Epitáfio de um amor platônico



Vinha há semanas com aquilo pulsando na cabeça. Era uma idéia quase fixa, parecia que tinha sido gravada em pedra. A cada segundo que passava, a agonia aumentava. A fuga do tempo doía, doía muito, e o dia de amanhã era sempre esperado num suplício. Quando ele chegava, era um alívio, que não durava muito. Logo depois se tornava outro suplício, como um círculo vicioso.

No início, era o amor. Amor que nasceu como libertação, como uma forma de defesa. Tinha lido uma vez numa poesia do amigo Zé que para se ter amor, é preciso ser herói. Amor e heroísmo são a mesma coisa. E não era qualquer herói não, tinha que ser como aqueles cavaleiros das Cruzadas, como caubóis do velho oeste, como bombeiros sem medo de prédios em incêndios, como aqueles heróis japoneses que não tinham medo da morte e se sacrificavam em lutas contra monstros e vilões de plástico e borracha.

Logo depois de ter sido ferozmente desprezado por uma garota ingrata, raivosa e antipática, que o desdenhou para preferir um gordão molenga que tinha carro e falava mal dela pelas costas, ele viu que merecia coisa melhor. Muito melhor. A loirinha de cabelos espiralados, olhos negros, sorridente, simpática, cheinha sem exageros, era aquela. Educada e doce, era uma pessoa que emanava luz.

E começou. Gostava dela em segredo. Aproximava-se, puxava conversa, cumprimentava, sorria, trocava algumas palavras e alguns sorrisos. Os momentos de distância eram dolorosos. O tempo se esgotando, muito mais. Então, aconteceu o que um amigo intitulou de "As Quatro Semanas que Abalaram o Mundo". Não, não era filme.

Tinha somente esse tempo para juntar forças, criar coragem e declarar seu amor. Os dias foram passando, os fins de semana se sucedendo. E nada. A cada segundo, a hora fatal se aproximava.

E, como nos seriados japoneses de que tanto gostava, os episódios caminhavam para a conclusão:

- Olha, eu preciso conversar em particular com você uma hora dessas. Você poderia me lembrar?

- Sim- ela respondeu.

- Olha, já estou de saída, amanhã a gente pode falar em particular?

Ela balançou a cabeça numa afirmativa.

Chegou o dia. Pânico, coração descontrolado, sangue frio quase cristalizando-se nas veias, suor descendo testa abaixo, garganta seca como o deserto de Atacama em dias áureos. Chamou-a:

- Preciso falar agora em particular com você. Pode ser agora?

- Pode ser sim. O que é?

- É um negócio meio complicado...meio difícil...talvez fosse até fique brava comigo...

- Nossa! exclamou ela, os lindos olhos se arregalando.

- Bom, então eu vou falar- chamou para mais perto. Ela obedeceu, puxando a amiga, que já percebeu do que se tratava e ia saindo pela tangente.

- Mas é um negócio em particular mesmo...

- Bom, então me fala via ICQ- disse ela- Vou estar online às nove horas.

Concordou. Era onze e vinte e oito da manhã quando assinou a sentença de seu destino. Enfim a hora temida e ansiada chegou. O nome dela em azul, a troca de mensagens eletrônicas. E foi pelos cabos que as palavras dela chegaram. Conta-se que naquela noite as caixas de som do computador emitiram um soluço, as placas ficaram comovidas e os elétrons chegaram até a chorar.

- Agora que me caiu a ficha, acho que você confundiu um pouco as coisas- escreveu ela- não vou te iludir, mas acho que o que rola entre a gente é só amizade.

- Não- choramingou ele- Meu Jesus Cristo!

Não se sabe se foi uma queda na conexão, ou uma interceptação de algum hacker, ou até algum sistema de criptografia, mas sua tentativa de comunicação com o Céu não deu certo.

O tempo passou. Lágrimas secaram, feridas reduziram-se a apagadas cicatrizes, ressentimentos e mágoas acabaram caducando. Voltaram a se encontrar. Eram amigos, conversavam bastante. Riam muito juntos. Contudo, sempre que se abraçavam para se cumprimentar, uma lápide de mármore surgia do nada e caía bem em cima de suas cabeças, pegando-os sempre em cheio. E quando olhavam o epitáfio gravado na pedra, abraçavam-se e choravam. Até ficaram íntimos nessa troca de lágrimas, ranho e soluços.

E o epitáfio era, gravado em tipos maiúsculos: CTRL+ALT+DEL.



José Marcelo Siviero

Uma gota de sangue


Aquele era o seu pior inimigo. O mais cruel, o mais cínico, o mais sem piedade. Um inimigo que falava a verdade. Sempre. Sempre a verdade. Toda aquela verdade que Isabel conhecia muito bem e que nunca a abandonava.

