguém é mais importante, do que nós.


Fernando Alvim



Ótimo texto de Alvim, como sempre ele escreve e descreve muito bem os sentimentos...

Almas perfumadas



Tem gente que tem cheiro de passarinho quando canta. De sol quando acorda. De flor quando ri. Ao lado delas, a gente se sente no balanço de uma rede que dança gostoso numa tarde grande, sem relógio e sem agenda. Ao lado delas, a gente se sente comendo pipoca na praça. Lambuzando o queixo de sorvete. Melando os dedos com algodão doce da cor mais doce que tem pra escolher. O tempo é outro. E a vida fica com a cara que ela tem de verdade, mas que a gente desaprende de ver.

Tem gente que tem cheiro de colo de Deus. De banho de mar quando a água é quente e o céu é azul. Ao lado delas, a gente sabe que os anjos existem e que alguns são invisíveis. Ao lado delas, a gente se sente chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo. Sonhando a maior tolice do mundo com o gozo de quem não liga pra isso. Ao lado delas,pode ser abril, mas parece manhã de Natal do tempo em que a gente acordava e encontrava o presente do Papai Noel.

Tem gente que tem cheiro das estrelas que Deus acendeu no céu e daquelas que conseguimos acender na Terra. Ao lado delas, a gente não acha que o amor é possível, a gente tem certeza. Ao lado delas, a gente se sente visitando um lugar feito de alegria. Recebendo um buquê de carinhos. Abraçando um filhote de urso panda. Tocando com os olhos os olhos da paz. Ao lado delas, saboreamos a delícia do toque suave que sua presença sopra no nosso coração.

Tem gente que tem cheiro de cafuné sem pressa. Do brinquedo que a gente não largava. Do acalanto que o silêncio canta. De passeio no jardim. Ao lado delas, a gente percebe que a sensualidade é um perfume que vem de dentro e que a atração que realmente nos move não passa só pelo corpo. Corre em outras veias. Pulsa em outro lugar. Ao lado delas, a gente lembra que no instante em que rimos Deus está dançando conosco de rostinho colado. E a gente ri grande que nem menino arteiro.

Costumo dizer que algumas almas são perfumadas, porque acredito que os sentimentos também têm cheiro e tocam todas as coisas com os seus dedos de energia. Minha avó era alguém assim. Ela perfumou muitas vidas com sua luz e suas cores. A minha, foi uma delas. E o perfume era tão gostoso, tão branco, tão delicado, que ela mudou de frasco, mas ele continua vivo no coração de tudo o que ela amou. E tudo o que eu amar vai encontrar, de alguma forma, os vestígios desse perfume de Deus, que, numa temporada, se vestiu de Edith, para me falar de amor.


Ana Cláudia Saldanha Jácomo