ReEncontro – Parte 1


Flávia caminha apressada, mas está calma como de costume. Passa pelos corredores e sente uma alegria frenética, é legal estar ali outra vez. Pensa em cada momento divertido vivido naquele lugar que o fizeram merecer destaque nas suas melhores lembranças.

Mas no intimo Flávia sabe que existe algo que torna aquele lugar ainda mais maravilhoso, sim, alguém muito especial: Edu. Pensando nele, seu coração bate mais forte, pois sente que o reencontro será a qualquer momento.

Sobe as escadas num único lance, equilibrando-se nos saltos. Logo encontra uma amiga e saem conversando pelo salão. Dali a alguns minutos ele aparece.

- Oi Flávia!

- Oi...

Flávia tenta se controlar, mas já sente as faces rubras. Tivesse um pouco mais de coragem diria o quanto ele está lindo e que sentira tanta saudade. Mas fica apenas no oi.

- Sentiu minha falta? – Ele pergunta num sorriso.

- Hum... convencido. – Ela cora mais ainda. Lógico que havia sentido sua falta, tanto que pensou ter sido uma eternidade os momentos que passara longe daquele sorriso.

E os dois se encaram num aperto de mãos. Flávia não deixa de notar algo diferente em seus olhos, um brilho a mais, talvez. Não, deve ser apenas uma impressão.

- Não respondeu aos meus e-mails, menininha...

- Ah, desculpa, não tive muito tempo. – Mente. Leu e releu tantas vezes tudo que ele havia mandado, embora nada que ele tivesse escrito era o que realmente ela queria ter lido dele.

Procura de novo seus olhos, agora o brilho aos poucos se desfaz, demonstrando uma certa tristeza, um certo vazio, não condizente com aquele sorriso tão bonito. Convicta em seus pensamentos, não percebe que ele também lhe olha.

- Você está diferente Flávia...

- Mesmo? Cortei o cabelo.

- Não... não é isso.

Ele sorri de leve e toca em seu rosto devagar. Aproxima-se tanto que Flávia pode sentir o seu perfume almiscarado. Mesmo feliz da vida com esse seu comportamento inesperado, Flávia sabe que Edu faz isso com quase todas as meninas que conhece. Então se afasta levemente.

- Você está mais linda do que nunca.

Não tivesse pensado em seu comportamento galinha, talvez aquele comentário soasse diferente, mesmo assim deixa escapar um sorriso no canto da boca ao sentir um calafrio pelo corpo. Não fosse sua habitual timidez, falaria que ser apenas linda para ele não era tudo que ela queria.

Eles ainda estão se olhando nos olhos quando o resto da turma chega, entre saudações e conversas animadas, Flávia tenta afastar um pensamento feliz: será que Edu finalmente notou que ela existe? Ou foi apenas um sonho bom? Ela iria descobrir.




Isabelly Kim

A Paixão Segundo G.H.


Senti que meu rosto em pudor sorria. Ou talvez não sorrisse, não sei. Eu confiava.Em mim? no mundo? no Deus? na barata? Não sei. Talvez confiar não seja em quê ou em quem. Talvez eu agora soubesse que eu mesma jamais estaria à altura da vida, mas que minha vida estava à altura da vida. Eu não alcançaria jamais a minha raiz, mas minha raiz existia. Timidamente eu me deixava transpassar por uma doçura que me encabulava sem me constranger.

Oh Deus, eu me sentia batizada pelo mundo. Eu botara na boca a matéria de uma barata, e enfim realizara o ato ínfimo.

Não o ato máximo, como antes eu pensara, não o heroísmo e a santidade. Mas enfim o ato ínfimo que sempre me havia faltado. Eu sempre fora incapaz do ato ínfimo. E com o ato ínfimo, eu me havia deseroizado. Eu, que havia vivido do meio do caminho, dera enfim o primeiro passo de seu começo.

Enfim, enfim quebrara-se realmente o meu invólucro, e sem limite eu era. Por não ser, eu era. Até o fim daquilo que eu não era, eu era. O que não sou eu, eu sou. Tudo estará em mim, se eu não for; pois “eu” é apenas um dos espasmos instantâneos do mundo. Minha vida não tem sentido apenas humano, é muito maior - é tão maior que, em relação ao humano, não tem sentido. Da organização geral que era maior que eu, eu só havia até então percebido os fragmentos. Mas agora, eu era muito menos que humana - e só realizaria o meu destino especificamente humano se me entregasse, como estava me entregando, ao que já não era eu, ao que já é inumano.

E entregando-me com a confiança de pertencer ao desconhecido. Pois só posso rezar ao que não conheço. E só posso amar à evidência desconhecida das coisas, e só posso me agregar ao que desconheço. Só esta é que é uma entrega real.

E tal entrega é o único ultrapassamento que não me exclui. Eu estava agora tão maior que já não me via mais. Tão grande como uma paisagem ao longe. Eu era ao longe. Mas perceptível nas minhas mais últimas montanhas e nos meus mais remotos rios: a atualidade simultânea não me assustava mais, e na mais última extremidade de mim eu podia enfim sorrir sem nem ao menos sorrir. Enfim eu me estendia para além de minha sensibilidade.

O mundo independia de mim - esta era a confiança a que eu tinha chegado: o mundo independia de mim, e não estou entendendo o que estou dizendo, nunca! nunca mais compreenderei o que eu disser. Pois como poderia eu dizer sem que a palavra mentisse por mim? como poderei dizer senão timidamente assim: a vida se me é. A vida se me é, e eu não entendo o que digo.

E então adoro.



Clarice Lispector