Ainda com a escova de cabelo na mão, ela não podia deixar de encará-lo. Lá estava ele, encarando Isabel de volta, com os próprios olhos da menina. De um lado, eles estavam molhados. Do outro, refletiam-se gelados, vítreos, impiedosos.

— Feia... Isabel sufocou um soluço.

— Gorducha... Uma lágrima formou-se na pontinha da pálpebra.

— Que óculos horrorosos...

Como um bichinho que foge, a lágrima saiu da toca e foi esconder-se no aro dos óculos.

— Você plantou uma rosa no nariz, é?

— Cale a boca... por favor...

Já mais grossa, a lágrima livrou-se dos óculos e escorreu pelo rosto de Isabel.

— Sabe que essa rosa vai ficar amarela? Amarela e grande...

A lágrima penetrou-lhe pelos lábios e Isabel reconheceu aquele gosto salgado, tão comum e tão amargo em momentos como aquele.

— Por favor... me deixe em paz...

— Você vai espremer a rosa amarela. O seu nariz vai inchar...

Os lábios de Isabel apertaram-se, molhados, sem palavras. Aquela garota que sempre tinha resposta para tudo, sempre uma gozação na hora certa, uma tirada de gênio que deixava qualquer provocador sem graça, não sabia o que dizer quando seu grande inimigo apontava sadicamente cada ponto fraco que havia para apontar.

—... e você vai ter vergonha de voltar às aulas na semana que vem...

— Cale a boca!

A raiva foi tanta que a escova de cabelo voou com força, acertando o inimigo em cheio, bem na cara.

— Isabel! Venha cá. Morreu aí no banheiro, é?

A voz penetrou-lhe os ouvidos como uma campainha de despertador. A voz irritante da mãe. Estridente como uma campainha. Devia estar com enxaqueca, é claro. Na certa ia reclamar de alguma coisa, exigir que a filha respeitasse pelo menos sua dor de cabeça, queixar-se de...

O combate com o inimigo estava suspenso, por hora. Isabel sacudiu a cabeça, como se despertasse, e esfregou o rosto, apagando as marcas da luta. Uma última olhada para o inimigo. Ele a olhou de volta, agora com uma rachadura de alto a baixo. "Sete anos de azar!", pensou Isabel. "Ah, o que são sete, para quem já viveu quatorze dos anos mais azarados do mundo?''

— Isabel! — ainda mais irritada, a voz da mãe invadiu o banheiro. — Não me ouviu chamar?

"Quatorze anos de azar!" ainda pensava a menina ao abrir a porta. "Será que a minha mãe quebrou dois espelhos quando eu nasci?"


***


Com as mãos, a mãe apertava as têmporas, como se a cabeça fosse cair, se ela a largasse.


— Você sabe que eu não posso gritar, Isabel. Você devia...

— Está bem, mãe. O que você quer?

— Ai, ai. Tia Adelaide acabou de telefonar. È o aniversário do Cristiano e ela faz questão que você vá.

— Cristiano? Que Cristiano?

— O seu primo, ora. Não se lembra do Cristiano? Vocês brincavam tanto...

— Ah, mãe! Isso já faz um século...

— É, faz tempo mesmo. Também, Adelaide foi casar-se com um homem que não pára em nenhum lugar! Não sei o que tanto tem aquele sujeito de mudar-se de cidade. Mas parece que desta vez vai sossegar. Ele está bem de vida, agora. Montou uma casa que é uma beleza. Adelaide vai fazer uma festa para o Cristiano que...

— Que droga! Aniversário de criança!

— Cristiano faz dezesseis anos, Isabel.

— Eu não quero ir. — Não discuta, Isabel. Minha cabeça está me matando...


***


— É claro que eu vou! — concordou Rosana, do outro lado da linha. — As férias estão no fim mesmo, e os programas andam raros. Acho até gozado: sempre sou eu quem tem de arrastar você para alguma festa. Você sempre arranja uma desculpa, tem sempre que estudar...

— Acontece que eu não quero ir sozinha, Rosana — desculpou-se Isabel, como se estivesse convidando a amiga para uma sessão de tortura. — Minha mãe exige que eu vá. É o aniversário do Cristiano, um primo que eu não vejo há anos. Dizem que sempre foi o melhor aluno da classe. Um chato! E o pior é que ele foi transferido para o nosso colégio. A partir de segunda-feira vou ter de conviver com o chatinho a vida inteira. Faltam só dois dias... A festa deve ser tão chata quanto ele. A gente fica só um pouquinho e...

— Já disse que vou, Isabel. Uma festa é uma festa. E esta não deve ser mais chata do que as outras...


***


Lá estava ele de novo. O inimigo, agora rachado de cima a baixo, dizendo para Isabel que ela ficava medonha com aquela blusa, que seu cabelo estava um lixo, que todo mundo ia rir dela na festa...

