Ciúmes


Quando chegamos, tomei banho rápido e fui correndo pra casa dela. Mas fiquei chateado porque tinha visita. E adivinha quem? Justo a besta do Mário Antônio! Lúcia Helena, sem levantar da cadeira, disse:


— Oi, Beto, conhece o Marinho?


Marinho! E parecia que ela tinha me visto ontem.


— Já conheço o Bebeto — disse ele me apertando a mão.


Bebeto! Bebeto, a mãe!


— O Mário Antônio está se preparando para o ITA — disse D. Helena toda emproada.


Quando ela falou "Antônio", fiquei roxo de raiva.


— Sente-se, Roberto. Lúcia Helena, providencie um refrigerante para seu amigo.


— Obrigado, D. Helena, mas não estou com sede.


Bem que eu tinha vontade de uma Coca, mas estava tão louco que tinha medo de engasgar. A besta do Mário Antônio estava todo cheio de si. Como se fosse o rei do mundo. Papo pra cá, papo pra lá. E tinha um sapato cinzento que era uma coisa. Igual a um que eu tinha visto na "Ideal", bonito à beça.


Eu olhava aquele sapato cinza e ficava mais louco ainda, ele só mexendo com o pé, de vez em quando dando uma mirada no bico. E eu com meu Vulcabrás descascado e fedorento.


Vantagem pra cá, vantagem pra lá, falou da DKW vermelha que ia ganhar do pai, falou que era o primeiro da classe, que, depois de formado, ia estudar na Europa. E D. Helena só faltando beijar o pé dele: "Mário Antônio" daqui, "Mário Antônio" dali.


Eu não agüentava mais a conversa. Doido pra ficar sozinho com Lúcia Helena, e nada do Mário Antônio desgrudar da cadeira. Até que ele convidou Lúcia Helena pra tomar um sorvete no sábado. Como eu estava ali do lado, feito um idiota, me convidou também:


— Não quer ir com a gente, Bebeto?


Bebeto, a mãe! Respondi de maus modos:


— Não gosto de sorvete.


— Não vem com essa — disse Lúcia Helena. — Você adora sorvete de morango.


Senti uma raiva dela, mas fiquei quieto. A besta continuava rebolando aquele sapato nojento. Quando se despediu, eram quase seis horas. Fui saindo também, me mordendo por dentro. Lúcia Helena foi atrás de mim:


— Como que é, Beto, vai saindo assim sem conversar?


Pra falar a verdade, eu tinha perdido toda a vontade de conversar. Só de lembrar a cara daquele sujeito, eu ficava meio maluco.


— Como foi de férias? Tenho um monte de coisas pra te contar.


Começou a me falar do Rio de Janeiro, das praias. Falou também que tinha sentido saudade de mim. Eu nem prestava atenção no que ela dizia; só ficava pensando naquele sapato cinzento. Por fim, eu disse:


— Mas você nem se levantou quando entrei...


Ela me olhou de uma maneira gozada, como se não tivesse entendido o que eu tinha falado:


— O que que foi, Beto? Não estou... — mas não terminou de dizer o que queria. Como se lembrasse de alguma coisa mudou de assunto.


— Ah. esqueci de dizer: adorei o cartão que você me mandou.


Foi aí que eu senti remorso do que tinha feito em Santos. Se eu gostava tanto de Lúcia Helena, por que tinha paquerado aquele bagulho? Então, esqueci da besta do o Antônio, do sapato cinzento e ficamos conversando até de noite. D. Helena chamou pro jantar e me convidou. Agüentei a chatice da velha, só pra ficar junto de Lúcia Helena.


Quando voltei pra casa, pensei que ia dormir feliz, mas não é que de repente me lembrei do convite do nojento? E se Lúcia Helena aceitasse?


No sábado, convidei Lúcia Helena pra ir no cinema. Estava cheio da grana, porque tinha entregado duas encomendas pro papai. Mas tive uma bruta surpresa quando ela disse:


— Esqueceu que o Marinho convidou a gente pra tomar sorvete?


— Convidou você — respondi já meio cabreiro.


— Claro que te convidou também.


— ...só convidou porque eu estava junto com vocês.


— Que é que tem, Beto? O Marinho é um cara legal.


Quando ela falou que ele era legal, tive que ir embora, se não ia ter um troço.


Legal? Como podia ser legal um cara que só contava vantagem? O que Lúcia Helena via nele? Voltei pra casa louco da vida, fui entrando, chutando porta, cadeira, e, ainda por cima, o Leio tirou sarro:


— Como é, brigou com a gatinha?


Xinguei o Leio e fui pró quarto. Deitei na cama e fiquei um tempão pensando, pensando, mas a única coisa que vinha na minha cabeça era que, à noite, o nojento do Mário Antônio ia sair com a Lúcia Helena, e eu que nem bobo lambendo o dedo.


Depois do almoço, resolvi subir a pé a avenida atrás da estação da estrada de ferro. Toda vez que eu ficava nervoso, ia até a caixa-d'água. Chegando lá, subia a escadinha de ferro, acho que uns trinta metros, e olhava a cidade de cima. Era uma ventania danada, e o medo que eu sentia subindo me fazia esquecer das coisas.


Eu nunca chegava na beirada, porque o vento podia me derrubar. Mas, naquele dia, fui chegando, chegando, e por dentro eu tremia de medo. Depois, eu recuei e deitei de costas no cimento e, enquanto fiquei suando frio, pensando que podia ter morrido, tive umas idéias malucas.


Por exemplo: o Mário Antônio podia ganhar a DKW vermelha e depois morrer num desastre, quando estreava o carro. Pensei também que podia ficar forte, levantando peso, e dar uma surra nele. Quando eu parei de pensar aquelas besteiras e desci, já estava mais calmo.


Decidi então ir com eles; não era culpa de Lúcia Helena que o bestalhão tivesse convidado pra tomar sorvete. Se eu não fosse com eles, só ia dar vantagem pro Mário Antônio.




Trecho do Livro: "A Hora do Amor" de Alvaro Cardoso Gomes.


Para todos aqueles que, como eu, até hoje adoram literatura infanto-juvenil.

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