Águas Profundas



Olhou então de lado, como se quisesse contemplar seu rosto de perfil, poderia considerar-se angustiada não fosse aquele friozinho na barriga inconsciente lhe deixando sem razão. Ele estava perto e distante, juntos por acaso.

Perguntava-se insistentemente o que estava fazendo, mas em resposta só conseguia fitá-lo. Estava se tornando inevitável não notá-lo porque já sentia seu cheiro a penetrar pelos poros lhe tirando toda a atenção.

“Que coisa, sempre fui tão dona de mim!”. Não adiantava argumentar, aos poucos rendia-se àquela tentação, ainda tentou resistir, boa guerreira que era, mas venceu-se e convenceu-se. Era impossível fugir.

Tentou se controlar, mas seu sorriso lhe dissuadiu, fingiu não ouvir o que ele dizia, mas sua voz já ecoava por todo o seu corpo, doce e frenética em tons vacilantes que no momento ela não conseguiu decifrar, ou talvez não quisesse. Mais uma vez dentro de si a pergunta, “Por quê? Se sempre fui tão dona de mim?”. Mas soava como uma resposta, era como a resposta!

Decidiu então não se preocupar. “E daí?”. Já estava mais calma quando sentiu seus olhos sobre si, vacilante, sem sentido, devolveu-lhe o olhar. Não era de insistir e nem de desistir, mas não se entregaria sem lutar.

Ela pensou em si e nas suas águas profundas, quem teria coragem de mergulhar? Quem encarasse seu rosto plácido nunca imaginaria tanta profundidade em seu ser, mundo complexo que às vezes nem ela conseguia desmistificar. “Não, qualquer um se afogaria”, ele não seria exceção, a menos que se contentasse com a superfície, mas aí ele não seria ele, dono de toda a sua admiração.

Ainda com o desejo preso na pupila dos olhos, sentimento à flor da pele, não conseguia parar de notar seu comportamento e sua voz dissonante, uma coisa de pele que se misturava à sua.

Tentava descobrir o motivo de tanta euforia em si, e então a pergunta virou uma afirmação. “Há um pouco de mim nele.” A chave do segredo estava em não precisar mostrar tudo que ela era, pois havia muito dela nele, como um elo. Mas o mistério persistia. “Eu não vou me entregar!”.


Isabelly Kim

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