— Todos riem, não é? Só que eu nunca dou tempo para que riam de mim. Eles têm de rir do que eu digo. Têm de rir comigo, na hora que eu quero que eles riam. Todo mundo ri do que eu digo, não é? Isabel, a grande gozadora! Isabel, a contadora de casos. Vamos, riam todos com Isabel!

Levemente, seus dedos tocaram a face fria do inimigo, bem na rachadura. Lentamente, seus dedos percorreram a rachadura, tateando como um cego que procura reconhecer alguém.

— Todos riem... Mas eu não queria tantos risos. Eu queria um sorriso apenas. Um só. Queria estar quieta e ver alguém aproximar-se, olhando nos meus olhos... sorrindo... Eu sorriria de volta, e nada mais precisaria ser dito...

Isabel deixou as lágrimas correrem fartas pelo rosto. Foi aí que o inimigo resolveu feri-la mais fundo e cortou-lhe o dedo com a borda da rachadura. Num gesto maquinai, a menina levou o dedo à boca, chupando o ferimento. Na rachadura, no peito do inimigo, ficou uma gota de sangue.

O dedo não doía quase nada.

Era ali que doía.



Trecho do Livro: “A marca de uma lágrima” de Pedro Bandeira.


“Com o amor no coração... e com a morte na alma.” Reler Pedro Bandeira sempre deixa lembranças boas e gostosas... Esse livro, sem sombra de dúvidas, foi um dos mais marcantes que li – e olha que já li muitos e muitos livros – mas este está na minha lista top, pois marcou minha pré-adolescência. Saudades das leituras dessa época da minha vida. Ô época boa, de leituras e descobertas, eu e minhas irmãs comentando todos os livros, brigando pelos melhores, indicando umas às outras... Até hoje lemos e relemos tudo que amamos: Marcos Rey, Álvaro Cardoso Gomes, João Carlos Marinho, Pedro Bandeira e tantos outros. Impossível não ter um comentário quando se fala em livros como o Gênio do Crime, A Droga do Amor, A Hora do Amor e Os Karas.... muito bom.

Ciúmes


Quando chegamos, tomei banho rápido e fui correndo pra casa dela. Mas fiquei chateado porque tinha visita. E adivinha quem? Justo a besta do Mário Antônio! Lúcia Helena, sem levantar da cadeira, disse:


— Oi, Beto, conhece o Marinho?


Marinho! E parecia que ela tinha me visto ontem.


— Já conheço o Bebeto — disse ele me apertando a mão.


Bebeto! Bebeto, a mãe!


— O Mário Antônio está se preparando para o ITA — disse D. Helena toda emproada.


Quando ela falou "Antônio", fiquei roxo de raiva.


— Sente-se, Roberto. Lúcia Helena, providencie um refrigerante para seu amigo.


— Obrigado, D. Helena, mas não estou com sede.


Bem que eu tinha vontade de uma Coca, mas estava tão louco que tinha medo de engasgar. A besta do Mário Antônio estava todo cheio de si. Como se fosse o rei do mundo. Papo pra cá, papo pra lá. E tinha um sapato cinzento que era uma coisa. Igual a um que eu tinha visto na "Ideal", bonito à beça.


Eu olhava aquele sapato cinza e ficava mais louco ainda, ele só mexendo com o pé, de vez em quando dando uma mirada no bico. E eu com meu Vulcabrás descascado e fedorento.


Vantagem pra cá, vantagem pra lá, falou da DKW vermelha que ia ganhar do pai, falou que era o primeiro da classe, que, depois de formado, ia estudar na Europa. E D. Helena só faltando beijar o pé dele: "Mário Antônio" daqui, "Mário Antônio" dali.


Eu não agüentava mais a conversa. Doido pra ficar sozinho com Lúcia Helena, e nada do Mário Antônio desgrudar da cadeira. Até que ele convidou Lúcia Helena pra tomar um sorvete no sábado. Como eu estava ali do lado, feito um idiota, me convidou também:


— Não quer ir com a gente, Bebeto?


Bebeto, a mãe! Respondi de maus modos:


— Não gosto de sorvete.


— Não vem com essa — disse Lúcia Helena. — Você adora sorvete de morango.


Senti uma raiva dela, mas fiquei quieto. A besta continuava rebolando aquele sapato nojento. Quando se despediu, eram quase seis horas. Fui saindo também, me mordendo por dentro. Lúcia Helena foi atrás de mim:


— Como que é, Beto, vai saindo assim sem conversar?


Pra falar a verdade, eu tinha perdido toda a vontade de conversar. Só de lembrar a cara daquele sujeito, eu ficava meio maluco.


— Como foi de férias? Tenho um monte de coisas pra te contar.


