Um dia


Um dia você pega as suas coisas, faz as malas, se despede de quem ama e sai porta afora, para um mundo novo, buscando a liberdade e a felicidade tão sonhada.

Um dia você aluga um apartamento ou uma casa, aprende que tem que cozinhar para si próprio, se quiser comer. Que tem que limpar sua casa, se quiser um lugar organizado, aprende que independência da casa dos pais não implica em fazer o que bem entende. A sociedade tem regras, e você começa a sentir isto na pele, e deve segui-las.

Um dia você vê que só o seu dinheiro poupado durante tantos anos a fio, já não é o bastante, então tem que procurar um emprego, para poder se sustentar. Sempre achava que a liberdade era uma coisa linda e maravilhosa, e você não precisaria se preocupar com nada. Agora vê que ela engloba responsabilidades, deveres e direitos.

Um dia você se sente deprimido, pois a vida independente não é um mar de rosas, e se arrepende de ter saído da casa de sua família, e pensa em voltar. Mas também pensa em tudo o que aconteceu para sair, e fica dividido entre o que fazer.

Um dia você descobre que apesar de estar sendo exatamente igual a seus pais, o seu lar é o seu castelo, e você se sente feliz consigo próprio, e assim como seus pais eram os reis na casa deles, você é o rei na sua.

Um dia você descobre que ser rei de seu castelo envolve deveres, direitos e responsabilidades, e que mesmo assim não é fácil, é uma batalha constante para manter seu pedacinho de chão.

Um dia você descobre que está envelhecendo, que está ficando mais chato, mais turrão, a memória está falhando, se sente mais cansado, se sente meio frustrado, pois seus sonhos eram apenas sonhos, e as lágrimas correm tão facilmente em momentos inesperados.

Um dia você percebe que nos momentos que deveria falar, se calou e e outros, quando deveria ficar calado, falou.

Um dia você descobre que muitas coisas que fez não tinham razão de ser, e que se pudesse voltar atrás, mudaria tudo, entretanto, existem tantas outras que mesmo com algum final desastroso, deixaria como está.

Um dia você descobre que os seus verdadeiros irmãos são aqueles que um dia passaram por sua vida e deram um encontrão em você e seguiram adiante. Outros, que estiveram sempre presentes, mesmo que ausentes.

Um dia você descobre que nunca esteve sozinho, que sua família esteve sempre ligada a você em todos os momentos de sua vida, e você sempre, na verdade, seguiu os passos dela, sem nem mesmo perceber.

Um dia você percebe que aquilo pelo qual você sempre lutou só vai ser reconhecido por você mesmo, pelos que acompanharam sua caminhada e aqueles que realmente te amaram, e sempre estiveram a seu lado torcendo por você e incentivando quando você cambaleava.

Um dia você percebe que os verdadeiros inimigos de sua evolução não estão nas ruas, mas dentro da casa que você abandonou, dizendo-se irmãos, primos, sobrinhos, etc. Percebe que você é infeliz, pois ainda está ligado ao que pensam de si.

Um dia você percebe que é hora de se desvincular disso tudo e seguir os seus próprios passos, caminhar com seus pés, fazer sua própria vida e ser aquilo que você quer ser, não aquilo que os outros querem que você
seja.

Um dia você percebe que a felicidade está dentro de você, e você tinha este tempo todo a chave para abrir esta porta e libertá-la.

Um dia você vai ter coragem suficiente para deixar suas coisas de lado, abandonar as malas do passado, carregar dentro de seu coração aqueles a quem ama e quem realmente estiveram a seu lado e sair porta afora, para um mundo novo, livre e feliz.

Um dia você vai perceber que finalmente realizou seu sonho e finalmente é feliz.


José Feldman

Ela




Bateu a porta com tanta força que fez o pequeno gato cinza claro afundar a cara nas almofadas do sofá encardido.

Não era a primeira vez que sentia essa intensa necessidade de gritar até ficar rouco e despejar um turbilhão de verdades que foram deixadas de lado.

Nada fez.

Preferiu ligar o computador e trocar aquele silêncio invasor por um zunido baixo e constante, típico das máquinas que desejam ser trocadas em breve, e isso o incomodou, principalmente por causa da luz que vinha daquela tela imóvel e branca, terrivelmente branca.

Que pavor lhe causara a cor branca!

Como poderia haver no mundo uma cor tão insolente, capaz de clarear aquilo que deve permanecer nas trevas.

Precisava fazer alguma coisa!

Resolveu encarar a tela e escrever um pouco, assim aquele branco se dissiparia e ele ficaria mais calmo.

"Acho que estou tendo alucinações" pensou, enquanto escrevia com dedos trêmulos, seu próprio nome, num ritual desordenado.

Ficou com medo das palavras e seus significados... Logo ele: um escritor que passara a vida inteira entrelaçado entre frases e letras!

No canto inferior da tela branca, viu que faltava um minuto para as três da manhã, e que a brancura da tela havia aumentado.

Tensão.

Lembrou-se de Janaína, de seu riso fácil e da última coisa que havia dito antes de abandoná-lo: "Você é louco", a frase ecoava em sua cabeça desde o instante em que ela fechou a porta delicadamente e definitivamente.

De repente, como num passe de mágica, uma estranha idéia pousou em sua mente.

Iria se livrar de seu computador velho e da maldita tela que iluminava sua cara de desespero.

O que diria para os vizinhos?E para o síndico rabugento?

Ao olhar para a tela em branco, o escritor se deu conta de que não tinha mais nada a dizer.

E apenas uma a fazer.

Seria o duelo final e lhe daria muito prazer: exterminar a maldita tela branca que refletia o fracasso de um homem que fez das palavras um veneno letal.

Abriu a janela e um golpe de ar frio o encorajou a colocar um ponto final naquela tortura.

Começou com as menores partes da máquina: mouse, teclado, enfim, parte por parte sendo jogadas pela janela e destruídas pelo asfalto

Por fim abraçou a tela em branco, que ele caprichosamente deixou ligada na tomada.

Quando a viu se espatifar na rua vazia, teve uma terrível certeza: não poderia viver sem ela, a tela!
Instintivamente, pulou.

E misturou seu sangue e sua carne com plástico, vidro e fios.

Agora, finalmente, eram um só.



Vera D'Araio
In: Releituras