Começou a me falar do Rio de Janeiro, das praias. Falou também que tinha sentido saudade de mim. Eu nem prestava atenção no que ela dizia; só ficava pensando naquele sapato cinzento. Por fim, eu disse:


— Mas você nem se levantou quando entrei...


Ela me olhou de uma maneira gozada, como se não tivesse entendido o que eu tinha falado:


— O que que foi, Beto? Não estou... — mas não terminou de dizer o que queria. Como se lembrasse de alguma coisa mudou de assunto.


— Ah. esqueci de dizer: adorei o cartão que você me mandou.


Foi aí que eu senti remorso do que tinha feito em Santos. Se eu gostava tanto de Lúcia Helena, por que tinha paquerado aquele bagulho? Então, esqueci da besta do o Antônio, do sapato cinzento e ficamos conversando até de noite. D. Helena chamou pro jantar e me convidou. Agüentei a chatice da velha, só pra ficar junto de Lúcia Helena.


Quando voltei pra casa, pensei que ia dormir feliz, mas não é que de repente me lembrei do convite do nojento? E se Lúcia Helena aceitasse?


No sábado, convidei Lúcia Helena pra ir no cinema. Estava cheio da grana, porque tinha entregado duas encomendas pro papai. Mas tive uma bruta surpresa quando ela disse:


— Esqueceu que o Marinho convidou a gente pra tomar sorvete?


— Convidou você — respondi já meio cabreiro.


— Claro que te convidou também.


— ...só convidou porque eu estava junto com vocês.


— Que é que tem, Beto? O Marinho é um cara legal.


Quando ela falou que ele era legal, tive que ir embora, se não ia ter um troço.


Legal? Como podia ser legal um cara que só contava vantagem? O que Lúcia Helena via nele? Voltei pra casa louco da vida, fui entrando, chutando porta, cadeira, e, ainda por cima, o Leio tirou sarro:


— Como é, brigou com a gatinha?


Xinguei o Leio e fui pró quarto. Deitei na cama e fiquei um tempão pensando, pensando, mas a única coisa que vinha na minha cabeça era que, à noite, o nojento do Mário Antônio ia sair com a Lúcia Helena, e eu que nem bobo lambendo o dedo.


Depois do almoço, resolvi subir a pé a avenida atrás da estação da estrada de ferro. Toda vez que eu ficava nervoso, ia até a caixa-d'água. Chegando lá, subia a escadinha de ferro, acho que uns trinta metros, e olhava a cidade de cima. Era uma ventania danada, e o medo que eu sentia subindo me fazia esquecer das coisas.


Eu nunca chegava na beirada, porque o vento podia me derrubar. Mas, naquele dia, fui chegando, chegando, e por dentro eu tremia de medo. Depois, eu recuei e deitei de costas no cimento e, enquanto fiquei suando frio, pensando que podia ter morrido, tive umas idéias malucas.


Por exemplo: o Mário Antônio podia ganhar a DKW vermelha e depois morrer num desastre, quando estreava o carro. Pensei também que podia ficar forte, levantando peso, e dar uma surra nele. Quando eu parei de pensar aquelas besteiras e desci, já estava mais calmo.


Decidi então ir com eles; não era culpa de Lúcia Helena que o bestalhão tivesse convidado pra tomar sorvete. Se eu não fosse com eles, só ia dar vantagem pro Mário Antônio.




Trecho do Livro: "A Hora do Amor" de Alvaro Cardoso Gomes.


Para todos aqueles que, como eu, até hoje adoram literatura infanto-juvenil.

Canção de Amor




Não. Eu gosto do Edu. Ele é tão cativante, cativante e inesperadamente doce. Como uma canção. É, ele parece uma canção. Na verdade se ele fosse uma canção seria um modão, daqueles bem puxados com muitos r’s. Mas eu gosto dele, gosto mais do que deveria.

Tá, mas gostar dele é apenas uma ideia e não uma obsessão, é como uma música chata que entra na nossa cabeça e não quer mais sair. Bom, isso parece uma obsessão. Tá, mas talvez eu goste da simples ideia que faço dele, como um conceito que eu criei. Talvez seja isso mesmo, gosto simplesmente da ideia de gostar. Acho que a minha imaginação o criou como um príncipe com o seu cavalo branco vindo em minha direção. Peraí, se eu o conheço bem, é capaz de vir só o cavalo. Então por que?

Não. O Edu é cativante, é um doce. Mas ele deve me ver como uma menina boba de cabelo vermelho e unhas verdes, que é o que sou, mas e daí? Sei que sou um retrato apagado na parede, escondido entre a mobília e as sombras, mas e daí? Por que ele não pode me ver como uma mulher semi-deusa, semi-mallu, semi-tudo? Só porque não o sou? Ok, mas pôxa...

Pelo menos ainda tenho a música, aquela chata que não sai da cabeça, e é um modão. As vezes é até bom somente gostar. Gosto quando ele deixa a sua marca ao passar, como quando eu sinto o seu olhar. Gosto do seu jeito de sorrir que me deixa imobilizada, meio boba. Gosto quando ele se encontra nos meus olhos e mesmo assim finge não notar. Tá, isso não tá ajudando. Mas é bem verdade que é preciso que eu suporte duas ou três larvas se quiser conhecer as borboletas.

Será que eu sou apenas uma menina boba de cabelo vermelho? Ele até chamou pelo meu apelido outro dia: Guta cabeça de fósforo. Vontade de esganar ele, mas aproveitaria pra tirar uma casquinha... Não. Só esganar mesmo. Mas ai... se ele de repente me olhasse com outros olhos, talvez eu viraria a Guta vermelho paixão ou a Guta do seu coração, essa só pra rimar mesmo, assim como o meu gostar rima com Edu, Edu a doce canção.



Sophia Jordany

Certos momentos e nada mais



Ele me olha daquele jeitinho, joga um beijo no ar e se vai. Seu cheiro fica em mim, como sempre, assim como o som da sua voz que se perde no silêncio da distância e invade a minha então solidão. O sofá me olha de lado, denunciando sua ausência, posso vê-lo novamente, ali jogado, desprendido e despojado e ainda o sinto assim. Mesmo sabendo que, diante de minhas renúncias e loucuras, o que sinto por ele possa machucar, aceito esta como a única forma de viver a vida plenamente.

É imprevisível o sentimento, rio pra mim mesma, é incontrolável a emoção. É um sentimento se mostrando mais poderoso do que eu e minhas listas de certo e errado. É o amor me provando ser mais óbvio do que todas as minhas certezas. Mas o que posso fazer? Ele é o responsável pelas minhas manhãs de esperança, noites de aconchego, tardes de beleza.... E no fim, tudo se finda em nós mesmos e em certos momentos, nada mais. Eu havia prometido não tentar entender, mas apenas sentir este amor que extrapola tudo o que sou.

Mas gosto da sensação de ainda ser eu mesma, lá no fundo, apesar das mudanças denunciadas no reflexo do espelho. Vejo que desapareceram as marcas negras de outrora, eu pantera de mim, mesmo quase sem resquícios de sua existência, ainda vive, e se esconde por traz de um sorriso meia boca. Somente o sol de sua presença faz a pantera negra fugir e esconder-se no negrume dos sentimentos, numa gaveta escondida, empoeirada...

Porém já não há a desejada e escolhida solidão, pois a razão se perdeu quando o desejo da sua presença extrapolou na saudade, na necessidade dos seus ares, do sorriso de menino que brinca de ser homem, como quem pede ao tempo mais uma chance para viver como antes, como na foto pequena e o sorriso de criança.

Menino levado, de sorriso maroto, um dos mais bonitos que escolhi para minha coleção, que transformou a minha vida em antes e o depois da sua existência em mim. Diante disto, aceitei a simplicidade do sentimento, carregado, no entanto de tanta loucura e muita emoção. Amá-lo é como um vício, de querer estar preso por vontade, deste sentimento que não apenas aquece com delírios e desejos, mas também queima com paixões e ciúmes.

Amor obstinado, que gosta do impossível e não tem medo do improvável, num momento de desatino encontrou meu coração. Coração antes desprendido, envolto em chamas de orgulho, hoje transparente, doando-se sem pensar. Ah menino maroto... amá-lo mais que a mim mesma é a única sentença verdadeira nesta confusão de palavras soltas no ar, verdade esta inconfessável, porém absoluta, pois o que chamam de destino, chamo de inevitável.



Isabelly Kim

A menina e a pantera negra



A menina abriu a janela (seu nome era Bianca) e ela estava lá, deitada à sombra da figueira secular: uma pantera negra. Quieta, absolutamente tranqüila, pêlo reluzente. Apenas a cauda se mexia ritmicamente.


Seus olhos, profundos e terríveis, olharam a menina. E foi então que o felino a chamou pelo nome: Bianca...


Havia quase ternura em sua voz, mas a menina, aterrorizada, fugiu. Não tanto por medo da pantera, mas por medo do seu chamado. Bianca... Era como se ela já a conhecesse de longa data e estivesse voltando para um reencontro.


A menina correu para o pai. Para quem mais correria, num momento como esse?

- Papai, eu vi uma pantera negra. Deitada debaixo da figueira. E me chamou pelo nome...


Havia muito medo em sua voz. Seu pai não se assustou. Sabia que as panteras negras não aparecem assim, no quintal das casas. Panteras são animais que vivem longe, muito longe, nas matas.


- Acho que você teve um pesadelo, minha filha. Não há panteras negras por aqui. Sonho ruim na hora de acordar...


- Não, não – disse ela. Sei que não foi. Por favor, venha! – e puxou o pai pela mão.


Ele a acompanhou até a janela do quarto, para tranqüilizá-la. E, de fato, nada havia sob a figueira. Estava como sempre...


- Eu não lhe disse? Não há panteras por aqui – Sua voz era sábia e tranqüila. Tudo voltou ao normal. Bianca acreditou que tudo não passara de uma visão. Algumas pessoas vêem santos dos céus, e são beatificadas. Outras vêem feras selvagens das florestas e são aterrorizadas. Mas ela não conseguiu esquecer a forma como a chamara: Bianca...


No dia seguinte, já se esquecera de tudo. E, como sempre, abriu a janela que dava para a figueira. E lá estava de novo.


- Bianca... – repetiu, desta vez com um pouco mais de força. A menina correu para o pai.


- Venha, venha depressa...


Desta vez, ela não fugiu. Ficou lá, tranqüilamente. O pai correu para o seu rifle, mirou a pantera e atirou. Mas nada aconteceu...


A pantera levantou-se, sem pressa, e retirou-se vagarosamente, movimentando a cauda.


- Faremos tudo para espantar esse animal que está assustando minha filha. E assim penduraram nas árvores e cercas guizos, sinos e latas, pois animais da selva se assustam com ruídos diferentes. Acenderam fogueiras ao redor da casa, pois eles temem o fogo. E encheram o quintal de pessoas, já que eles fogem dos homens (por horror ao cheiro doméstico).


Era uma complexa rede de defesas, montada para afugentar a pantera que assustara a criança com seu chamado. – Bianca... – A pantera desapareceu. Não mais aparecia sob a figueira, pelas manhãs. Durante todo o dia, era como se não existisse. Mas logo que caía a noite os seus rugidos começavam a ser ouvidos, e ora pareciam ferozes, ora tristes, como se lamentassem algo.


Por vezes ouviam-se ruídos nas portas, patas arranhando, e pela manhã sinais de garras podiam ser vistos na madeira. Se algo assim acontecia durante a noite, e o pai de rifle em punho abria a porta, pronto para atirar e matar, não se via coisa alguma.


Lá fora tudo estava tranqüilo, as sombras das árvores, o ruído do vento. Depois de muito tempo, convenceram-se de que a pantera negra deveria ser um ser mágico, que nenhuma bala poderia matar e nenhuma armadilha prender.


Acontece que por ali havia um sábio (muitos o consideravam feiticeiro), conhecedor das coisas misteriosas do dia e da noite, da vida e da morte. E resolveram consultá-lo.


- Entendo o seu medo – disse ele a Bianca – Tudo o que se desconhece é terrível. E de forma especial a pantera negra. Por um lado, é tão linda e segura de si, pêlo macio e brilhante, que seria bom agradar. Mas é também coisa selvagem, que ataca de repente, filha da noite, carregando a morte nos dentes e garras.


- Que devemos fazer para nos livrar dela? – perguntou o pai de Bianca, ansioso por uma receita.


- Nada – respondeu o sábio. As panteras só conseguem falar quando estão amando. Ela está amando você, Bianca. E não a abandonará por nada neste mundo. Ela a escolheu. Agora é sua.


- Mas não a quero – disse a menina em desespero. Que é que posso fazer com uma pantera? Desejo mesmo é me livrar dela.


- Isto é impossível, respondeu o feiticeiro. Você só tem duas alternativas: ou a deixa de fora, e ela continuará a assombrar o seu sono durante a noite, ou você deixa que ela entre, e ela se tornará sua amiga...


- Mas como posso fazer isso? – perguntou Bianca.


- É simples. As panteras selvagens são domadas quando aprendemos a dizer seu nome. Descubra o seu nome e chame-o durante a noite. Ela virá...


- Mas como descobrir o nome da pantera? –perguntou Bianca.


- Isto eu não sei – respondeu o sábio. Você terá de descobrir por conta própria...


Com estas palavras, deu por encerrada a conversa. Bianca e seu pai voltaram perplexos para casa. Parecia coisa impossível e louca a tarefa que o sábio lhes dera: descobrir o nome da pantera. Consultaram domadores de animais, escreveram para jardins zoológicos, examinaram livros especializados, colecionaram dezenas de nomes. Tudo em vão. A pantera não atendia.


- É porque nenhum destes é o nome da pantera – disse-lhes o sábio, numa outra ocasião. São os nomes que os homens lhe deram. É preciso aprender o nome dela, que mora no seu corpo...


Naquela noite Bianca sonhou. A pantera estava lá, debaixo da figueira. Olhava para a menina e lhe dizia:


- Meu nome é o inverso do seu... E desapareceu.


Esta, pelo menos, era uma pista: o inverso do nome de Bianca. Brincou de inverter as letras, para ver se significavam algo. Leu o seu nome refletido no espelho. Investigou as razões pelas quais lhe haviam dado este nome.


- É porque você, ao nascer, era branca, muito branca, como a Branca de Neve. E assim, a batizamos de Bianca.


Mas tudo era inútil. O enigma continuava.


- Meu nome é o inverso do seu...


Aconteceu, entretanto, que houve uma noite em que Bianca e seu pai olhavam velhos retratos. Em um envelope estavam os negativos. Bianca tomou um deles e observou contra a luz. Era ela, não havia dúvidas.


- Que gozado, papai – disse ela. No negativo meu rosto está preto. É o inverso...


Subitamente ela parou, olhando no vazio, como se houvesse viso algo inesperado. E gritou:


- É isto, o inverso... O negativo é o inverso. O inverso do meu nome – Bianca, branca, é negro. O nome da pantera deve ser Negra, o meu lado noturno. Não é assim? Luz e escuridão, dia e noite, Bianca e Negra...


Exultante, num misto de alegria e medo correu para a porta, abriu-a para as sombras das árvores e o ruído do vento e disse:


- Negra, Negra...


Ouviu-se um leve barulho nas folhas do jardim e a pantera Negra se aproximou, tranqüila como sempre. Lambeu as mãos da menina e deitou aos seus pés. E quando Bianca acariciou o pêlo negro da pantera adormecida sentiu uma enorme sensação de felicidade. Nunca mais teria medo. Quem tem a pantera Negra como amiga não precisa temer mais nada.


Rubem Alves

O amor mais bonito


No instante que me iludo, é quando você me esquece. Quando volto à tona, você mergulha nos meus olhos. Se eu te roubo rosas vermelhas, você faz "bem-me-quer". Quando hesito, é quando você já está na estrada.

Se me perco no teu beijo, você fica tentando encontrar um caminho. Quando me encho de receio, você me diz estar pronta. Eu te ponho em xeque-mate, você me diz que cansou de jogar. Quando não quero me machucar, você me telefona no meio da noite.

Eu vejo o sol nascer no mar, você se preocupa em não molhar os pés. Quando eu não durmo, é quando você sonha loucuras sobre nós dois. Quando sinto teu gosto na minha boca, você pede economia nos clichês. Se não quero parecer patético, você se diz um poema apaixonado.

Eu quero parar o tempo, você procura seu relógio embaixo da cama. Quando me escondo, é quando você me quer em cima de você. Se apresso meu passo na sua direção, você engata a marcha ré. Quando reuno meus pedaços, você dá o coração para bater.

Eu deito no seu colo, você se preocupa em fechar a janela. Quando me poupo, é o instante que você se dá de graça. Se ando em alta velocidade, você conta os níqueis pro pedágio. Eu perco as chaves, você insinua mudar pro meu apartamento.

Um amor físico, fatídico, real, raro e patente. Um amor que nasceu, mas nunca viveu. Um amor que aconteceu, mas não foi ocupado. Daquelas comédias românticas que ninguém tem tempo de rir, pois já começa pelo final. Os amores mais bonitos são aqueles que nunca foram usados.


Gabito Nunes

Um dia


Um dia você pega as suas coisas, faz as malas, se despede de quem ama e sai porta afora, para um mundo novo, buscando a liberdade e a felicidade tão sonhada.

Um dia você aluga um apartamento ou uma casa, aprende que tem que cozinhar para si próprio, se quiser comer. Que tem que limpar sua casa, se quiser um lugar organizado, aprende que independência da casa dos pais não implica em fazer o que bem entende. A sociedade tem regras, e você começa a sentir isto na pele, e deve segui-las.

Um dia você vê que só o seu dinheiro poupado durante tantos anos a fio, já não é o bastante, então tem que procurar um emprego, para poder se sustentar. Sempre achava que a liberdade era uma coisa linda e maravilhosa, e você não precisaria se preocupar com nada. Agora vê que ela engloba responsabilidades, deveres e direitos.

Um dia você se sente deprimido, pois a vida independente não é um mar de rosas, e se arrepende de ter saído da casa de sua família, e pensa em voltar. Mas também pensa em tudo o que aconteceu para sair, e fica dividido entre o que fazer.

Um dia você descobre que apesar de estar sendo exatamente igual a seus pais, o seu lar é o seu castelo, e você se sente feliz consigo próprio, e assim como seus pais eram os reis na casa deles, você é o rei na sua.

Um dia você descobre que ser rei de seu castelo envolve deveres, direitos e responsabilidades, e que mesmo assim não é fácil, é uma batalha constante para manter seu pedacinho de chão.

Um dia você descobre que está envelhecendo, que está ficando mais chato, mais turrão, a memória está falhando, se sente mais cansado, se sente meio frustrado, pois seus sonhos eram apenas sonhos, e as lágrimas correm tão facilmente em momentos inesperados.

Um dia você percebe que nos momentos que deveria falar, se calou e e outros, quando deveria ficar calado, falou.

Um dia você descobre que muitas coisas que fez não tinham razão de ser, e que se pudesse voltar atrás, mudaria tudo, entretanto, existem tantas outras que mesmo com algum final desastroso, deixaria como está.

Um dia você descobre que os seus verdadeiros irmãos são aqueles que um dia passaram por sua vida e deram um encontrão em você e seguiram adiante. Outros, que estiveram sempre presentes, mesmo que ausentes.

Um dia você descobre que nunca esteve sozinho, que sua família esteve sempre ligada a você em todos os momentos de sua vida, e você sempre, na verdade, seguiu os passos dela, sem nem mesmo perceber.

Um dia você percebe que aquilo pelo qual você sempre lutou só vai ser reconhecido por você mesmo, pelos que acompanharam sua caminhada e aqueles que realmente te amaram, e sempre estiveram a seu lado torcendo por você e incentivando quando você cambaleava.

Um dia você percebe que os verdadeiros inimigos de sua evolução não estão nas ruas, mas dentro da casa que você abandonou, dizendo-se irmãos, primos, sobrinhos, etc. Percebe que você é infeliz, pois ainda está ligado ao que pensam de si.

Um dia você percebe que é hora de se desvincular disso tudo e seguir os seus próprios passos, caminhar com seus pés, fazer sua própria vida e ser aquilo que você quer ser, não aquilo que os outros querem que você
seja.

Um dia você percebe que a felicidade está dentro de você, e você tinha este tempo todo a chave para abrir esta porta e libertá-la.

Um dia você vai ter coragem suficiente para deixar suas coisas de lado, abandonar as malas do passado, carregar dentro de seu coração aqueles a quem ama e quem realmente estiveram a seu lado e sair porta afora, para um mundo novo, livre e feliz.

Um dia você vai perceber que finalmente realizou seu sonho e finalmente é feliz.


José Feldman

Ela




Bateu a porta com tanta força que fez o pequeno gato cinza claro afundar a cara nas almofadas do sofá encardido.

Não era a primeira vez que sentia essa intensa necessidade de gritar até ficar rouco e despejar um turbilhão de verdades que foram deixadas de lado.

Nada fez.

Preferiu ligar o computador e trocar aquele silêncio invasor por um zunido baixo e constante, típico das máquinas que desejam ser trocadas em breve, e isso o incomodou, principalmente por causa da luz que vinha daquela tela imóvel e branca, terrivelmente branca.

Que pavor lhe causara a cor branca!

Como poderia haver no mundo uma cor tão insolente, capaz de clarear aquilo que deve permanecer nas trevas.

Precisava fazer alguma coisa!

Resolveu encarar a tela e escrever um pouco, assim aquele branco se dissiparia e ele ficaria mais calmo.

"Acho que estou tendo alucinações" pensou, enquanto escrevia com dedos trêmulos, seu próprio nome, num ritual desordenado.

Ficou com medo das palavras e seus significados... Logo ele: um escritor que passara a vida inteira entrelaçado entre frases e letras!

No canto inferior da tela branca, viu que faltava um minuto para as três da manhã, e que a brancura da tela havia aumentado.

Tensão.

Lembrou-se de Janaína, de seu riso fácil e da última coisa que havia dito antes de abandoná-lo: "Você é louco", a frase ecoava em sua cabeça desde o instante em que ela fechou a porta delicadamente e definitivamente.

De repente, como num passe de mágica, uma estranha idéia pousou em sua mente.

Iria se livrar de seu computador velho e da maldita tela que iluminava sua cara de desespero.

O que diria para os vizinhos?E para o síndico rabugento?

Ao olhar para a tela em branco, o escritor se deu conta de que não tinha mais nada a dizer.

E apenas uma a fazer.

Seria o duelo final e lhe daria muito prazer: exterminar a maldita tela branca que refletia o fracasso de um homem que fez das palavras um veneno letal.

Abriu a janela e um golpe de ar frio o encorajou a colocar um ponto final naquela tortura.

Começou com as menores partes da máquina: mouse, teclado, enfim, parte por parte sendo jogadas pela janela e destruídas pelo asfalto

Por fim abraçou a tela em branco, que ele caprichosamente deixou ligada na tomada.

Quando a viu se espatifar na rua vazia, teve uma terrível certeza: não poderia viver sem ela, a tela!
Instintivamente, pulou.

E misturou seu sangue e sua carne com plástico, vidro e fios.

Agora, finalmente, eram um só.



Vera D'Araio
In: Releituras